por Alê Youssef

Nosso país é marcado por tradições culturais muito fortes que ajudam a explicar por que estamos todos aqui, vivendo juntos nessa grande confusão

Nosso país é marcado por tradições culturais muito fortes que ajudam a explicar por que estamos todos aqui, vivendo juntos nessa grande confusão

 

Estive recentemente na festa junina da escola da minha filha Julia, a Sá Pereira, no Rio de Janeiro. Em meio às mesas de doces e salgados típicos, brincadeiras e quadrilhas ao som de uma ótima banda que tocava o melhor do baião, me bateu uma emoção forte de estar em um ambiente muito natural, uma lembrança presente de uma tradição que se repetiu durante todos os anos da minha infância e que agora retornava através da experiência que minha filha estava vivendo.

Esse ‘déjà vu’ bom e repleto de detalhes bate primeiro por uma similaridade muito grande entre o método de ensino e a postura ideológica dessa escola com a escola que frequentei quando criança. Ouvi dizer que meu Rainha da Paz não é mais hoje em dia tão Sá Pereira como já foi, e espero que a Sá Pereira continue firme como está, mas foi o aspecto humanista, construtivista e o estilo que Antonio Prata jocosa e brilhantemente batizou de ‘’meio intelectual, meio de esquerda” – presentes tanto nas festas do meu passado como na festa de agora – que estabeleceram na minha lembrança essa conexão direta.

Além disso, existe uma dimensão cultural mais ampla do que a experiência pessoal em si, que extrapola a sensação de pertencimento de determinado momento: nosso país é marcado por tradições culturais muito fortes. Rituais e festividades que aproximam as pessoas, que cultivam identidade através de hábitos, comportamentos e artes. São, enfim, expressões do que nos torna uma comunidade e ajudam a explicar por que estamos todos aqui, vivendo juntos nessa grande confusão chamada Brasil.

 

HINO NACIONAL

Em determinado momento da festa, alunas e alunos mais velhos que Julia, já com seus 8 ou 9 anos, fizeram uma homenagem a Luiz Gonzaga, tocando em uma orquestra de flautas e um coral a música “Asa branca”. Ver aquela meninada e molecada, nos dias de hoje, cantar os versos tristes desse verdadeiro hino nacional, que remetia às mazelas sociais da época da composição genial de Gonzaga e Teixeira, fez com que a grande maioria dos pais presentes se emocionasse.

O cruzamento da experiência ideológica de abordagem humanística e a dimensão ampliada de nossa conectividade enquanto comunidade brasileira, nesse momento tão marcante do país, fez a geração de quarentões e cinquentões achar um lugar coletivo de emoção e reflexão. A experiência identitária se dava na mistura de um sentido de urgência pelo futuro do país dos nossos filhos que dançavam quadrilha ali mesmo e a letra que falava da seca, da perda do gado e da morte do alazão do marido de Rosinha.

Na volta pra casa, depois da festa, cheguei à conclusão que todas as crianças de nosso país deveriam estudar e cantar a “Asa branca” e que, diante de todos os problemas e desafios que nossa comunidade hoje enfrenta, é muito importante entender e valorizar nossas raízes. São elas que nos unem.

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