por Nathalia Zaccaro

Vem ler um trecho da biografia do cantor e saber um pouco mais da intimidade desse ídolo enigmático

Em 2007, dez anos antes de sua morte, Belchior começou a desaparecer. O mistério de seu autoexílio despertou curiosidade pela obra do cantor em toda uma geração. O vinil do segundo álbum do cearense, Alucinação, sucesso em 1976, virou fetiche. As letras filosóficas, modernas e cheias de poesia de suas composições transformaram Belchior em um enigmático herói cult.

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O suspense envolvendo seu desaparecimento mexeu também com o jornalista Jotabê Medeiros que, nessa época, começou a pesquisa para escrever a biografia do cantor. Jotabê ainda tentava um encontro com Belchior quando recebeu a notícia de sua morte, em abril deste ano. Depois de entrevistar parceiros musicais, amigos, familiares e produtores do cantor, o jornalista lança hoje (4/09), pela editora Todavia, a biografia de Belchior que leva no título uma das clássicas composições do cearense: Apenas um rapaz latino-americano.

Mostramos aqui alguns trechos do livro que mergulha no fenômeno Belchior:

Bangalôs, charqueadas e acampamentos

Belchior começou a desaparecer em 2007. As evidências de que seu sumiço era inusitado e “misterioso” foram sendo levantadas pela imprensa e por alguns vestígios que corroboravam a tese de uma fuga doida: além do ateliê abandonado, agentes que não conseguiam marcar shows, pensões atrasadas, celular desativado, familiares que não conseguiam dizer como encontrá-lo, amigos que não sabiam mais seu endereço e, enfim, as primeiras dívidas. O estacionamento Jaguaribe Park, de São Paulo, entrou com o primeiro processo, reclamando o pagamento de 8.323,59 reais – Belchior abandonara em suas dependências uma Mercedes C180, placa CCW-9000, ano 1995. Também largou outro veículo no aeroporto de Congonhas.

Angela Margareth Henman Belchior, ex-mulher de Belchior, mãe de Camila e Mikael, entrou com ação de partilha de bens em 2013, com sucesso. Fez isso para evitar que todos os bens fossem confiscados por dívidas comezinhas que estavam virando bolas de neve gigantescas após o sumiço do ex.

“Quando eu soube que ele tinha sumido por causa de umas dividazinhas, comecei a procurá-lo. Fui até a irmã dele. Eu podia resolver isso. Nós podíamos arrumar dois ou três shows e pagar tudo. Era coisinha. Mas não consegui achá-lo. Ele não quer ser ajudado”, contou um desolado Ciro Gomes, ex-governador do Ceará, ex-ministro da Fazenda e candidato eterno à presidência da República, logo após um debate político em São Paulo, em 2016.

Dez anos mais novo que Belchior, Ciro estudou em Sobral, cidade natal do cantor, no Colégio Sobralense, mas só veio a conhecê-lo em Fortaleza, quando já era famoso e cantava em festivais, em meados dos anos 1970. Ciro participava como expositor da chamada Massafeira, a mostra meio hippie de artistas e artesãos do Ceará, vendendo sandálias de couro que ele mesmo fabricava. Era amigo de Fagner e Ednardo, e, por tabela, acabou fazendo amizade também com Belchior, que frequentava menos o grupo. A última vez que se encontraram foi em 2008, depois do início do sumiço “oficial”, em 2007. Passaram a noite cantando e bebendo, como sempre fizeram, e Ciro conta que ele lhe pareceu “centrado e criativo” como sempre.

Em 26 de dezembro de 2007, Belchior ligou pela última vez para sua filha Camila. Ela já não tinha notícia dele havia meses. Quando atendeu, estranhou o número do celular, não era aquele do qual ele normalmente ligava. Reconheceu imediatamente a voz e começou a chorar copiosamente. Belchior falou: “Ah, tudo bem?”. Seu jeito alegre permanecia o mesmo. “Parabéns, filha! O que você está fazendo?” Ela seguia chorando.“Está tudo bem, filha. Daqui a pouco a gente se vê. Já, já a gente se vê.” Nunca mais ligaria.

Camila nunca ficou magoada. Mas sua tristeza perdurou por dez anos. Enquanto esperava por notícias e buscava contatos, ela se entristecia pelas perdas do pai, especialmente o contato com o mundo que tinha alimentado sua criação até ali, o palco, os fãs, a família, o Ceará.

Nos três anos seguintes, a partir de 2008, o paradeiro de Belchior e de sua mulher, Edna, de forma geral, ficaria encoberto por uma neblina fantasmagórica. Sabe-se que, dali por diante, o cantor perambulou pelo Uruguai, mas frequentemente cruzava a fronteira e ia a shows, festas e até saraus no Rio Grande do Sul.

Belchior gostava muito dos pampas. Tinha amigos de longa data por todo o Sul, em Porto Alegre, Santa Maria, Caxias, Santa Cruz, Pelotas e cidades menores, como Venâncio Aires e Lajeado, na região do Vale do Rio Pardo, e também Taquari. Admiradores conquistados nas longas turnês. Gostava das cidades, dos poetas, dos cantores, costumava citar seus nomes e suas obras. Admirava Mario Quintana verdadeiramente. Sempre adorava quando lhe falavam de Santa Maria e em seguida acrescentavam o nome completo da cidade (Santa Maria da Boca do Monte). Ria à larga desse nome. De Santa Cruz ele gostava por ser uma cidade arborizada, com clima de interior e confortos de cidade grande. Ele começou a visitar a cidade em 1980, quando conheceu a fotógrafa gaúcha Dulce Helfer. Trocavam cartas, telefonemas. Durante um jantar com amigos gaúchos no bar Van Gogh, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, em 2008, ele chegou a confidenciar que estava com planos de se mudar para Santa Cruz. “Assim que teu coração estiver desocupado, estarei sempre à tua espera”, escreveu Belchior a Dulce.

Ainda assim, enquanto o dinheiro sorria, era o Uruguai que lhe parecia o refúgio ideal. Ali, sua parada mais estável foi em San Gregorio de Polanco, uma cidade de 3,5 mil habitantes no Departamento de Tacuarembó, região central do Uruguai, a 369 quilômetros de Montevidéu, um vilarejo repleto de murais de artistas como Dumas Oroño e Felipe Ehrenberg, recobrindo casas e logradouros. O nome de San Gregorio deriva do santo católico de origem burguesa que também era conhecido por sua capacidade de diálogo.

Um lago de 20 mil hectares domina a paisagem. “Em uma fria manhã de inverno, em meio à bruma que vem do Río Negro, o casal chegou ao Lugarcito, um complexo de bangalôs para turistas”, descreveu o jornal Folha de S. Paulo, como se narrasse uma cena de um livro de Conan Doyle. Em San Gregorio, no Lugarcito, Belchior iniciou sua rotina de expatriado monástico. Escrevia na varanda de sua cabana de forma “hemorrágica”, como descreveu César Caétano, proprietário do Lugarcito. Leu Eduardo Galeano e Juan Carlos Onetti, gravou uma microentrevista para um restaurante que frequentava com mais assiduidade, o Mesón El Recanto, em Artigas (com poucos deslizes no espanhol). Teria feito também rascunhos de um álbum de histórias em quadrinhos, garantiu um dos conhecidos uruguaios. Trocava discos e organizava jantares discretos com os novos amigos que arrebanhou pelas imediações, como Ruben Dinardi.

“Acho que ele fugia do barulho, da imprensa, do sistema de obrigações que rodeia um músico da sua dimensão e da fama que o acompanha”, disse Tonio Pereira, diretor do canal local de tevê, a quem Belchior deu uma entrevista sem grande interesse.

Certa vez, Belchior abalou-se, de carona com seu senhorio, César Caétano, até Rivera (na fronteira com Santana do Livramento, no Brasil) e foi reconhecido. As pessoas criaram um pequeno tumulto, cercaram-no, não o deixavam entrar na agência bancária para onde tinha ido. O gerente teve que fechar o banco mais cedo somente para atender Belchior. “Está vendo, César? Isso não é vida”, disse a Caétano. Essa pequena incursão a uma agência bancária uruguaia corrobora uma tese que um dos mais antigos companheiros de Belchior, o arquiteto Fausto Nilo, sempre dizia a seu respeito. Brincando, Fausto gracejava assim: “Rapaz, o Belchior foi para o Uruguai para ficar perto do dinheiro dele. O dinheiro dele está no Uruguai, que é paraíso fiscal”. Fausto dizia isso jocosamente, para realçar sua opiniã de que Belchior nunca fora imprudente, nunca desperdiçou dinheiro, sempre foi cerebral, de ações calculadas.

Mas o dinheiro, se houvesse, tinha acabado. Belchior passou a protagonizar algumas cenas de melancólica dureza. No dia 12 de junho de 2009, Dia dos Namorados, um casal de brasileiros, acompanhado de seus pais, saiu para jantar com outro casal de amigos em um pequeno restaurante de Colonia do Sacramento. Reencontraram Belchior e Edna, que tinham conhecido no lobby do Sheraton de Colonia, luxuoso hotel instalado dentro de um campo de golfe. Conversaram durante quase duas horas. Ao convidarem o casal para se juntar a eles no afamado bistrô e galeria de arte La Casa, do chef Jorge Páez Vilaró, notaram que Belchior e Edna não de monstraram interesse de imediato. Belchior estaria a caminho de um festival e antes fariam uma sessão de fotos promocionais, disse a mulher. Mas, menos de cinco minutos depois de os três casais de brasileiros chegarem ao restaurante, Belchior e Edna os alcançaram.

Belchior tirou da bolsa um cd de poemas de Pablo Neruda e entregou para um dos casais, explicando que era presente de Dia dos Namorados. Para os pais destes, carregava uma gravura de Calasans Neto, pintor, gravador, escultor e cenógrafo baiano que ilustrou inúmeras obras de Jorge Amado. Segundo Edna, ela e Belchior haviam arrematado uma coleção de gravuras de Calasans Neto em um leilão da família de Jorge Amado, e ela estaria, nessa viagem, levando os trabalhos à Argentina para uma interessada em adquiri-los. Mas, se houvesse interesse…

Belchior falou sobre advocacia criminalista e judaísmo, dizendo que tinha origem judaica, de cristão-novo. Ao fim do jantar, Edna relatou que o pessoal da “produção” havia entrado no quarto deles para levar alguns equipamentos e acabou levando por engano sua bolsa de pertences pessoais, com documentos e cartões. Pediu aos anfitriões se não poderiam trocar para ela um cheque do Banco do Brasil. Como não tivessem dinheiro em espécie, acabaram apenas pagando a conta de Belchior e Edna.

Houve, por essa altura, também o caso de um promotor de Justiça, motociclista, que teria dado trezentos dólares a Belchior, recebendo em seguida um cheque frio do Banco do Brasil que o rapaz nem tentou trocar, pois sabia que era sem fundos. Segundo contou, aquele tornou-se o “autógrafo mais caro” de sua coleção.

Em agosto de 2009, Belchior, que tinha virado objeto de um jogo ao estilo Onde Está Wally? no país e no mundo, foi localizado pelo programa Fantástico, da Rede Globo, após uma caçada sem precedentes por jornalistas e pelos fãs e curiosos nas redes sociais. Ali, sentado no jardim, nitidamente a contragosto, ele deu uma pista de sua vida de então: “Eu estou sempre voltando para o Brasil”, afirmou. Não era uma metáfora: ele realmente ia e vinha do Rio Grande do Sul até o Uruguai. “Não sou uma celebridade”, ponderou. Infelizmente, era, e a tentativa de recuperar o anonimato o tinha empurrado para a fuga incessante, um inferno do qual não escaparia sem selfies.

Fagner contou que, em outubro de 2009, chegou a encontrar- se com Belchior em Canela, no Rio Grande do Sul, em um evento musical. Após anos de ruptura, conversaram no hotel em que estavam hospedados, num café da manhã em que havia outros artistas, como Sergio Reis e Amado Batista. Pode ser que Fagner tenha se enganado na data, já que a Festa Nacional da Música de Canela, em 2009, não tinha a presença de Belchior no programa. Belchior já estava, àquela altura, longamente exilado. Mas também pode ter efetivamente se deslocado do Uruguai até lá somente para conversarem. “Batemos um bom papo, falamos de música, sobre a vida, livros, foi quando ele mostrou um poema que ele escreveu para mim. Depois disso, nunca mais o encontrei”, relembrou Fagner.

Em dezembro de 2011, Belchior usou o telefone em San Gregorio de Polanco para ligar para o Ceará pela primeira vez em muitos anos. O único que atendeu de primeira foi o irmão, Francisco Gilberto, três anos mais novo que Belchior. “Com está mamãe?”, perguntou. Francisco ficou surpreso. “Bel, mamãe morreu já tem quatro meses.” Belchior ficou transtornado. “Mas por que vocês não me ligaram?”, perguntou. “Você não deixou nenhum telefone”, argumentou Francisco. Belchior soluçou ao telefone, ficou uns tempos emudecido. Depois, retomou as perguntas sobre temas diversos, como se não tivesse se tocado realmente do que acontecera. Depois disso, nunca mais ligou.

Ainda em 2011, Belchior atravessou a fronteira a passeio e acabou assistindo a um concerto em Quaraí (a 597 quilômetros de Porto Alegre). No palco, estava o pianista João Tavares Filho, gaúcho que vive hoje em Roma e encabeçava um programa musical-educativo. Belchior gostou do recital e o convidou para fazerem algo juntos, mas no Uruguai. Ficou acertado que seria em Rivera. É uma curiosa história que parece invocar a excentricidade de outro misantropo da mpb, Geraldo Vandré. Este, após retornar do exílio, fez raras aparições públicas e só topou fazer um show, nos anos 1980, do lado paraguaio da fronteira com o Brasil. No Brasil, de 1968 para cá, Vandré só subiu ao palco em um evento da Força Aérea Brasileira e em outro a convite da cantora folk Joan Baez.

O pianista quaraiense Tavares Filho não fez forfait: aceitou gravar com Belchior no Uruguai e surgiu o que batizaram como Ondas sonoras – Primeiro movimento, um embrião de um projeto musical. A gravação foi realizada por Paulo Coser (da empresa

Projesom Sonorizações) em 7 de setembro de 2011, no Centro Cultural do Consulado do Brasil em Artigas, no Uruguai. Responsável pela captação em áudio e vídeo, Paulo Coser disse que foram gravadas três músicas: “Velha roupa colorida” (o vídeo já virou hit após liberado pelo pianista), “Retórica sentimental” e “Paralelas”. A ideia da filmagem foi de Belchior, que tateava em busca de uma linguagem de vídeo.

Em maio de 2012, Belchior e Edna, que estavam hospedados havia alguns meses em um hotel de Artigas, saíram sem pagar a conta, de 30 mil reais, deixando para trás roupas, blocos de anotações e desenhos, malas, três pinturas e um laptop. Sem alternativa, a gerente, María da Rosa, os denunciou à polícia. Foi expedido um mandado de busca.

Créditos

Imagem principal: Acervo Jorge Mello/Divulgação

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