por Márcia Vieira

Adriano de Souza "Mineirinho" conquistou o mundo em 2015, quando se tornou campeão mundial e um dos melhores atletas do mundo no surf. Mas a batalha começou bem antes, na infância no Guarujá (SP)

*Nota da edição: o trecho abaixo faz parte do livro Como Se Tornar Um Campeão (Ed. Intrínseca), lançado em abril. A obra narra a difícil trajetória do atleta Adriano de Souza Mineirinho, considerado dos cinco melhores surfistas do mundo. Após vencer inúmeras dificuldades para forjar a carreira no esporte, Mineirinho se tornou campeão mundial de surf, em 2015.


Foi Ângelo, o irmão doze anos mais velho, quem percebeu que o caçula começava a trilhar um caminho potencialmente perigoso.

Adriano, ainda bem pequeno, vivia na rua soltando pipa e jogando futebol com a molecada da favela Santo Antônio, no Guarujá, estado de São Paulo. Circulava no meio de gente armada, que vendia ou comprava drogas. Na cabeça da família já se instalara o medo de ver um filho atingido pela violência. Quando o primogênito era criança, para impedir que ele andasse solto pela comunidade, o pai, Jonas, chegou a amarrar o menino ao pé da mesa.

Na verdade, Ângelo nunca deu trabalho. Sempre passou de ano na escola e, aos dezoito anos, entrou para o Exército, onde construiu uma carreira sólida ao longo de oito anos. Hoje em dia é policial militar, trabalha na área de combate a crimes ambientais. A carreira militar reforçou em Ângelo o gosto pela disciplina e a obediência às regras. Adriano, por outro lado, era abusado. Seu tio Francisco, homem de fala grossa, cabelos brancos, que ainda vive em Santo Antônio (hoje um bairro parcialmente urbanizado), gosta de contar que o menino, lá pelos seis, sete anos, já era vidrado em fliperama e videogame, como a maior parte das crianças nos anos 1990.

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Como Jonas só dava 25 centavos por dia para a diversão, ele passava a mão nas moedas que encontrava em casa ou na birosca do pai para se divertir nas máquinas. Primeiro, ele as escondia dentro da boca. Sem poder falar, balançava a cabeça e negava sempre que lhe questionavam sobre o sumiço de mais moedas. O esconderijo foi descoberto, levou uma bronca, mas insistiu. Começou a passar sabão no corpo para grudar na barriga, embaixo da camiseta, as moedas que recolhia. Novamente foi descoberto. As travessuras prosseguiram até o dia em que desapareceu uma moeda de um real da mesa de cabeceira de Ângelo. O irmão mais velho reagiu, perguntando quem pegara o dinheiro dali. Adriano ficou quieto. Não adiantou. Tomou uma baita surra. Não há um pingo de raiva na voz do surfista ao falar desse dia. Adriano tinha oito anos, Ângelo, vinte. Enquanto o caçula chorava, os pais assistiam a tudo de braços cruzados, em sinal de aprovação.

Mineirinho diz que o episódio foi muito importante para ele. Foi uma lição bem dolorosa, mas ali aprendeu o peso da ação errada. Ângelo, porém, não parou na surra. Percebeu que tinha de fazer algo mais para eliminar qualquer possibilidade de o irmão virar ladrão ou traficante, seu grande temor. Passou a carregar Adriano para pegar onda junto com ele nos fins de semana.. Foi nesse instante que ele compreendeu que tudo na vida é escolha. Ao pegar a prancha, não a viu apenas como uma prancha de surfe, mas como uma oportunidade. Ângelo se encarregou de ficar de olho em Adriano e passou a incentivar sua brincadeira nas ondas como forma de mantê-lo longe das tentações da favela. Ficaram tão unidos que, com o tempo, o mais novo herdou o apelido do mais velho.

“A prancha era enorme, totalmente inadequada para um menino de oito anos, mas mudou para sempre a vida de Adriano”
Marcia Vieira

Pelo jeito calado e muito observador, Ângelo ficou conhecido como Mineiro. Adriano virou Mineirinho. No cotidiano da favela, os pais, Jonas e Luzimar, enfrentavam dificuldades demais para dar muita atenção ao caçula. Os dois haviam chegado do Nordeste no início dos anos 1980 fugindo da miséria devastadora da pequenina Grossos, no sertão do Rio Grande do Norte.

Com menos de 10 mil habitantes, é nesse município que se concentram até hoje as maiores salinas não mecanizadas do país. Ali, a extração de sal é feita com a utilização de pás, picaretas e carrinhos de mão empurrados sobre tábuas de madeira. Desde menino, Jonas havia trabalhado nas salinas, onde ganhava o suficiente somente para comer. A luta pela sobrevivência o deixou fora da escola. Só foi aprender a ler e a escrever aos catorze anos.

Aos 25, depois de três dias e três noites dentro de um ônibus, desembarcou no Guarujá, onde já moravam a irmã Dorinha e o cunhado Francisco. Quatro meses depois, conseguiu uma vaga como estivador no vizinho porto de Santos. Luzimar veio seis meses depois do marido, carregando o pequenino Ângelo. Com três anos de trabalho, Jonas comprou seu barraco de madeira. Adriano nasceu ali, numa sexta-feira 13, em fevereiro de 1987.

Depois de perder o emprego no porto, Jonas abriu uma birosca na metade da frente da casa onde moravam, na rua principal da comunidade. Adriano tinha dois anos. Jonas trabalhava sete dias por semana, catorze horas por dia. Com a ajuda de Luzimar, aos poucos construiu um lugar melhor para a família, de alvenaria, com dois quartos, banheiro, cozinha e uma pequena sala. O mais tenso da dura rotina não era aturar os clientes bêbados, mas cotidianamente fingir que não sabia de nada quando a polícia entrava à procura de um ou outro frequentador do bar. Jonas se anestesiava do trabalho massacrante com doses generosas de vodca. Chegou a consumir uma garrafa por dia. Em 2011, vendeu o bar e largou o álcool. Os primeiros anos na favela foram muito difíceis também para Luzimar.

Além da violência, os moradores enfrentavam os problemas típicos de locais abandonados pelo poder público, como a falta de saneamento e a precariedade das moradias. As constantes enchentes levavam ratos para dentro dos barracos de madeira e de chão de terra batida. Luzimar ficava aterrorizada. A pobreza no Nordeste já havia deixado marcas na alma dessa mulher de olhos verdes muito vivos, que revelam uma pureza quase infantil. Perdera um filho com apenas dezessete dias de vida quando ainda morava em Grossos. O bebê, sem motivo aparente, foi deixando de comer e, em três dias, morreu. Ela só voltou a engravidar dez anos depois.

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Quando Adriano tinha três meses, Luzimar, então com 27 anos, sofreu uma crise nervosa. Tirou o bebê do berço, colocou-o num sofá e ateou fogo ao pequeno colchão de onde havia retirado o filho. Estava sozinha com as crianças. Os vizinhos agiram depressa, chamando os bombeiros. Ninguém se feriu, mas Luzimar foi levada de casa numa camisa de força. Passou três dias internada numa clínica psiquiátrica e só foi liberada porque o marido garantiu que podia muito bem cuidar dela em casa. Até hoje, nem ela nem Jonas sabem explicar o que provocou tal acesso de fúria. Adriano só tomou conhecimento do episódio já adulto. Ficou atônito.

Créditos

Imagem principal: Divulgação/@Rafaski

O capítulo e as fotos foram cedidos gentilmente pela editora Intrínseca.

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