Com 18 anos eu achava que o futuro era infinito. Hoje sei que não é, e tenho plena consciência de que cada minuto é precioso

Uns dias atrás eu conversava sobre envelhecimento com um amigo de Ubatuba que tem mais ou menos a minha idade. Ele, que é solteiro, surfa todos os dias em qualquer situação de mar e tem uma impressionante forma física, reclamava que começava a ser visto como um tiozinho, embora se sentisse tão bem quanto há 20 ou 30 anos. Eu, que também sinto um certo desconforto com a questão, me lembrei, na hora, dos tupinambás, excepcionais guerreiros que viviam no litoral entre o Rio e São Paulo quando os europeus chegaram (e que resistiram bravamente, colecionando não poucas vitórias, por 60 anos). Pedi ao meu amigo que imaginasse um grupo de guerra tupinambá se preparando para ir dar uns cascudos nos portugueses. Será, eu perguntei, que o chefe se preocuparia com a idade dos combatentes? “Você, Caramuru, é o nosso melhor arqueiro, mas, como já passou dos 50 e incidiu na aposentadoria compulsória, não poderá participar da batalha. No seu lugar, vamos levar o Curumim Júnior, que ainda não atira muito bem, mas tem a idade regulamentar de 20 anos.” É óbvio que isso não faria o menor sentido. Nas sociedades pré-modernas, o que contava não era a idade, mas a capacidade da pessoa de fazer o que precisava ser feito.

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Não que o nosso problema hoje seja apenas a idade. As sociedades modernas adoram enquadrar as pessoas. Você acaba definido por critérios como profissão, nível de escolaridade, gênero, religião, cor de pele e, também, idade. O juízo de bom ou ruim para cada um dos critérios pode variar conforme o lugar e a época, podendo até mesmo ser usado como pretexto para escravizar ou matar. O que não muda é a mania de classificar. Ser (ou parecer) mais velho já foi bom, hoje é ruim. Há cem anos, idade era sinal de experiência e respeitabilidade. Na casa da minha mãe está pendurado, na parede, um retrato da minha bisavó, já casada. Se você não souber a idade dela no dia em que foi fotografada, vai chutar que tinha entre 30 e 40 anos. Mas a verdade é que tinha apenas 16. Ela, que morreria muito cedo, menos de uma década após aquela foto, procurou ser desde os 15, quando se casou, uma respeitável senhora. O exemplo de minha bisavó era regra, não exceção.

Tenho medo, sim

Dito isso, é inegável que todos nós envelhecemos. Mais depressa ou mais devagar, mas envelhecemos. Eu já sinto, não posso negar, alguns sinais. Nem tanto no corpo ou no intelecto, que estão tão bem (ou mal) como sempre estiveram. Mas algumas coisas mudaram. Por exemplo, tenho cada vez menos saco para fazer coisas que acho chatas. Ou, dizendo de outra maneira: sinto que não posso perder tempo. Tem muita coisa que quero fazer, ler, escrever, conhecer. E sei que o relógio está e estará cada vez mais contra mim. Com 18 anos eu achava que o futuro era infinito. Hoje sei que não é, e tenho plena consciência de que cada minuto é precioso. Não vou negar que tenho medo, não da idade em si, mas daquilo que ela, mais cedo ou mais tarde, trará: dores e limitações no corpo, hospitais, falência mental, incontinência urinária...

Quem inventou o termo “melhor idade” deveria ser processado e preso, pois sabemos que não tem nada de melhor na decrepitude. Minha avó, que viveu até os 93 anos e até pouco antes de morrer foi independente e ativa, adorava dizer que velhice é uma merda. Quando eu fazia piada com a idade dela, a velhinha, que era muito bem-humorada e não deixava nada barato, respondia: “Pra lá você vai, meu neto, pra lá você vai”. Vou, eu sei, e morro de medo. Mas, enquanto isso não acontece, procuro fazer como os tupinambás e trato de ignorar o assunto. Pois eu ainda acerto umas flechadas que muito curumim por aí não acerta.

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