por Madson de Moraes

Personagem do premiado documentário Bike vs Cars, a cicloativista Aline Cavalcante fala sobre a transformação que viu na cidade de São Paulo com as ciclovias

A cicloativista Aline Cavalcante é figurinha carimbada na luta pelos direitos dos ciclistas. Aos 30 anos, a empreendedora social trabalha com projetos voltados para a mobilidade urbana e o uso da bicicleta como meio de transporte no oGANGORRA, espaço do qual é uma das fundadoras. Foi seu ativismo sobre duas rodas que a levou a ser uma das entrevistadas documentário Bikes vs Cars, do diretor sueco Fredrick Gertten, que explica como a bicicleta pode mudar a lógica de transporte em cidades como São Paulo, Los Angeles, Toronto e Copenhague, e foi premiado em festivais como SXSW Film Festival 2015.

Na próxima terça-feira, 13/12, ela vai participar do evento What Design Can Do, na capital paulista. 

Trip. Como o sucesso do Bikes vs Cars repercutiu na sua vida de cicloativista?Aline Cavalcante. Viajei bastante com o filme, principalmente pelo Brasil e pela América Latina, e não imaginava que pudesse ter tanta repercussão porque achava que bicicleta era um assunto de nicho. Quando fui à Suécia para o lançamento do filme me dei conta de que o documentário falava sobre o lobby da indústria automobilística e então percebi que o filme daria o que falar. Porque se fosse só sobre bicicleta e cicloativismo talvez a gente acabasse falando só para nós mesmos. O filme me deu a oportunidade de atingir outros públicos além dos ciclistas.

Quando você decidiu se tornar cicloativista? Quando comecei a andar de bicicleta em São Paulo, percebi o tanto de demanda que existia para melhorar a vida de quem pedala como meio de transporte. O ativismo começa em reunir pessoas, fazer manifestações em determinados lugares para mostrar que a gente existe, criar grupos de ciclismo com propósito de não ser apenas para passeio noturno. Fui conhecendo os grupos que já fazem isso há muito tempo, me envolvendo com a causa e entendendo como funciona a questão política relacionada à cidade.

Como surgiu a ideia de criar oGANGORRA? A gente criou a empresa em 2013, antes desse boom das bicicletas, a fim de qualificar e profissionalizar o ativismo.Sou uma das fundadoras junto com a Laura Sobenes, Evelyn Araripe e Pedro Ishikawa, todos cicloativistas. Pensamos: vamos ver se o que é hobby pode virar nossa forma de sobrevivência. Abrimos a empresa com esse intuito. Foi super legal porque profissionalizou mesmo, viramos consultores de ciclismo e cicloativismo. Muitas empresas nos procuram querendo entender essa linguagem, esse público. Foi uma oportunidade de conectar pessoas bacanas de diversas redes, amigos que conhecemos ao longo dessa trajetória.

Que projetos vocês desenvolvem tendo a bicicleta como eixo central? O arRUAça é uma metodologia que aplicamos para jovens do Campo Limpo, periferia de São Paulo. O objetivo é estimular o empreendedorismo social usando a bicicleta como ferramenta transformadora. Ele foi apresentado em 2015 na Velo-City, na França, a maior conferência de mobilidade por bicicleta do mundo. Outro projeto legal é a arrecadação e doação de bikes. A primeira edição foi no ano passado, em sete cidades brasileiras. Arrecadamos doações de bicicletas, demos um “tapa” mecânico com a ajuda de uma empresa e doamos para crianças e jovens carentes de instituições em São Paulo. Foram 87 bicicletas doadas! Numa das instituições, a coordenadora disse que a bicicleta se tornou um material didático para ensinar regras de cidadania e de convivência às crianças. Muitas nem sabiam pedalar.

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Há mais aplausos do que críticas à gestão do prefeito Fernando Haddad em relação às ciclovias? Tem aplausos e críticas na mesma medida. Tudo o que foi feito poderia ter sido feito melhor, mas eu aplaudo de qualquer forma. A gente precisa reconhecer que mudar o paradigma de uma cidade tão complexa como São Paulo não é fácil, não está sendo fácil e talvez na próxima gestão não vamos saber qual será o futuro. Então, eu aplaudo por um lado e critico por outro, mas sem questionar a política pública. Não é do PT ou do Haddad, é de São Paulo. Precisamos levar essa pauta para as próximas gestões independentemente de quem seja o prefeito.

O prefeito eleito João Doria já declarou que só vai ampliar a rede cicloviária em “real caso de necessidade”. Para você falar que uma coisa não funciona você precisa estudar. A Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo faz contagem de ciclistas em ciclovias com frequência e é impressionante o número de pessoas que passam por elas. Só que o ciclista é invisível, fluido. Não é a mesma lógica do carro que você vê no trânsito o tempo todo. Nós estamos em processo de dar visibilidade para a bicicleta. Soa irresponsável dizer que só vai ampliar por necessidade. Necessidade existe, é latente. Se você cria uma rede cicloviária que é segura, que conecta e que é inteligente, os ciclistas virão.

O protesto feito em frente à casa do Doria mostra que vai ter luta? Os cicloativistas estão bem organizados. Durante esses anos da gestão Haddad, conseguimos entrar e participar do sistema. Os ciclistas estão ocupando os espaços políticos e públicos, que foram abertos para a sociedade discutir e deliberar questões da cidade. Isso é muito bom porque não fica aquela coisa de ‘”Ah, saiu um prefeito, temos de reconstruir todo um espaço”. Não! O espaço está lá, ele é legítimo, oficial e vamos continuar pressionando. Ainda há muita luta pela frente.

Segundo o levantamento feito em 2015 pela Ciclocidade, apenas 6% das pessoas que pedalam em São Paulo são mulheres. O que justifica esse número? Há várias razões. A mulher, para pedalar, precisa passar por muitas barreiras que não são só o trânsito. É barreira social, de assédio nas ruas, de segurança, do trânsito machista e hostil a ela. A gente tem que lidar com o assédio, coisa que os homens não têm que lidar. Mas temos notado cada vez mais mulheres pedalando. Antes eu contava nos dedos as mulheres que pedalavam, hoje vemos um crescimento importante. A gente pedala na rua e já não sofre mais tanta agressão quanto antes. Ainda tem registros de agressão? Tem, não estou dizendo que aqui é Amsterdã. Mas é menor a violência em relação à bicicleta do que há seis, sete anos.

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Como é pedalar numa cidade caótica como São Paulo? Pedalar em São Paulo é revolucionário. Em qualquer lugar do mundo, pedalar é um ato de resistência mesmo que a pessoa que pedale não saiba. Mesmo que a pessoa fale “Ah, não sou cicloativista”. O fato de usar a bicicleta nas ruas significa uma pessoa a menos no transporte público, uma pessoa a menos congestionando as ruas e poluindo o planeta. Andar de bicicleta é, por si só, uma resistência ao status quo. A bicicleta é acessível, dos mais pobres aos mais ricos. A cada giro do pedal, quem pedala está participando de uma revolução.

Vai lá:

instagram.com/pedaline
instagram.com/ogangorra

Créditos

Foto principal: Divulgação

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