por Alê Youssef
Trip #260

Alê Youssef: A ideia de um crescimento sem fim que estimula o turbilhão de metas, busca por dinheiro, status, ego e desejo precisa ser confrontada

No artigo Understanding new power (Entendendo o novo poder), publicado na Harvard Business Review de dezembro de 2014, os empreendedores e ativistas digitais Jeremy Heimans, cofundador e CEO da Purpose – uma empresa social que cria movimentos – e também cofundador das comunidades políticas on-line GetUp e Avaaz, e Henry Timms, diretor executivo do 92nd Street Y, um centro cultural e comunitário em Nova York e fundador do movimento filantrópico global #GivingTuesday, refletem sobre a sensação de deslocamento do eixo de poder, diante da crise de representação e governança, dos crescentes protestos pelo mundo e das empresas iniciantes derrubando indústrias tradicionais.

Para eles, uma transformação muito mais complexa e interessante estaria apenas começando, movida por uma crescente tensão entre duas forças distintas: o velho e o novo poder. Enquanto os modelos do novo poder seriam ativados pela coordenação entre pares e pela ação da multidão e sem participação seriam como embarcações vazias, o velho poder seria ativado pelo que as pessoas ou organizações possuem, sabem ou controlam e, sem isso, perderiam sua vantagem. Os velhos modelos tenderiam a exigir pouco mais do que o consumo: uma revista pede aos leitores que renovem suas assinaturas, um fabricante pede aos clientes que comprem seus sapatos. Mas o novo poder aproveitaria a capacidade – e o desejo – crescente das pessoas de participar de formas que iriam além do consumo.

Novos heróis

As normas do novo poder dariam ênfase especial à colaboração, não apenas como uma forma de realizar algo ou como parte de um processo obrigatório de consulta, mas no sentido de reforçar o instinto humano de cooperação ao recompensar aqueles que compartilham as próprias ideias, difundem as dos outros ou trabalham para melhorar ideias existentes. Os autores mencionam os modelos de economia colaborativa como exemplo, que seriam impulsionados pelo que chamam de veredito acumulado da comunidade, ou seja, contam com sistemas de reputação que garantem que hóspedes bagunceiros que usam o AirBnb, por exemplo, tenham dificuldade para encontrar seus próximos lugares para ficar. Nesse sentido, o novo poder também estaria gerando uma ética do “façamos nós mesmos”, e uma crença na cultura amadora em áreas que costumavam ser caracterizadas pela especialização e profissionalização. Os heróis do novo poder seriam, então, os criadores que produzem o próprio conteúdo, cultivam o próprio alimento ou constroem os próprios dispositivos.

A ideia de um crescimento sem fim que estimula o turbilhão de metas, busca por dinheiro, status, ego e desejo que a vida nos grandes centros urbanos se tornou parece ter uma lógica suicida e precisa ser confrontada. O nascimento de um novo poder poderia carregar novos valores que retirem do mundo a necessidade de tanta velocidade e a tecnologia – instrumento maior desse novo momento – poderia ser usada para esse objetivo.

LEIA TAMBÉM: Todas as colunas de Alê Youssef

Créditos

Imagem principal: Abiuro

matérias relacionadas