por Luiz Alberto Mendes

Alegria

 

Vivi tanto tempo triste que hoje sei que sem a alegria provavelmente, não me fosse possível viver uma vida saudável, construtiva e satisfatória (não que minha vida seja assim, mas...). Aprendi, na prisão, a zombar de tudo que me oprimisse. Aprendi a aguentar a dor e sorrir mesmo assim. Aprendi a fazer piada mesmo algemado com as mão para trás e tomando socos na cara. Dizia que estava parecendo uma raquete de tênis de tantos golpes que rebati com a cara. Aprendi a apanhar e em vez de chorar e gritar desesperado como apreciavam os torturadores; eu xingava, ofendia e cuspia na cara deles. Foi com o sofrimento que aprendi que o orgulho é mais poderoso que a dor. A raiva e ódio acumulados me faziam reagir. Para me torturar primeiro era preciso me dominar completamente. O que não era algo fácil de se fazer, pois sou atlético até hoje. Sabia que quanto mais enfrentasse, mais me bateriam, até que chegaria a um ponto que eu não sentia mais nada, ficava inteiramente anestesiado. Pendurado no pau de arara, pelado, de bunda para cima, tomando choque elétrico no pênis, no anus e na boca, aprendi a provocar a dor a ponto de tornar-me insensível a ela. Esse era o grande segredo para suportar tortura. Era uma espécie de loucura que me protegia de outras loucuras, aquelas que enfraqueceriam e abateriam o meu orgulho pessoal. Os torturadores preferiam torturar meus parceiros que a mim. Era mais perigoso, porque aqueles que os enfrentavam, eles tendiam a matar e jogar no mato crivado de balas. Seria apenas mais uma vítima do famoso Esquadrão da Morte. Conheci pessoalmente, dentro e fora da prisão os executores do chamado Esquadrão da Morte. Correinha, Zé Guarda e Fininho, os três principais laranjas do Delegado Freury que à época do Esquadrão, dirigia o DEIC. Foram condenados por vários assassinatos e cumpriram suas penas em seguro de vida, mas por vezes foi possível falar com eles. Eles eram bandidos também. Corruptos, roubavam, extorquiam e matavam. E matavam depois de explorarem ao máximo suas vítimas. Afirmavam, e não precisavam mentir para nós, que eram responsáveis apenas por uma pequena parcela das mortes que lhes eram imputadas. E foi nos caçando, torturando e matando que o "famoso" Delegado se projetou e foi promovido para o DOPS, de onde comandou a caça às organizações de esquerda que combatiam a ditadura militar. Claro, como sabia demais, "morreu" fazendo pesca marinha, em que se tornara especialista.

Hoje, para mim, escrever é muito parecido com enfrentar. Enfrentar o preconceito das pessoas que, pelo meu passado, julgam sem me conhecer. Não me dão nem a chance de assumir meus erros, dizer que sinto muito, que aprendi e que tento reverter e fazer o contrário o tempo todo. Escrever é me permitir à essa loucura iluminada que mistura alegria com satisfação de viver. É um dos poucos ofícios que só é bom se servir para os outros. Não escrevemos para nós. Outros profissionais podem se utilizarem de seus ofícios para aplicar em si. O médico pode se auto medicar, o alfaiate pode fazer sua roupa e o advogado advogar em causa própria. Como escritor não curto o que inventei como o leitor. Não tem a menor graça; não sou tão egocêntrico assim. Na maioria das vezes revisei o texto tantas vezes que estou até empanzinado dele. A alegria de escrever esta em ser lido e comentado. Hoje é essa alegria que me sustenta, que me faz querer aprender mais para escrever melhor e ter melhores idéias. É ai que esta a alegria e o sentido de minha vida.

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Luiz Mendes

24/09/2014.

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