por Marcos Candido
Trip #268

Depois de 12 anos trabalhando na indústria têxtil – e se sentindo uma máquina –, Samuel Lenzi largou tudo para viver a paixão de criar e pintar letreiros handmade

Trip. Quem é você e o que você faz?

Samuel Lenzi. Meu nome é Samuel Lenzi, tenho 37 anos, e meu pai era pintor. Ele pintava caminhões e também criava letras. Já eu me formei designer gráfico e trabalhei 12 anos na indústria têxtil. Nesse ramo fiz ilustrações, desenhos digitais e gráficos. Há cerca de quatro anos me cansei do computador e fui estudar exclusivamente tipografia feita à mão. Fiz um curso em São Paulo que me serviu para “abrir” a cabeça. Assim, resgatei a história do meu pai, que pintava manualmente. Me inspirei na história dele e larguei tudo. Saí do estúdio onde trabalhava em Santa Catarina e estou há cerca de cinco anos trabalhando profissionalmente na criação de hand letterings [letreiros pintados à mão]. Tudo que precise de uma letra, com desenhos personalizados e tal, eu trabalho em cima. Já desenhei motos, carros, capacetes, fachadas, restaurantes e comércios. Hoje vivo exclusivamente do pincel. 

O que é feito à mão canaliza uma energia diferente? A arte foi muito digitalizada. Se massificou demais. Qualquer um pode fazer o download de uma fonte, já personificada para barbearias ou cafés, imprimir e colar. Mas quando um proprietário atravessa a rua, ele vê que outro cara tem um igual na parede. Se tornou uma coisa supérflua. Quando faço pintura à mão, crio uma letra, um logotipo, lixo a superfície e até elaboro uma textura diferenciada. Isso não se consegue numa gráfica, no mundo digital. Imprimir uma letra encontrada no Google cansou, sabe? Os meus clientes veem essa diferença.

Você sentiu um cansaço com o ritmo industrial da coisa? Por que isso aconteceu? Quando você se senta 12 horas na frente do computador, acaba mergulhando em uma loucura. Eu já não estava fazendo pintura manual, e sentia que estava perdendo a minha essência. Antes de entrar nesse ritmo, eu pintava um aquarelado, fazia uma letra à mão, fazia o scan, passava para o computador e me dedicava o dia inteiro a apenas um desenho. Quando a demanda aumentou e tive que fazer três desenhos por dia, virei uma máquina. Passei dez anos desta vida e vi que queria voltar às origens. Não estava mais feliz, e acho que esse é o valor que mais importa.

Esse ritmo engole as nossas habilidades individuais? Sim, é um pouco o que tento mostrar a quem contrata meu serviço. Mostro a ele que não sou uma máquina. Preciso de alguns dias e eles perceberam que não é trabalho para amanhã de manhã. O que é massificado acaba perdendo a alma – não existe aquela falha, aquela irregularidade, que às vezes é mais importante do que uma coisa 100% perfeita, como um adesivo.

Pintar à mão também serviu como forma de desacelerar? Eu mudei. Pintar à mão fez eu me redescobrir. Consigo sentar, estudar, olhar. Eu repenso a ideia, pinto novamente, imagino novas cores, aplico novas tintas, redesenho. Gosto de pintar e receber o máximo da experiência que isso pode me dar. Quanto mais eu trabalho, mais eu me inteiro da obra. A minha empresa é o que eu sou.

Você diz que foi atrás de felicidade. Encontrou? As pessoas me disseram que largar tudo e ir para São Paulo, se misturar à loucura do cotidiano, era arriscado para alguém que morou em Balneário Camboriú, ou em Florianópolis, onde meus amigos diziam ser um baita paraíso. Mas, pô, passei mais de 30 anos morando lá, quando você chega aqui e se vê pintando aqui e ali, você fica contente. Posso dizer que tomei a decisão certa, e que até demorei para tomá-la [risos].

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