por Renan Dissenha Fagundes

Terra da Felicidade Interna Bruta, a pequena nação budista é o único país carbono negativo do mundo

É preciso, muito em breve, encontrar uma forma de diminuir o ritmo global de consumo. Mais importante ainda: é preciso pensar alternativas para o modelo de crescimento econômico que temos hoje. Não há outra opção. Fiquei convencido disso quando escrevi uma reportagem especial sobre consumo para a edição #249, de novembro do ano passado.

"Olhando do ponto de vista de um ecologista, eu diria que nós estamos chegando ao fim do crescimento", me disse o professor Jonathan Dawson, do Schumacher College.

O futuro, na entrevista, pareceu catastrófico e promissor.

Catastrófico porque, diminuindo o ritmo ou não, não teremos escolha. "O crash está vindo", foi como Jonathan encerrou a nossa conversa. Sobre as tendências de diminuição do consumo, disse que a maior parte das pessoas sequer "vai ter meios de manter o mesmo estilo de vida".

A crise, porém, abre espaço para experimentos novos – e até radicais.

Um deles é o caso do Butão, um país budista no Himalaia, entre a China e a Índia, que desde a década de 70 substituiu o Produto Interno Bruto (PIB) por um conceito de desenvolvimento social, a Felicidade Interna Bruta (FIB), tirando a ênfase do crescimento econômico. Tshering Tobgay, primeiro-ministro do país, contou um pouco sobre essas ideias recentemente no TED, em Vancouver, onde aproveitou para fazer piada com os bilionários que frequentam o evento: “Nosso PIB é menor que US$ 2 bilhões. Sei que alguns de vocês aqui valem mais”.

A principal parte da fala de Tobgay é sobre a promessa que o Butão fez de se manter "neutro em carbono para sempre". "Fizemos tal promessa primeiro em 2009 durante a COP 15 de Copenhague. Ninguém nos ouviu. Ninguém deu importância", ele conta.

A situação mudou em dezembro, durante a COP 21, em Paris, quando o país asiático – cujo território é mais de 70% coberto por florestas – reiterou a promessa. "Desta vez fomos ouvidos. Nos deram atenção, todos se importaram", diz Tobgay.

Segundo ele, o Butão não é apenas o (possivelmente) único país neutro em carbono do mundo: é certamente o único negativo em carbono. “O país inteiro gera 2,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono, mas nossas florestas removem mais do que o triplo desse total.” O “lucro” é de mais de 4 mi de toneladas de dióxido de carbono todo ano. Sem contar a energia renovável que o país exporta, compensando mais 6 mi de toneladas na vizinhança.

A moda de ter menos e um interesse maior nas ideias de um pequeno país budista mostram a mesma coisa: que existe uma busca por alternativas. Resta saber como os países desenvolvidos, que geram a maior parte do carbono (e do consumo) do planeta devem se comportar.

Jason Hickel, antropológo da London School of Economics, argumentou em um artigo no Guardian em setembro do ano passado que “crescimento não é mais uma opção — nós já crescemos demais”. Uma das noções que ele apresenta é a de que não seria mais possível defender que os países pobres cheguem até os ricos: as nações mais desenvolvidas teriam que se “des-desenvolver”, para um meio termo global. Guardadas as diferenças culturais, a experiência do Butão pode ser um norte para ajudar neste caminho, certamente difícil.

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Créditos

CC BY Göran Höglund

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