por Adriana Del Ré
Trip #165

Vistos como problemas femininos, os transtornos alimentares atingem cada vez mais homens

O modelo Ed Jó, 21, nem sempre gosta do que vê quando olha no espelho. Na real, quase nunca. A percepção que ele construiu de si mesmo é uma contradição. Apesar de ter consciência da própria magreza, não pára de caçar gorduras pelo corpo. Queria ter mais ossos expostos e menos, muito menos, peso. Uns dez subtraídos dos 60 que atualmente carrega, como um fardo, em seu 1,89 m de altura. Ed tem clareza dos riscos que corre toda vez que investe em métodos pouco ortodoxos para perder peso, mas não tira o foco do que é hoje sua meta de vida. E não tem problemas para afirmar: “Sou bulímico e anoréxico”.
A anorexia (doença em que existe o desejo voluntário de perder peso, que leva o indivíduo a reduzir ou zerar a quantidade de alimentos ingeridos) e a bulimia (em que o doente apresenta episódios de compulsão alimentar, seguidos de comportamentos compensatórios, como a indução do vômito) são transtornos alimentares (TA) causados por múltiplos fatores (genéticos hereditários, culturais e psicológicos), com incidência maior entre adolescentes. Para especialistas, são casos para tratamento. Para Ed, um estilo de vida que adotou desde os 13 anos de idade.
Naquela época, ele era um garoto que gostava de comer bem e, de repente, viu o ponteiro da balança quase alcançar os 100 kg. Não suportou ser visto como gordo num mundo em que ser magro virou padrão de beleza e felicidade. Fechou a boca e, em três meses, despencou vertiginosamente de 99 kg pra 49 kg. Foi o início de uma saga insana, em que todos os excessos foram cometidos em nome da busca pelo corpo ideal. De lá pra cá, já foram 11 internações. Chegou a ficar sete dias só no NF (no food) – termo recorrente nas conversas de quem tem ana (anorexia) e mia (bulimia). “Hoje eu como de vez em quando. Só como arroz, feijão, carne e batata quando estou desmaiando”, admite. “Uma pessoa gorda representa tudo de ruim, é impossível ser feliz gordo.”
Quando chegou a São Paulo, vindo de Pombal, na Paraíba, ele tinha o sonho de se dar bem como modelo. Mas, segundo Ed, as agências exigiam dele um corpo ainda mais magro do que já apresentava. Agora, ele está à caça de alguma editora que compre a idéia de lançar um livro sobre suas experiências. Acha que vai ser polêmico, a começar pela sugestão de título: Anorexia – O cami­nho da perfeição.
  
RESTRIÇÃO A ÁGUA
A história de Ed Jó não é um caso isolado: ela engrossa uma estatística pouco conhecida envolvendo os homens. “Como a prevalência é superior em mulheres (90% dos casos), deu-se pouca importância aos estudos em homens”, diz o médico psiquiatra Alexandre Azevedo, do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (Ambulim). “O aumento da incidência vem ocorrendo em paralelo ao aumento do número de casos novos em mulheres, e agora o problema masculino tornou-se mais visível”, explica Azevedo, que supervisiona o grupo de atendimento médico em transtornos alimentares em homens.
Em atividade no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP, o Ambulim atende atualmente 14 rapazes. O estudante Rafael, de 22 anos, é um deles. E seu histórico é semelhante ao de tantos outros garotos que vêem na comida seu maior obstáculo rumo à perfeição física. Com 13 anos, Rafael achava que estava acima do peso e, aproveitando a ausência do pai por causa do trabalho, parou de comer. Durante dias, só tomou soro caseiro.       
O pai percebeu que ele estava perdendo peso e ficou no pé. Aos 17 anos, a “restrição alimentar” voltou com força total. Negava-se a comer e passou um tempo de cama, sem conseguir andar direito. “Eu restringi até a água, porque ficava preocupado com qualquer coisa que pudesse me fazer pesar mais”, afirma. Tomava diuréticos e laxantes, provocava vômito com ajuda de xampu ou detergente. “Eu levava minha roupa até a farmácia para pesá-la na balança. Aí, voltava para casa, a vestia e ia de novo pra farmácia, me pesar com ela.”
Desesperado, o pai resolveu mandá-lo a Limeira, interior de São Paulo, para que se tratasse. Rafael estava com 1,83 m de altura e 46 kg. “Para eu tomar soro, era preciso me sedar.” Tempos depois, no Ambulim, passou cinco meses internado e, agora, faz acompanhamento médico toda semana. Cumpre as cinco refeições do dia que lhe são passadas, mas gostaria de comer menos. “Não me arrependo de ter deixado de comer, me arrependo das coisas que parei de fazer. Abandonei a faculdade de artes, deixei de sair com os amigos.”, conta o estudante, que hoje pesa pouco mais de 60 kg. “Quanto mais magro, mais realizado eu sou.”

DISTORÇÃO DA IMAGEM
Em meninos e meninas, os TA se manifestam da mesma maneira: distorção da imagem corporal, comportamentos alimentares inadequados (dietas restritivas, jejuns prolongados, episódios de compulsão alimentar), além dos vômitos auto-induzidos, abuso de laxantes e diuréticos, exercício físico exagerado, entre outros métodos. Assim como as mu­lheres, eles gostam de compartilhar suas experiências em blogs ou em comunidades de relacionamento, como o Orkut, e se abastecem de dietas malucas na internet.
Por outro lado, é um grupo com particularidades. “Entre os homens, há muitos transtornos no esporte e na moda. Na década de 80, os modelos eram mais musculosos; hoje, precisam ser mais magros e andrógenos”, comenta a psicóloga Valéria Lemos Palazzo, do Grupo de Apoio e Tratamento dos Distúrbios Alimentares (GTDA). “Atualmente, o número de homens com transtornos está se equiparando com o de mulheres. Antes era muito distante.”
A psiquiatra Paula Melin, do Núcleo de Transtornos Alimentares e Obesidade (NUTTRA), no Rio, complementa: “Ainda se acha que é doença de mulher, por isso eles têm vergonha de procurar ajuda”. Enquanto isso, vão perdendo a libido, os cabelos, a concentração, as unhas enfraquecem, desenvolvem sintomas depressivos.

PELE E OSSO
O cabeleireiro mineiro Fernando Ricci, 27, garante que parou com a bulimia por conta própria, sem precisar de tratamento. Começou nessa vida uns sete anos atrás, por conta de uma barriguinha indesejada. Apesar de ficar incomodado, não queria se privar de comer um bom prato de macarronada. Assim, tomado por acessos de culpa após bater uma bela refeição, não pensava duas vezes antes de botar o dedo na garganta e vomitar. “Com o passar do tempo, fui emagrecendo muito, queria cada vez mais. Tanto que cheguei a pesar 50 kg medindo 1,88 m.”
Quando as pessoas começaram a comentar sobre sua magreza excessiva, sua ficha caiu. “Eu estava muito feio, só pele e osso.” A morte da modelo Ana Carolina Reston por anorexia foi a pá de cal que faltava. Hoje é viciado em academia, do tipo que malha todo dia – o que, para especialistas, pode também ca­­ra­c­terizar um quadro de bulimia. “Gosto de pessoas magras. Tanto é que fiz minha última namorada emagrecer uns 7 kg. Falei pra ela que se quisesse ficar comigo tinha de emagrecer”, lembra. “Não tenho preconceito contra quem tem bulimia ou anorexia, tanto que faço parte de comunidades do gênero no Orkut. Sou a favor da magreza. Ao extremo. As pessoas têm de ser felizes, só não podem perder o controle.”

 

matérias relacionadas