por Ronaldo Lemos
Trip #260

Ronaldo Lemos: Hoje, esperar o elevador sem ter um celular às mãos periga virar uma agonia insuportável, mas até há alguns anos era somente uma pequena pausa natural da vida

A internet surgiu como melhor amiga da curiosidade. Talvez quando olharmos para os anos de 1994 a 2002, eles possam ser vistos como o momento em que a rede se desenvolvia impulsionada pelo desejo das pessoas de encontrar, arquivar e disseminar o conhecimento humano.

Claro que essa prática continua na internet de hoje. Só que ela foi suplantada por um outro tipo de impulso que tem muito mais apelo de massa: o combate ao tédio. Sobre isso, vale dizer que uma boa parte do progresso humano foi provocado justamente pela busca do que fazer para acabar com tédio.

No entanto, programadores, designers e empresas rapidamente perceberam que nós, seres humanos, somos animais que ficamos facilmente entediados. E passaram a entender isso como uma oportunidade de fisgar nossa atenção.

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Em outras palavras, passaram a criar serviços da internet que são projetados especificamente para serem consumidos até mesmo nos momentos de minitédio. Minitédio esse que, aliás, antes nem nos dávamos conta de que existia. Por exemplo, apertar o botão e esperar pelo elevador. Antes da invenção do smartphone, essa era somente uma pequena pausa natural da vida.

Hoje, no entanto, enquanto o elevador não chega, dá tempo de mandar umas três mensagens pelo WhatsApp, checar os likes do Instagram, olhar se alguém nos adicionou no Facebook e muito mais. Esperar o elevador sem ter um celular às mãos periga virar uma agonia insuportável: dez inaceitáveis segundos de tédio.

As consequências disso para a vida contemporânea são ainda pouco compreendidas. A professora Sherry Turkle do MIT costuma dizer que “é nossa capacidade de solidão que nos incentiva a buscar outras pessoas”. Ela critica esse modo de conexão em que estamos sempre ligados, sempre nos exibindo para alguém on-line ou assistindo a outras pessoas se exibirem.

Isso leva aos mais diversos tipos de problema. Entre eles, a perda da capacidade de empatia. Tem muita gente alarmada com a possibilidade de que um número significativo de crianças e adolescentes poderão crescer com diversos tipos de incapacidade de se relacionar diretamente com outras pessoas.

Disfarçar, tapear ou celebrar?

Há até mesmo grupos de programadores e designers assinando manifestos de que suas habilidades deveriam ser usadas para criar produtos que tenham um propósito mais construtivo, evitando contribuir para o aumento do estado de ansiedade do mundo, ou para a crescente dependência que muitos serviços de internet hoje buscam provocar.

O efeito mais curioso dessa “guerra ao tédio” é que, curiosamente, ela é capaz de gerar ainda mais tédio. O ciclo contínuo de adiamento do aborrecimento com nossos celulares acaba na verdade apenas pulverizando o tédio, que vai invadindo espaços cada vez menores da vida. Quem já não se flagrou no meio de uma conversa com outra pessoa (ou reunião de trabalho) com o impulso de pegar o celular para fugir daquele momento em que a conversa começa a ficar menos interessante ou importante?

Talvez a quantidade de tédio existente no mundo seja fixa. Talvez esse seja um fardo da própria condição humana. Podemos tentar disfarçar, tapear ou postergar esse fato. Mas o efeito pode ser o mesmo de varrer a sujeira para debaixo do tapete. Em síntese, quando estiver entediado, celebre. Esse é um sinal de liberdade.

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Créditos

Foto principal: Abiuro

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