Com mais de 7 bilhões de pessoas no planeta, como evitar porcarias como as que deixam o frango pronto para o abate em 45 dias?

Não faz muito tempo, hormônio pra mim era como átomo ou onda de rádio: eu sabia que existia e que interferia na minha vida, mas nunca tinha visto um. Confortável em minha ignorância, entendia que aquilo era uma coisa que atacava as mulheres uma vez por mês, período em que eu deveria ficar especialmente cuidadoso. Foi terrível descobrir que não só nós, homens, também tínhamos hormônios, como, além de tudo, a escassez de alguns deles, a partir de determinado ponto da vida, nos levaria a uma situação assombrosa chamada andropausa. Para piorar as coisas, logo veio a história de que eram ministrados hormônios em grandes quantidades para vacas e galinhas, com o objetivo de que engordassem mais rápido, produzissem mais leite, levando-nos a consumi-los indiretamente na carne, nos ovos e nos laticínios, com grande risco para a saúde. Em 2015, rodou o mundo a história de que um chinês desenvolveu seios por causa dos hormônios na carne de frango. E não aliviou nada ler os desmentidos explicando que aquilo foi só um boato e que não se dá hormônios aos frangos.

Ora, não há vida animal sem hormônios. O ponto é que há os fundamentais para nós e aqueles dos quais precisamos desconfiar. Quanto aos alimentos que ingerimos, sejamos justos, os hormônios não são o maior problema, ficando o título de principais vilões com antibióticos, “vitaminas” para engorda rápida dos animais e agrotóxicos. Ainda assim… Alguns países, é certo, são mais prudentes do que outros, o que faz com que a União Europeia tenha banido totalmente a ingestão de hormônios no gado, algo que os Estados Unidos e o Brasil não fazem. Mas, num mundo globalizado como o nosso, é impossível que mesmo um consumidor europeu esteja livre de carne com hormônios artificiais: afinal, se há pouco tempo até carne de cavalo conseguiu entrar clandestinamente em lasanhas britânicas congeladas, imagine o quanto pode o muito mais discreto hormônio.

LEIA TAMBÉM: Todas as colunas de André Caramuru Aubert na Trip

E quanto essa tralha toda nos faz mal? Temos indícios, mas não sabemos com certeza. A humanidade passou a maior parte de sua existência se alimentando de carne magra (caça), pesca artesanal e coleta de alimentos na natureza. Mesmo quando, há relativamente pouco tempo (alguns milhares de anos), passamos a plantar e a criar animais domésticos, desconhecíamos agrotóxicos, antibióticos e demais porcarias artificiais. Mas, se a comida podia ser linda e natural, a expectativa de vida era baixíssima: nossos antepassados mal passavam dos 30 anos. Hoje, quando produzimos alimentos em larga escala, abusando de agrotóxicos e cia., estamos, paradoxalmente, vivendo cada vez mais. Será que antes, com a vida podendo ser encurtada por eventos banais como uma inflamação na unha, simplesmente não dava tempo para que se desenvolvessem as doenças (cânceres, problemas cardíacos etc.) que nos afligem hoje? Ou será que, sem todos os aditivos nos alimentos, poderíamos viver ainda mais, e melhor?

Comida para todos

Nesse debate, ficamos espremidos entre a paranoia e a fé no que diz a indústria de alimentos, sabendo que esta, sempre que julga necessário, não hesita em nos manipular, como fez por décadas a máfia do tabaco, que conseguiu enganar todo mundo comprando uma pesquisa ali e uma matéria na grande mídia aqui. Temos saída? Difícil. Com o planeta precisando alimentar mais de 7 bilhões de pessoas todos os dias, como evitar porcarias como as que deixam o frango pronto para o abate em 45 dias, em vez dos seis meses no galinheiro da vovó? De minha parte, sabendo que os hormônios estão por aí, tento levar a coisa com cautela, evitando os riscos óbvios, mas não caindo em fanatismos. E bem esperto para ver se, logo agora em que a tal da andropausa está me assombrando ali na esquina, não começam a me crescer os seios.

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

matérias relacionadas