por Pedro Carvalho

O destino de Jonas Letieri, um jovem e promissor surfista, mudou de repente, quando ele tentava pendurar uma placa na fachada de uma igreja. Foi depois daquele terrível acidente que sua vida decolou

Fazia um céu azul-primavera em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, na manhã de 30 de outubro de 2011. Jonas Letieri acordou cedo, caminhou com a namorada até a praia do Forte e abriu um sorriso ao olhar para o mar: as ondas quebravam tubulares, um pouco acima da altura da cabeça, alisadas por uma brisa que soprava da terra. A água estava geladíssima, mas nem de longe isso diminuía a sensação de gratidão pelo momento. Aos 26 anos, Jonas se considerava “no auge da vida”, como ele define. Morava em uma cidade paradisíaca, namorava uma surfista bacana, ganhava um dinheiro como designer gráfico e vinha se destacando nos últimos campeonatos de surf.

Naquela idílica manhã de domingo, porém, ele só pegaria duas ondas. Tinha um compromisso. A última delas, ele se lembra, se estendeu por um longo tempo, mas Jonas nem se importou em fazer manobras – apenas deslizou pela rampa de água, subindo e descendo, sentindo o impulso e manejando a velocidade até que ela se acabasse em espuma. “Estava com o coração amarradão, aquela sensação de estar fazendo a coisa certa, sabe?” Ele tinha combinado de encontrar um amigo para pendurarem uma placa metálica na fachada da igreja Bola de Neve, que frequentava desde que se mudara para a cidade, dois anos antes.

Se alguém lhe descrevesse essa realidade, digamos, uma década antes daquele dia, soaria mais como um sonho. Jonas viveu uma adolescência sem moleza em Salvador, na Bahia. Foi ali que se apaixonou pelo mar, incentivado pelo pai, Roberto. Aos 12 anos, ele passava os dias pegando jacaré entre os surfistas locais no point de Stella Maris – mas sem dinheiro para ter uma prancha como eles. Surf, mesmo, só experimentou depois que passou a recolher pedaços de pranchas quebradas e deixadas na areia. “Eu chegava em casa com a barriga toda cortada”, ele se recorda. Quando o pai conseguiu comprar uma prancha de verdade – uma triquilha 6’8’’ azul-floral – os dois tinham de compartilhá-la na água. “Dava muita briga para ver quem usava por mais tempo”, Jonas sorri ao se lembrar.

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Se tinha dificuldades com a grana, o garoto mostrava enorme facilidade para o surf. Tinha aquilo que gosta de chamar de conexão profunda com o mar. “Eu aprendi rápido. Estava na água sempre que entravam as maiores ondulações”, diz. Não demorou pra começar a frequentar campeonatos de surf pelo litoral baiano, em praias como Itacaré e Morro de São Paulo. Em vários desses eventos, ele vencia na categoria mirim e era convidado a competir com os mais velhos na open. “Foi quando coloquei na cabeça: quero ser um atleta profissional.”

Barganha com Deus
Jonas não sabia, mas seria muito mais do que isso. Um dia, sua família se mudou de Salvador para o Rio de Janeiro – onde por dois anos ele acabaria patinando no limo das festas e curtições da noite carioca – e então fincou âncora em Cabo Frio. Jonas, ali, colocou a cabeça no lugar de novo, retomou a rotina de atleta e desfrutou do “auge da vida” por um ano. Até sair do mar para pendurar aquela placa.

Naquele domingo, tal era sua sensação de compromisso que ele dispensou um churrasco na casa da namorada e, antes das duas da tarde, chegou à igreja. Em seguida, ele e o amigo subiram no topo do prédio de três andares para pendurar a placa na fachada. Era uma chapa metálica de 3 metros de comprimento por 6 de altura, que trazia o logotipo da congregação em cor branca sobre um fundo azul – o próprio Jonas tinha desenhado a peça. Tudo ia bem, até que, quando eles seguravam a placa paralela à fachada, o amigo pediu licença para alcançar um alicate. Por alguns segundos, Jonas ficou parado na beirada do prédio, segurando a placa sozinho. Então achou que seria melhor dar dois passos para trás, por segurança.

O movimento fez a borda inferior do objeto tocar um fio de alta-tensão. Jonas ouviu um ruído bizarro entrar em sua cabeça – primeiro um “bum” curto, seguido por um som alongado que lembrava um carro acelerando, um “vuuuuu” muito alto. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Tentou largar a placa – e ela não se descolou de suas mãos. Tentou falar com o amigo – e não conseguiu fazer as palavras saírem pela boca. A coisa toda durou uns 15 segundos. Jonas conta que então percebeu o que estava acontecendo e começou a “falar com Deus, mesmo”. “Eu vi que estava morrendo”, ele diz. “Meu impulso foi fazer uma chantagem emocional com Deus. Eu dizia: ‘Ainda quero casar, quero ter filhos, quero fazer a diferença’. Aí eu caí.”

Ele caiu para trás, a placa caiu na rua abaixo. Mais tarde o amigo contaria que, ao ouvir o barulho do choque e se virar com o alicate nas mãos, viu Jonas dentro de uma labareda de fogo. Uma descarga de 13.800 volts havia entrado pelas mãos do surfista e cozinhado seus braços, para depois – como Jonas estava de tênis de borracha – não conseguir sair pelos pés e acabar explodindo as panturrilhas do jovem que pouco antes deslizava sobre uma rampa de água esverdeada bem perto dali.

Um copo que cai
O engraçado (e talvez psicologicamente compreensível) é que a primeira sensação de Jonas tenha sido de euforia – além de uma sede excruciante. Estava vivo. Sabia que tinha sido por pouco, que tinha vencido a morte e teria uma nova chance. “Quando o bombeiro chegou, eu ficava fazendo piada com ele”, lembra.

Essa reação, entre o alívio e o autoengano, se prolongou pelos dois meses e meio que Jonas passou no hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro. Na chegada, o veredito dos médicos, ao verem o rapaz com queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo e os rins paralisados, foi determinar a amputação das duas pernas na altura da virilha e dos dois braços inteiros, deixando só o tronco. Depois, à custa de intervenções cirúrgicas brutais – em uma delas, um médico enfiou uma mão inteira por dentro da coxa de Jonas, para tratar as feridas internas –, eles foram capazes de salvar as pernas. Os braços, não. “O braço perdeu a vida, né?”, ele resume secamente.

A tudo isso, Jonas reagia bem. Fazia brincadeiras com a equipe médica, demonstrava ânimo para encarar os tratamentos. Quando saiu para a casa da mãe, porém, pela primeira vez ele se viu sozinho, sem as zelosas mãos dos médicos e enfermeiras a ajudá-lo, na única e paralisante companhia de uma perspectiva de futuro sombria. No primeiro dia, ainda sem entender direito a nova realidade, ele foi à cozinha buscar um copo d’água. Ao levá-lo à boca, o copo caiu no chão – e, ao se quebrar, estilhaçou a delicada teia de positividade mental que o rapaz tecia desde o acidente.

“Ali foi a merda. Tudo o que eu não pensei nos meses de hospital, pensei em um único dia. Que homem eu ia ser agora? Não conseguia nem beber um copo d’água. Dois dias depois eu queria me matar. Queria cortar os pulsos e nem pulso mais eu tinha. Não é fácil, cara. Ficava vendo minha mina sair para fazer as coisas e eu em casa, zoadaço. Várias tretas na cabeça. Nunca mais ia surfar... Que homem que eu ia ser?”

No auge da vida
O inferno de Jonas durou mais ou menos três meses, que se arrastaram em uma rotina de choro, dor e uma tristeza da qual talvez só ele tenha a dimensão. Um dia, enfim, ele resolveu sair para ver o pôr do sol. Pegou uma prancha de sandboard e caminhou até umas dunas próximas de casa. Ali ele se sentou, olhou as infinitas cores da paisagem e teve uma epifania emocional. “Foi um momento no profundo do coração. Lembrei do quanto eu amava a natureza e do quanto estava distante disso”, Jonas conta. “Resolvi que iria fazer o melhor da vida que eu ainda tinha.”

E fez. Voltou para a faculdade, reconquistou a namorada “que estava meio de saco cheio e passou a ver um cara que queria vencer”, se reconectou com o esporte. Quatro meses depois do acidente, correu a primeira prova de biathlon. Ainda com 500 pontos na região da canela, Jonas colocou uma roupa de borracha para nadar 950 metros e correr 3,5 quilômetros, em Arraial do Cabo. O pé esquerdo não se mexia quase nada e ele foi tropeçando e chutando pedras pelo caminho até o final, mas teve a glória de não chegar em último – ele era, como ainda é o padrão em sua vida de competições, o único paratleta da prova.

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Dali para frente, ele abraçou outra vez o esporte. Ciclismo, montanhismo, corrida, natação, Jonas participou e venceu competições de tudo isso. Tinha patrocinadores, viajava bastante para competir. Mas faltava uma coisa. Faltava reencontrar sua paixão da adolescência, o surf. Nenhum tipo de adaptação que ele vinha fazendo nas pranchas funcionava. Até que teve um estalo que mudou outra vez sua vida: o stand-up paddle.

De pé sobre uma prancha de SUP e segurando um remo adaptado, Jonas chegaria ao auge da carreira de atleta. Ele começou a competir e a se destacar nas mais importantes travessias da categoria, como a Aloha Spirit, a Pacific Paddle Games, a Molokai 2 Oahu, as etapas do Eleven City Tour e a Columbia Gorge Paddle Challenge.

Hoje, aos 32 anos, Jonas mora em Redondo Beach, na Califórnia. Tem quatro patrocinadores, namora uma (outra) surfista, treina e pega onda todos os dias e no momento em que essa reportagem era preparada (no final de julho) tinha sua história sendo gravada por uma equipe da CNN americana. Após uma iniciativa de fãs e amigos na internet, ele ganhou braços biônicos (de R$ 300 mil), que usa apenas quando sai na rua. Nunca para surfar. Nem em casa. Sua casa, aliás, não tem nenhuma adaptação. “Para não me limitar”, ele diz. Jonas mora sozinho faz dois anos e lava roupa, varre o chão, usa os eletrodomésticos e bebe um copo d’água sempre que precisa, numa boa. Como quem agarrou o futuro nas mãos.

Créditos

Imagem principal: Alexandre Socci

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