André Caramuru: Não existe o mais remoto ponto do planeta em que o ar esteja completamente livre das partículas de poluição emitidas pelas cidades

Pode-se classificar a falta de ar em dois tipos. O primeiro é o agudo, quando você fica próximo de se afogar. Quem já surfou e tomou caldo de uma onda pesada conhece a experiência. Se você consegue se safar, fica sem fôlego por um tempinho, mas logo tudo volta ao normal. O segundo tipo é o crônico, quando seus pulmões vão perdendo a capacidade de se expandir e se fechar. Aí é pior, porque não há alívio. A tendência, em boa parte das doenças que causam esse tipo de situação, é que haja uma piora progressiva, ainda que às vezes lenta, até que a respiração, mesmo com o apoio de tubos de oxigênio, fica impossível. Pessoas próximas a mim que morreram de doença pulmonar passaram por isso, e posso garantir que é uma experiência terrível. O fato é que, quando afetado por qualquer um dos casos, o agudo ou o crônico, é que você se dá conta do quanto é necessário algo que normalmente passa despercebido: o ar.

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Ar que – exceto por algum entrevero pessoal, como os acima citados – é abundante e inesgotável, certo? Não exatamente. Você sabe qual é a relação de tamanho entre o planeta e a atmosfera? Se a Terra for uma cebola, a troposfera, que é parte da atmosfera onde está o ar que respiramos, é a casca. Ela alcança de 8 a 20 quilômetros de altitude, dependendo do ponto do planeta em que você esteja. Ou seja, termina logo ali, como bem sabem os escaladores de montanhas. E assim, se vivemos nesta casquinha tão estreita, como podemos pensar que somos livres para maltratá-la à vontade, esfumaçá-la a nosso bel-prazer, lançar nela tudo quanto for detrito, e não sofrermos consequências? Pensando assim, podemos incluir no raciocínio um terceiro tipo de falta de ar, aquele que está do lado de fora da janela, em volta de nós, nas ruas.

Bolhas de poluição

Meus medos com relação ao ar têm se renovado sempre. Eles aparecem, por exemplo, quando, naqueles dias secos de inverno em São Paulo, olho para os horizontes marrons, aquelas enormes bolhas de poluição chamadas de inversão térmica. Ou quando leio que a poluição atmosférica é a causa direta de 3 milhões de mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde. Ou quando fico sabendo que não existe o mais remoto ponto do planeta em que o ar esteja completamente livre das partículas de poluição emitidas pelas cidades, seus veículos de transporte e suas fábricas. Sim, é verdade: pode fugir o quanto puder. Vá ao coração da Antártica, a um distante esconderijo na Amazônia ou ao mais longínquo buraco no deserto de Gobi, e a poluição do ar vai alcançar você.

Não estamos ainda, é verdade, chegando ao momento em que não conseguiremos mais respirar. Mas já passamos do ponto em que o que respiramos não é exatamente o que deveríamos, e sim um composto repleto de partículas tóxicas e perigosas. E estamos muito longe de uma solução para o problema. O planeta ganha cerca de 74 milhões de novos habitantes por ano, o que levará a população mundial, dos já absurdos 7 bilhões de habitantes de hoje, a estimados 9 bilhões em 2050. Com isso, mais florestas serão desmatadas para a extração de madeira e a abertura de áreas de cultivo, mais usinas a carvão serão utilizadas, mais motores queimarão petróleo etc. Nunca fumei nem tive uma profissão que prejudicasse os pulmões. Mas é terrível saber que, a cada vez que respiro, eu inalo, frequentemente com efeito cumulativo, alguma porcaria tóxica de nome estranho que deveria estar relegada a um ponto remoto da tabela periódica.

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Imagem principal: Laurindo Feliciano

Laurindo Feliciano

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