Camila Eiroa
Alexandre Potascheff

por Camila Eiroa
Alexandre Potascheff

As plantas alimentícias não convencionais, PANCs, são facilmente encontradas na natureza e podem ser introduzidas na alimentação diária

Você é daquelas pessoas que, ao passar por um matinho no meio de uma caminhada, sabe identificar se ele é comestível? Pois as plantas alimentícias não convencionais, ou PANCs, estão ganhando cada vez mais a cabeça da galera. Grupos no Facebook e plataformas online estão ajudando a identificar e divulgar quais plantas podem ser ingeridas e seus devidos nomes. Mas bem antes desse boom, especialistas já se dedicavam a descobrir e mapear essas espécies.

"Minha história com as PANCs começou antes de eu nascer", diz o biólogo e professor Valdely Kinupp, um dos responsáveis pelo avanço nos estudos das espécies comestíveis. De família humilde de trabalhadores do campo do interior do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, ele saiu da zona rural aos 19 anos para fazer faculdade de ciências biológicas na UEL [Universidade Estadual de Londrina]. "Meu pai sabia todos os usos para as plantas, desde as medicinais até as de alimentação. A gente comia várias espécies em saladas, refogados e sopas."

Depois de terminar o curso de Biologia, Kinupp se mandou para a Amazônia para fazer mestrado em Botânica e começou a experimentar diversas espécies que surgiam em sua frente. "As pessoas falavam: cuidado, não come isso! Elas tinham medo", lembra. Ele é um dos autores do livro Plantas alimentícias não convencionais no Brasil (ed. Plantarum), um verdadeiro guia ilustrado com espécies que podem ser encontradas em território nacional e complementam a dieta de qualquer pessoa. O compilado é o resultado de dez anos de estudos de Kinupp e Harri Lorenzi, outro grande estudioso do assunto.

“Existe uma infinidade de plantas que podem ser tão nutritivas ou mais do que as de consumo casual”
Valdely Kinupp

Infelizmente o incentivo ao consumo das PANCs ainda caminha em passos lentos. Para Kinupp, isso muda quando as espécies chegam na alta gastronomia. "Quando elas transitam apenas entre pessoas de vulnerabilidade nutricional, parece algo para quem não tem dinheiro. Mas são plantas para todos. Mesmo numa metrópole como São Paulo é possível encontrar diversos produtos em terrenos baldios com menos sujeira de agrotóxicos do que os do mercado", diz.

Planta democrática
O restaurante Tuju, na zona oeste de São Paulo, tem uma particularidade que chama a atenção. Na entrada, o cliente encontra uma horta repleta de plantas que, sim, podem ser ingeridas e são usadas nos pratos servidos ali. São cerca de 400 espécies. A culinária refinada se mistura ao rito de acrescentar novos sabores aos pratos. O chef Ivan Ralston, responsável pelo restaurante, diz que sempre gostou de provar coisas diferentes. Para ele, a nossa biodiversidade é deixada de lado. "Tem a ver com a sociedade capitalista, a gente precisa produzir muito e ter preço de mercado para atender à população", acredita.

“Na periferia as pessoas têm origem rural e trouxeram o costume de comer aquilo que as pessoas julgam como mato”
Neide Rigo

Assim como Ivan, Neide Rigo, nutricionista formada pela USP e colunista do Caderno Paladar, do jornal O Estado de São Paulo, afirma que a monocultura é um dos maiores problemas para a biodiversidade. "O ideal é que essas espécies sejam vistas como convencionais, sejam PACs [risos]". Ela acredita que a partir de uma produção local é possível chegar a um consumo mais saudável e sustentável de alimentos. "O que você compra no supermercado passou por coisas bem piores e as pessoas não têm medo de comer. Eu pessoalmente tenho mais medo da poluição química aplicada nos produtos do que de uma contaminação biológica. Ninguém imaginou que a monocultura seria ruim."  

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As PANCs sempre estiveram presentes no cardápio de Neide, que cresceu na periferia, prova de que essas plantas são democráticas e podem ter seu uso originário de classes populares. "As pessoas de origem rural trouxeram o costume de comer aquilo que outros julgam como mato. Me lembro da primeira vez que comi taioba, que é uma planta superfácil de encontrar por aí. É minha PANC preferida", conta. 

Agricultura celeste
Segundo o livro Plantas alimentícias não convencionais no Brasil, existem 30 mil espécies vegetais que possuem partes comestíveis, sendo que apenas 20 delas respondem por 90% dos alimentos consumidos mundialmente. "Temos uma monotonia alimentar, comemos muito e temos um índice alto de diabetes, de carência nutricional e de minerais e de anemia. Nossa alimentação tem que ser mais diversificada", defende Kinupp. Ele ainda lembra que somente quatro plantas contribuem com 60% dos alimentos disponíveis no planeta: o milho, o arroz, o trigo e a batata inglesa. Sem esquecer da "civilização do milho", cereal que está em praticamente tudo o que consumimos, da cerveja aos adoçantes.

"Existe uma infinidade de plantas que podem ser tão nutritivas ou mais do que as de consumo casual, como a taioba, o inhame e o cará. Compramos a mesma coisa na feira há anos", acredita. O biólogo destaca o fato de o trabalho na roça ser sinônimo de pobreza e defende que precisamos nos conectar mais com a terra. "Vivemos em um sistema parasita que é a cidade. Um agricultor, hoje, é um empresário."

“Vivemos em um sistema parasita que é a cidade. Um agricultor, hoje, é um empresário”
Valdely Kinupp

52% dos alimentos que ingerimos tem origem euro-asiática. Com a modernização da agricultura, se intensificou a ideia de que as espécies que não vêm dessas regiões são coisa de indígena, de negro e de pobre. O movimento de redescoberta das PANCs caminha contra a monocultura e o uso de agrotóxicos, cujo consumo no Brasil é de, em média, 5,2 quilos por ano por pessoa – somos o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, segundo o IBGE.

"Por isso planta-se milho, seleciona-se uma variedade transgênica que suporta veneno e pode ser pulverizado por avião. Hoje temos uma agricultura que é muito mais química do que bioecológica. Podemos vir a ter um desabastecimento a qualquer momento, principalmente pelas mudanças climáticas. A monocultura não se reflete só em pobreza nutricional, mas leva à esterilização do solo. Estamos correndo um risco sério", finaliza Kinupp.

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