Che recebeu o Madureira, primeiro time do mundo a jogar bola em Cuba depois da revolução

Maio de 1963. Tempo em que não apenas a seleção brasileira viajava mundo afora. Enquanto o escrete de Pelé e Garrincha voava por Hamburgo, Amsterdã, Milão, Londres, Cairo e Tel Aviv, os clubes cariocas não se contentavam em acompanhar pelo rádio. O Fluminense excursionava por Suécia, Finlândia, Bulgária e Moscou. O Vasco exibia-se em Gana e na Costa do Marfim. O Botafogo viajava de Marrocos para Paris e de lá para Bélgica. O Flamengo conhecia Romênia, Polônia, Suécia, Áustria e a então Tchecoslováquia, entre outras culturas.

Até aí tudo bem. O que soa como inconcebível é lembrar que, ao mesmo tempo, o modesto Madureira, pequeno clube do Rio de Janeiro, estava em Cuba. Do calor insuportável de seu bairro para o epicentro da Guerra Fria. Mais que isso: recebido com pompas, o tricolor suburbano, primeira agremiação esportiva a adentrar a pátria de Fidel Castro depois da revolução socialista de 1959, teve direito até a recepção do líder Ernesto Che Guevara.

Não pense que o Madureira contava à época com um grande time. Pelo contrário. A equipe era fraca tecnicamente. Antes de chegar à ilha, perdera para o quase amador Alajuelense, na Costa Rica, por um a zero. O placar não interessava tanto. E sim a cota de US$ 800.

Juramento anticomuna
Ironia do destino. Para que um clube saísse do Brasil, era preciso fazer até juramento anticomunista. Além de certidão negativa de imposto de renda, título de eleitor, certificado de reservista, fotos, visto no passaporte e o famoso “nada consta”, para se entrar nos Estados Unidos, por exemplo, fazia-se necessário estirar o braço direito jurando ser contra o comunismo, 100% democracia.

 

Nos quartos, havia gravadores. A recomendação era não falar sobre política

O time brasileiro chegou a Havana no dia 11 do mês das noivas. Na bagagem, café, cigarros, poucas

bolas, menos ainda jogos de camisas, alguns macacões de lã, flâmulas, escudos, uma bandeira do clube, pares de sapatos-tênis e um fogareiro. Além de uma substância proibida: “Não entrava dólar em Cuba”, lembra Farah, meio-campo da equipe, hoje com 72 anos. “Ao chegar à alfândega eles retiveram a moeda americana nos entregando o correspondente em pesos cubanos. Só nos devolveram os dólares na saída.”

A viagem foi viável graças a Zé da Gama, mais do que um homem de negócios, um pioneiro entre os empresários responsáveis por compra e venda de jogadores. Zé da Gama viabilizava excursões internacionais para grandes clubes. Mas, com ligações políticas com o Madureira, aliou-se a Carlos Teixeira Martins, ou Carlinhos Maracanã, executivo número 1 do clube na época, conhecido por suas relações com a Portela e com o jogo do bicho.

Tanques e rebolado

Aproveitando-se do fato de o Brasil estar na moda, devido ao bicampeonato mundial nas Copas do Mundo de 1958 e 1962, Cuba tratou a delegação carioca a pão de ló. O Madureira se hospedou no hotel Riviera. Nas paredes dos quartos, gravadores espalhados. Houve a recomendação de que não fizessem a besteira de conversar sobre política. Falar só banalidades. De preferência, futebol.

Passados alguns dias, faltou água no hotel. Para que Cuba não queimasse o próprio filme que pretendia vender, os brasileiros foram transferidos para o luxuoso cinco estrelas Habana Libre, que comportava até boate de alto nível.

“Na época do Fulgêncio Batista (ditador deposto pela revolução), crioulo não passava nem na porta daquele hotelzão”, sorri Alfredinho, ponta-esquerda do Madureira.

Passeando pela cidade, os jogadores e dirigentes viram cenas que jamais sairiam da memória. “Tinha um prédio gigantesco com o rosto enorme do Fidel Castro estampado numa bandeira”, conta o ex-atacante. Não só isso. Casas com teatro rebolado rivalizavam com tanques de guerra e canhões. Tudo em nome da segurança da orla. “As mulheres, para você ver, tomavam a guarda e faziam a vigilância das 18h até o começo da manhã”, diz Alfredinho.

Numa visita a uma fábrica de charutos, os cariocas perceberam os trabalhadores sendo obrigados a aplaudi-los, visivelmente constrangidos. Mas, nos bastidores do sistema, os cubanos davam a alma para consumir produtos proibidos no país. “Queriam tudo o que a gente tinha”, recorda-se Farah. “Um zagueiro nosso vendeu suas roupas e saiu de lá cheio da grana.”

Sin perder la ternura
Na última partida, em 18 de maio, a quinta vitória em cinco jogos: Madureira 3 a 2 na seleção de Havana. Com seu indefectível uniforme militar verde-oliva, o então ministro da Indústria Che Guevara compareceu ao campo, ou melhor, ao estádio de beisebol adaptado para a prática futebolística. Sorridente, sem tensão, leve, feliz, Che entrou no gramado e cumprimentou um a um os jogadores. Argentino torcedor do Rosário Central, Che não era apenas um guerrilheiro destemido, mas também um goleiro frustrado, apaixonado por esportes. “Ele foi muito amável conosco, carinhoso. Até deixou uma flâmula com o Zé da Gama”, assegura Farah.

Dois anos após ser congratulado no Brasil com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul pelo presidente Jânio Quadros, Guevara se sentiu no dever de retribuir a gentileza, e quem se deu bem foi a delegação brasileira. Na mesma noite, os comandantes do comunismo se despediram no hotel do Madureira. Os jogadores ganharam caixas de garrafas de rum, que tinham como invólucro a frase “Cuba, País Libre de América”.

Em 27 de maio a delegação partiu para México, El Salvador e Panamá. Os mexicanos distinguiam jogadores de dirigentes e técnicos. Os primeiros eram classificados como artistas; os demais, turistas. Assim, cada atleta pagava US$ 43 para poder desenvolver sua “atividade artística”, ao passo que os demais membros, apenas US$ 3.

Ao pisar na Cidade do México, houve um choque de diplomacia. As caixas de papelão que protegiam o rum cubano foram dizimadas na alfândega. “Destruíram todas, alegando que faziam propaganda comunista”, conta Alfredinho. “Ao menos nos liberaram as bebidas...”

Após três meses e 20 dias de viagem, a delegação chegou ao Rio em 26 de junho. Três tardes depois, que dureza, os jogadores treinaram no campo da fábrica de tecidos Borborema. Estavam de volta à vida real.

Goleiro frustrado, Che chegou sorridente e cumprimentou todos jogadores

Madu in China

Não só em Cuba o Madureira fez história no começo da década de 60. O clube foi o primeiro do Brasil a dar uma volta ao mundo, em 1961. No total, foram seis meses de excursão pelos mais variados e exóticos cantos do planeta.

Entre aquele ano e o de 1964, o time conheceu quase todo o globo terrestre. Apresentou-se nos Estados Unidos, Japão, Indonésia, Malásia, Índia, Bélgica, França, União Soviética, África, Guatemala, Colômbia, Itália, Sri Lanka e por aí vai. Detalhe: no momento em que os militares deram o golpe no Brasil, o tricolor suburbano estava em plena China.

Na foto abaixo vê-se o meia Farah apertando a mão do vice-primeiro-ministro chinês Chen Yi, nomeado marechal do Exército Popular de Libertação e que respondia ainda como ministro dos Negócios Exteriores.

Em mais um pioneirismo de um clube que fazia, sem saber, história, o Madureira era o primeiro time brasileiro a visitar a fechada China comunista. Desfilou seu futebol mediano em Cantão, Pequim, Xangai e Tientsin sem licença da Confederação Brasileira de Desportos, a CBF da época, que cumpria determinação da Fifa que proibia jogos internacionais no país asiático.

 

 

matérias relacionadas