por Lia Hama
Trip #192

Carlos Ribeiro, ex-presidente da HP Brasil, abriu mão de poder e privilégios e se mudou pra um sítio

Um senhor alto, corpulento e de óculos nos recebe na entrada de seu sítio, perto de uma cidadezinha no sul de Minas Gerais, cujo nome ele prefere manter em segredo. De camiseta branca surrada, calça de sarja e tênis esportivos, ele logo pede desculpas pelos trajes. “Espero que vocês não se importem. Mas é que eu me visto desse jeito agora”, explica. E os ternos da época de presidente, você ainda guarda no armário? “Ih, não, doei todos os que eu tinha.” E eram muitos – a indumentária de uma vida inteira que ficou para trás.

Há quatro anos o carioca Carlos Ribeiro abriu mão de uma rotina cercada de poder, privilégios e bajulação na cidade grande para viver na montanha, onde se dedica a afazeres como a marcenaria e o cultivo de uma horta. Em outubro de 2006, aos 54 anos, o então CEO da HP no Brasil anunciou a aposentadoria precoce. Após carreira de 30 anos na gigante de informática – oito deles no cargo de presidente –, decidiu passar o bastão. Ele, que havia comandado a empresa em momentos decisivos, como a fusão com a Compaq, resolveu que era hora de mudar de vida. Junto com a mulher, Eliana, deixou a casa onde morava na zona sul de São Paulo e partiu para o campo. Filhos já adultos, o casal poderia enfim se dedicar em tempo integral aos projetos pessoais.

Desde então, Carlos construiu uma bela casa no alto da montanha, a mais de 1.500 metros de altitude, com vista espetacular para a serra da Mantiqueira. Lá recebe amigos, cozinha, serve vinhos da adega particular e mostra a coleção de antiguidades. Leva os convidados para conhecer a cachoeira em seu quintal e o lago onde são criados trutas e lambaris. Mostra com orgulho o moinho e o monjolo que ele mesmo construiu para fazer farinha de pinhão.

No dia a dia, Carlos dedica seu tempo a produzir violões. Faz a restauração de peças barrocas, cultiva alimentos orgânicos, tem aulas de violão e aprende, de forma autodidata, “um francês macarrônico”. Também abre as portas de casa para a comunidade. Construiu um cinema, onde crianças de uma escola próxima vão assistir a filmes. “Eu e minha mulher podíamos morar isolados aqui. Mas decidimos nos integrar aos moradores da região”, explica. Leia a seguir a entrevista que ele deu à Trip, entre goles de café fresquinho e um pudim de pão preparados por Eliana.

Por que você deixou o cargo de presidente da HP no Brasil?
Eu sempre quis ir para um lugar menor, mais perto da natureza. Era o meu projeto de vida para quando deixasse o trabalho. Sentia que o meu tempo na HP estava terminando e, àquela altura, ir para outra empresa não fazia sentido. Já estava há oito anos na presidência e percebia que não estava mais no máximo do meu pique de criatividade. E não queria morar fora do Brasil. Seria uma alternativa, mas isso não fazia parte dos meus planos. Havia um trauma.

O que aconteceu?
Em 1980 eu trabalhava na HP do Rio e recebi uma promoção para assumir uma posição no México. Me mudei com a família. Nessa época, eu tinha meu filho mais velho e uma filha de 8 meses. Ela morreu de meningite aguda. Ficou um trauma e nunca mais aceitei morar no exterior. Não poderia fazer minha mulher passar por aquilo de novo. Teve ainda um outro incidente. Minha ideia inicial era me aposentar em 2009, 2010. Mas a morte do meu pai, em agosto de 2005, fez com que eu antecipasse isso. Eu estava no velório dele e me deu um estalo. Pensei: “O que eu estou esperando? Por que vou aguardar até 2010, se posso fazer isso agora?”. Procurei meu chefe, expliquei a situação e marcamos a data da saída. No total, o processo de transição e de preparação do substituto demorou cerca de um ano.

Como foi o dia da despedida? Você chorou?
Muito. Passei 30 anos na HP, construí a minha vida profissional lá. Ocupei todos os cargos, conheci um monte de gente...

Como foi a reação da família e dos amigos quando você anunciou sua decisão?
Meus filhos deram apoio porque eu sempre compartilhei com eles meu plano de morar no campo. Os amigos e colegas também apoiaram, mas acho que muita gente achou que não ia dar certo. Muitos se perguntavam: “Será que eles vão aguentar?”. Outros diziam: “Nossa, que coragem!”. Meu antigo chefe até enviou a diretora de recursos humanos da HP para cá, para saber se estava tudo bem. Eles não entendiam o que eu fazia aqui! [Risos.]

Você se arrepende de sua decisão?

Olha, não me arrependo. É claro que abri mão de muitas coisas, né? Mas também me livrei de um monte de coisas chatas. Claro que eu poderia estar ganhando muito mais do que agora, com a aposentadoria e o fundo de pensão. A gente tem que viver de reservas. Mas felizmente conseguimos poupar o suficiente para montar essa estrutura e levar a vida que a gente quer.

“Se eu sinto falta de um carro blindado? Eu me sentia mal é de ter que usar um carro blindado!"

Sente falta dos privilégios e das mordomias da época de presidente?
Não. Sentir falta de carro blindado? Eu me sentia mal de ter que usar carro blindado! Sinto falta do nosso motorista, que era uma pessoa excepcional, o Walter. Infelizmente ele faleceu logo depois que eu saí da HP. Tinha um problema no coração. Dele eu sinto falta, mas da pessoa e não de ter um motorista. Também sinto falta do convívio social. Mantenho a participação no conselho do Instituto Akatu, em São Paulo. Uma vez por mês tenho reunião lá.

E das festas com outros empresários, dá saudade?
A gente sempre procurou separar bem isso: o que eu era de verdade e o papel que eu tinha de interpretar, ou seja, o de um presidente de uma grande empresa pelo qual eu era remunerado. Eu participava desses eventos com empresários que o João Doria Jr. organiza, era importante para a companhia. Foi legal e fiz muitos amigos. Mas aquilo não era o meu natural. Até porque sou mais introvertido. Nesses eventos há um certo artificialismo. Sempre soube que aquilo um dia ia acabar. Não sou apegado a símbolos de poder, essas coisas.

Foi difícil se adaptar à nova vida?
Não, porque eu nunca pautei minha vida exclusivamente pelo trabalho. Sempre tive hobbies, fazia muitas coisas ao mesmo tempo. Então não me senti órfão, perdido. Tenho facilidade em mudar o botão. Quando saía de férias, deixava meu substituto e, em um dia, já estava desligado. Não pensava no que estava acontecendo na empresa. Quando me aposentei, aconteceu isso também. Em dois dias eu já estava em outra.

Como é morar só com sua mulher aqui?
A Eliana tem esse espírito alegre, para cima. Eu sou mais para baixo, mais calado. Então a gente se complementa. Agora tem dia que é chato, um reclama do outro. Temos que ter espaço para atividades separadas, não ficar se esbarrando o tempo todo. Esse é o segredo. Às vezes um vai para São Paulo e o outro fica. Aí dá saudades e é bom quando a gente se reencontra.

Você é mais feliz hoje?
Ah, sem dúvida nenhuma. Porque eliminei uma parte pesada da minha rotina e mantive as partes legais. Não estou dizendo que é tudo às mil maravilhas aqui. Tem dias que a gente não acorda legal. Temos momentos de fossa, de deprê, como todo mundo. Mas eu nunca questionei a minha escolha.

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