por Milly Lacombe
Trip #267

O que faz uma pessoa feliz é, antes de tudo, a construção de relações significativas. Mas com o passar dos anos fui entendendo que existe uma outra fonte poderosa de felicidade

Eu tinha 34 anos quando me separei pela primeira vez na vida. Éramos casadas há quase dez e junto com a convicção de que o casamento havia acabado veio uma outra igualmente forte: eu não poderia deixar que ela saísse da minha vida. Me parecia bastante óbvio que tínhamos construído uma relação cheia de significado e eu intuí que esse tipo de riqueza a gente não deixa ir embora, mesmo que durante um período tenhamos que batalhar para que os laços românticos que se rompem com uma separação não levem com eles os de amizade e afeto e respeito e admiração.

Para minha sorte ela intuiu a mesma coisa, e nunca nos afastamos.

Ao evitar que minha primeira ex-mulher saísse da minha vida eu estava me presenteando com a maior de todas as felicidades, aquela que é gerada por uma relação significativa. Todas as pesquisas que tentam medir felicidade chegaram à mesma conclusão: não é dinheiro, ou patrimônio, ou poder, ou status que faz alguém ser feliz. O que faz uma pessoa ser feliz é, antes de qualquer outra coisa, a construção de relações significativas. Assim, a felicidade vem, dizem os especialistas, da troca regular e relevante com outro ser humano.

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Mas com o passar dos anos eu fui entendendo que existe uma outra fonte poderosa de felicidade: a capacidade de aceitar a incerteza. Com a percepção de que não há como controlar nada e de que a vida segue um ritmo muito próprio vem a noção de que podemos nos entregar, e não há nada mais libertador do que simplesmente se soltar na correnteza da existência. É, muito provavelmente, o que as escrituras querem dizer com “seja feita a sua vontade”, e o que escreveu Guimarães Rosa: “A vida inventa. A gente principia as coisas no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação — porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”.

Talvez essa combinação de construir relações significativas e entender que não controlamos nada é a que vai nos libertar. Porque sem a obrigação de dirigir nossas vidas para nortes estabelecidos por um arranjo social doentio — que nos encoraja a trabalhar, comprar, consumir, competir e, especialmente, não pensar e não sentir — podemos perceber que a vida, afinal, nunca erra, ainda que algumas circunstâncias pareçam, no momento em que ocorrem, puramente trágicas.

Matematicamente falando, a única maneira de fazer o nada, que é representado pelo zero, virar alguma coisa é estabelecer um par de opostos (1-1=0). Não existe nenhuma outra forma de o nada virar alguma coisa, apenas essa, que vem da convivência de opostos.

Histórias de heróis

Mas, se a matemática não traz conforto — e precisamos de conforto já que a experiência humana pode ser penosa sem ele —, então podemos buscá-lo nos mitos, que carregam histórias de heróis. E os heróis de todos os tempos, como ensina Joseph Campbell, nos precederam. O labirinto é totalmente conhecido, temos apenas que seguir o fio de Ariadne, “e ali onde pensávamos encontrar uma abominação encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro de nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro”.

É curioso que passemos destrambelhadamente pela adolescência porque é justamente nela que encontramos o ritmo que leva à construção de relações significativas. É na adolescência, essa experimentada por uma privilegiada classe social, que ficamos noites e noites tocando violão numa roda, ou escutando alguém divagar a respeito da vida, ou buscando algum significado para essa nossa experiência. Depois disso crescemos e nos vemos obrigados a encontrar uma profissão, um trabalho, uma fonte de renda que nos permita adquirir coisas que nem sabemos se queremos, muito menos se vamos usar. E, exaustos, acabamos embriagados na tentativa de não sentir, vamos para a cama sem refletir a respeito do que realmente importa porque, afinal, amanhã temos que fazer essa roda insana continuar girando.

Na trincheira da vida adulta já não há mais espaço para conversas profundas, para olhar demoradamente nos olhos de outra pessoa, para experimentações significativas, para buscar o sentido de tudo. Há apenas alienação, delírio e alucinação. Tudo devidamente encorajado pelo arranjo social que nos embala, e que busca apenas acumular riqueza e capital nas mãos dos mesmos.

Dia após dia, entregues a esse jogo vazio, vamos nos desumanizando, perdendo a capacidade de trocar, de nos entregar, de nos relacionar, de tocar, de amar. Já não suportamos a tristeza, essa dama que, como ensinou Rilke, quer apenas nos pegar pelas mãos e nos transformar. Já não suportamos a solidão, essa outra diva que, como disse o mesmo poeta, é espaço sendo expandido ao nosso redor.

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Passando apressadamente pela vida acabamos esquecendo que somos nós, e ninguém mais, que temos o poder de dizer o que tem e o que não tem significado. Apropriados desse enorme poder podemos escolher que apenas o amor, e nunca o medo, vai servir de orientador. Há mais de sete séculos Dante desenhou de forma ao mesmo tempo terrível e bela a geografia da alma humana em cem cantos, e escolheu concluir sua epopeia com uma definição peculiar de amor, essa força, segundo ele, que move o sol e também as demais estrelas. O que mais pode existir além do amor?

Termino com uma ousada definição de amor e liberdade oferecida por um dos mais brilhantes seres humanos que já passou por este planeta, uma definição que parte do princípio de que, sem o outro, não podemos ser livres. Nas palavras de David Foster Wallace: “A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros — no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita”.

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