por Renan Dissenha Fagundes

Na onda moderna de resgatar processos artesanais, o material mais associado ao universo masculino ganha tratamento especial pela Cutterman, que acaba de abrir a primeira loja física, em São Paulo

Mochilas de viajar, alças para câmeras fotográficas, uma carteira com espaço para uma palheta e um avental para os novos adeptos da marcenaria. O imaginário da Cutterman, uma marca de produtos de couro feitos à mão, de Curitiba, é bem claro. “A marca sempre foi um reflexo das coisas que a gente gostava de fazer”, conta Gustavo Oliveira, que fundou a empresa com Rafael Matheus há três anos. (Ele comprou a parte do sócio no fim de 2015.) “Essas coisas que fazem parte do universo masculino como um todo: desde café, vinho e cerveja até uma vida ao ar livre, andar de moto.”

Antes disponíveis apenas na internet, os produtos da marca ganharam seu primeiro endereço físico no fim de fevereiro, uma loja em São Paulo, no bairro de Pinheiros. “A gente queria que as pessoas tivessem um lugar pra vivenciar o ambiente da marca, para sair um pouco do online”, diz Gustavo. “Nosso primeiro plano era expandir o tamanho do estúdio aqui em Curitiba e fazer um showroom, mas São Paulo, por causa do tamanho do mercado, é onde a gente mais vende.” Conversamos com Gustavo sobre moda, produtos artesanais — e couro.

O site da marca afirma que ela resgata a “verdadeira essência do feito a mão”. Por que você quis criar algo assim? Eu sempre gostei de fazer coisas com a própria mão, tem alguns móveis na minha casa que eu fiz. E acho que a gente vive um momento do resgate das coisas, como um todo. As pessoas estão sentido a necessidade de resgatar coisas antigas e valorizar coisas que hoje em dia acabaram ficando atropeladas. A cerveja está passando por isso, o café está passando por isso, a parte de móveis também. Coisas que valorizam entender a história por trás de um produto, a ideia por trás de uma empresa, e não só a compra e o consumo.

Falando em cervejas artesanais: este tipo de mercado, diferente mas um pouco próximo, ajuda? Tá todo mundo no mesmo barco, sabe? A gente tem contato bem próximo com uma galera que faz coisas legais relacionadas a isto que eu tô te falando. Estamos desenvolvendo um produto que é destinado aos consumidores de cervejas artesanais. Vai ser uma growler bag, que é um negócio que está muito forte aqui em Curitiba. Já fizemos também uma colaboração com uma empresa de café daqui. São caras que a gente conversa muito.

Você acha que a apreciação de algo artesanal como uma coisa mais premium está mais forte no Brasil? Os seus produtos não são baratos. Eu acho que o nosso consumidor já é um cara que tem mais de 25 anos. É um cara que quer comprar... Isso entra muito na questão do consumo do homem. O que a gente percebe é que o homem precisa de uma motivação maior para consumir. O cara que se preocupa em ter uma coisa diferente, em carregar coisas que tenham uma história, que ele goste de falar sobre. Aquilo vai representá-lo de alguma forma, fazer parte da personalidade dele. Quando ele tira a carteira do bolso e coloca em cima da mesa e um cara fala 'pô, que carteira legal', ele quer contar “essa carteira é de uma marca lá de Curitiba, os caras tem um couro que é feito especialmente pra eles, tem um conceito xis, olha que massa”, sabe? Vale para um móvel, vale para a bicicleta.

Por que couro? Antes da marca nascer a gente passou em torno de seis meses estudando um projeto de um negócio que fosse viável e que atendesse uma série requisitos. Desde uma ideia mais banal como fazer uma marca de camisetas até chegar nisso que a gente construiu. De novo tem a ver com este movimento do resgate das coisas. O couro, de alguma forma, ficou um tempo ligado a uma coisa meio cafona, mas a gente via, há uns quatro anos atrás, marcas nos EUA e na Europa resgatando esse material. Transformando em produtos muito legais, marcas bacanas. Era uma oportunidade de criar algo com valor agregado, que você não encontrasse em qualquer lugar, porque é um material difícil de trabalhar. Demanda conhecimento técnico e algumas máquinas para ter um acabamento com nível satisfatório.

Quando você decidiu por isso, encontrou bons fornecedores no país? Os maiores curtumes que a gente tinha já fecharam. O que influencia bastante é o valor do dólar. Hoje tá bem difícil conseguir couro no Brasil porque com o dólar alto eles praticamente exportam quase toda a produção. Sobe o preço e diminui muito a oferta. Depois de algum tempo, a gente se firmou com fornecedores que conseguem manter uma qualidade de produto, com uma rapidez na entrega. Essa talvez seja a grande riqueza da marca: onde a gente compra nossa matéria-prima e o desenvolvimento que a gente tem com esses fornecedores.

Se o nosso couro vai todo pra exportação, quer dizer que não consumimos muito. O brasileiro entende de couro? O brasileiro não entende. Uma coisa que é interessante nos Estados Unidos: os produtos, na internet, tem a informação de que tipo de curtimento foi feito naquele do couro. Pra mim subentende-se que é público que entende um pouquinho mais aquilo que tá comprando. A gente está pensando em adotar essas nomeclaturas, pra gerar uma cultura de conhecimento do artigo. Uma coisa que praticamente não existe hoje aqui no Brasil.

Vai lá: cutterman.co | R. Mateus Grou, 644, São Paulo

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