por Marcos Candido

As ondas que Lucas Chumbinho, 21 anos, pegou nos últimos meses já o credenciam a aspirar ao título de maior big rider do Brasil

"Será que a gente consegue conversar aqui, com esse movimento?", pergunta Lucas Chianca à reportagem da Trip. Conhecido como Chumbinho, o big rider acaba de sentar à sombra de um quiosque na Praia da Macumba, na zona oeste do Rio de Janeiro, e mais de uma dezena de locais vêm parabenizá-lo. O assédio não é normal, ou pelo menos não era até há pouco tempo. Lucas tem apenas 21 anos (a juventude fica clara na explicação para a entrevista não ser em sua casa: "Meu quarto tá uma bagunça e a minha mãe ia me matar") e nas ondas gigantes que pegou nos últimos meses – principalmente em Nazaré, em Portugal – ele se revelou um surfista muito mais maduro do que era até então.

“Ele tem aquele estilo mad dog de se jogar e tentar superar os limites, arriscando tudo. Pegou afinidade com o oceano grande muito rápido ”
Yuri Soledade

Além da fama crescente na praia carioca onde mora com a família, o talento de Lucas está sendo reconhecido nos mais altos escalões do esporte. Em fevereiro, um artigo no site da World Surf League perguntava se Lucas será "a próxima grande sensação" das ondas grandes. Ele está concorrendo a três prêmios no Big WaveAwards de 2017: Onda do Ano, Maior Onda na Remada (as duas surfadas no dia 22 de dezembro do ano passado) e Melhor Performance da Temporada. "Se pudesse destacar uma coisa, seria a técnica do Chumbinho dentro d’água", diz Maya Gabeira, pentacampeã na modalidade. "Ele tem um talento e uma atitude para se posicionar muito bem no line-up e pegar uma quantidade de ondas muito grandes e difíceis."

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Uma das primeiras coisas que se nota na técnica de Lucas é o jeito como ele encara o mar grande como se fosse um mar normal. "Não gosto do surf de sobrevivência e de me preocupar só em não cair", explica. "Sempre gostei de cavar, dar batida, rasgar, subir e descer de novo. Gosto de sentir a onda grande igual se sente a marola. Não importa se ela tem 30 ou 40 pés." E ri: "Quem sabe um dia não lanço um aéreo?". A trajetória de Lucas, porém, não começou com as ondas tão favoráveis – e ainda hoje, enquanto paira sobre o garoto de voz e malemolência fluminense a pretensão de ser um dos maiores de seu esporte, ele trava uma batalha para canalizar a potência típica da juventude.

Lucas é natural de Saquarema, cidade que abriga um dos endereços mais tradicionais do surf brasileiro, a Praia de Itaúna. Seu pai, o multiesportista Gustavo Chumbão, conhecido por saltar de paraquedas e surfar, conectou os filhos ao mar desde cedo. Não por acaso, o irmão mais novo de Lucas, João Vitor, 16 anos, também tem se destacado pelo talento em pegar ondas pesadas e tubulares. A atual carreira do caçula se assemelha ao passado do mais velho. Aos 14, Lucas havia dropadoWaimea e rumava a desbravar Pipeline e Sunset. Tio de consideração da família, o também surfista Marcos Monteiro rebocava o garoto. O investimento dos mentores foi essencial para que ele continuasse no esporte, embora, naturalmente, se tornasse uma pressão. "Meu pai investiu o que pôde em mim. Sempre estive com prancha nova, roupa nova e fiz viagens. Às vezes, a cabeça começava a me pressionar e a ficar louca", conta. "É por isso que, até hoje, tento mostrar serviço, e defender que eu sabia – e sei – que preciso me virar."

“O Chumbinho é um fenômeno que está com a faca e o queijo na mão. É superestiloso, com foco bem direcionado para competição”
Pedro Scooby

Quando se lançou às primeiras competições, entretanto, o resultado foi aquém do aguardado por alguém que foi criado nas ondas. Participando de torneios qualificatórios da WSL, Lucas chegou a ficar em décimo no ranking da América do Sul, em 2016, mas nenhum sinal de vaga para o circuito mundial de surf pintava no horizonte. "Eu ganhava uma bateria e, na próxima etapa, às vezes não conseguia nem pegar onda. Fiquei dois anos e pouco batendo cabeça nessa situação", lembra. A sorte do surfista virou no ano passado, quando o big rider Carlos Burle decidiu que ele seria seu novo pupilo. Burle é um dos maiores campeões mundiais de ondas grandes de todos os tempos e pioneiro do esporte no Brasil. É também mentor de atletas nacionais como Pedro Scooby e Maya Gabeira.

A relação entre Carlos Burle e Lucas Chumbinho não começou do nada, claro, ainda que o primeiro encontro deles tenha sido bem diferente da viagem quase espiritual em que embarcariam depois. Há cerca de cinco anos, Burle estava entre um grupo de surfistas que comemoravam a final de um campeonato na Praia de Itapuama, em Pernambuco, quando uma briga interrompeu a celebração. "Eu havia me envolvido com uma mulher. Um cara, que se dizia namorado dela, não gostou e puxou até uma faca para me matar", conta Lucas. A briga foi apartada pelos organizadores, mas Burle atestou, ali mesmo, que o jovem surfista, embora promissor, não estava preparado para ser submetido a sua rotina de treinamento. "Não posso dizer que ele era um garoto problemático. Era só um moleque que até tinha certa maturidade, embora ainda tivesse testosterona saindo pelos ouvidos", diz Burle. "Na água, vi que ele tinha talento, mas me perguntei: onde está o foco?"

"Faltava algo a ser trabalhado", avalia Lucas. O tempo passou, ele ganhou uma barba (ainda rala), enfrentou águas internacionais e ganhou popularidade e apoio para pranchas e equipamentos. Burle o reencontrou no ano passado, tentando passar pelo caminho mal sinalizado que leva à maturidade. Eles se viram no Chile, enquanto Lucas ainda buscava um con­vite para o circuito mundial. Foi o suficiente para Burle se impressionar. "Ele tinha melhorado. Se jogava, cavava pra dentro, com as mãos para cima, mas tinha controle onde muitos da nossa comunidade têm dificuldade em sobreviver", conta. Com Burle, Lucas encontrou um foco para sua potência: se tornar campeão mundial de ondas grandes.

O fim de 2016 já se aproximava quando Burle e Lucas decidiram sair ao mar de stand-uppaddle. Poucos meses antes, em outubro, eles haviam embarcado em uma viagem para Nazaré, em Portugal, onde Lucas desafiou paredes de 60 pés de altura, tomou o maior caldo da vida ("Fiquei abaixo da espuma e só pensava: ‘Quero minha mãe, quero minha mãe’") e dropou as primeiras ondas da temporada que iria colocá-lo sob os holofotes. Mas foi naquela manhã, no Havaí, que os dois puderam se ver na companhia apenas um do outro. O sol cintilava nas ondas de um azul intenso e o mar, de 1,5 metro, se acalmou subitamente. Ambos garantem que a ocasião foi um daqueles dias descompromissados que, de repente, se tornam definitivos para o resto da vida. "Lucas, você sabe que nosso corpo tem memória celular. A gente lembra das coisas e aquilo fica gravado para sempre. Por exemplo, ao receber uma ligação, ao ver o nome da pessoa na tela do celular, você já sabe o que esperar. Cada pessoa deixa um legado, uma impressão. Como você quer ser lembrado?", disse Burle que, naquele momento, "sentiu uma luz" que precisava ser repassada ao jovem remando ao seu lado. "Ele me olhou com aqueles olhos de garoto e, de maneira simples, entendeu quem queria ser e aonde chegar."

“O Chumbinho precisa ler mais, sair das redes sociais... Mas é um garoto de muito controle e responsabilidade, dentro e fora da água”
Carlos Burle

As semanas seguintes foram revolucionárias. Burle passou a submeter Lucas a exames físicos periódicos, baterias matinais de treinos dentro d’água e acompanhamento de nutrólogos para melhorar a alimentação. Para canalizar a energia do jovem, aulas de ioga entraram no roteiro e uma agenda mais introspectiva substituiu as noites de curtição. "Eu saía praticamente todos os dias da semana. Hoje, se for uma vez por mês é muito. É um esforço grande, mas válido para manter meu foco no esporte", diz Lucas.

Fome de quê?

A preparação instaurada por Burle não foi só capaz de melhorar a performance do surfista no oceano, mas levou Lucas a um patamar em que a comunidade big rider brasileira pretende chegar como um todo. Se no passado existia alguma informalidade e busca pela aventura, a estratégia empregada pelos mais experientes é tornar o país cada vez mais competitivo no mar grande. "Minha geração enfrentou barreiras e dificuldades – como a falta de equipamentos de segurança, de apoio financeiro e de mídia – que tornavam muito difícil saber qual era o real limite da remada e do corpo humano para sobreviver ao tamanho das ondas", afirma o big rider Yuri Soledade. Segundo Yuri, o resultado de um suporte como o que é oferecido por Carlos Burle – que classifica seu treinamento como o de "um jogador de futebol" e "life-coach" – já pode ser visto, na prática, em nomes como Pedro Calado, Kona Oliveira e Lapo Coutinho. "Essa geração vai dominar o big rider competitivo como o BrazilianStorm está dominando o WCT", afirma Yuri, que ganhou o troféu de maior onda da temporada no Big WaveAwards de 2016.A vontade de Burle em colocar à prova a experiência dos big riders brasileiros se encaixou com o desejo de Lucas de criar uma carreira – e a certeza de qual caminho seguir que encontrou naquela manhã havaiana. De volta a Nazaré em dezembro, Lucas desceu acelerando uma onda com mais de 40 pés que quebrava às suas costas. No final, garantiu uma saída limpa que o colocou na disputa da onda do ano, a categoria mais importante do Big WaveAwards. Ação semelhante, mesclando controle e velocidade, também foi vista em Mavericks, nos Estados Unidos, e em Puerto Escondido, no México. "Para falar a verdade, com esse lance de focar em competições, acho que o Lucas é aquilo que o Burle sempre quis como pupilo", diz o amigo e também big rider Pedro Scooby.

Outro desejo de Lucas é conquistar autonomia financeira. "Disse ao meu pai que não quero mais depender só do investimento dele. Não elimino a possibilidade de retornar ao qualifying series e não posso dizer que não tenho medo da frustração", diz. Burle, porém, defende que Lucas ainda precisa se dedicar mais à leitura de livros, controlar a ansiedade e deslogar das redes sociais antes de alcançar a maturidade e a conexão com o oceano de quem espera se tornar um atleta mundial.

Há alguns meses, retornando de outra viagem, Lucas resolveu mudar para um assento mais confortável no voo e, assim, sentou ao lado da futura namorada, Hayra, em um lance de espontaneidade de quem ainda está aberto a conhecer o novo. "Tenho consciência da minha juventude junto com a experiência que extraio de quem me ajuda a direcionar meu foco, como a minha namorada também tem ajudado. Sei que até atingir a maturidade de quem me guia eu precisaria de ao menos dez anos a mais do que conquistei em 20. Mas já sou hoje um cara mais controlado e eficiente", diz. "Tudo o que mais quero é escrever a história do esporte. Abrir o livro e ver meu nome lá, saca?"

Créditos

Foto principal: Pedro Miranda

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