A nada discreta história do homem vista por seu pênis

por Celso Miranda
Trip #214

Cinco mil anos de admiração, reverência, confusão, opressão e simbolismo

Cinco mil anos de admiração, reverência, confusão, opressão e simbolismo localizados abaixo da cintura dos livros de história

“Depois que o Pai Enki ergueu os olhos ao Eufrates,
Levantou-se cheio de luxúria como um touro ao atacar.
Ergueu o pênis, ejaculou,
Encheu o Eufrates de água corrente.”

A descrição poética acima, com mais de 5 mil anos, foi desenterrada das ruínas da cidade suméria de Eridu, no atual Iraque, e celebra as proezas de Enki, um deus de formas humanas descrito como Senhor dos Destinos. E a importância atribuída ao pênis de Enki não chega perto da que os egípcios registraram em hieróglifos escritos há 4 mil anos sobre o deus Atum: “O meu punho tornou-se a minha esposa e copulei com a minha mão”. É isso mesmo que você está pensando! Atum criou o mundo se masturbando!

Exposto
“A circuncisão existe há, pelo menos, 6 mil anos. É tão antiga quanto a história”, afirma Malek Chebel, antropólogo especialista em mundo árabe e em Islã. Segundo a Bíblia, num texto provavelmente escrito no século 5 a.C., a circuncisão já era conhecida e praticada nos tempos de Abraão, às margens do rio Jordão e na Samaria, e desde o princípio como um sinal da aliança entre Deus, os homens e “seus futuros descendentes”. Quanto aos árabes, o costume originou-se, segundo a tradição, porque Ismael, o antepassado dos árabes, filho de Abraão, teria sido circuncidado com 13 anos. Até o início do século 20, os jovens iemenitas de 16 anos deviam ser circuncidados na frente das noivas, testemunhas da coragem de seus futuros maridos.

Pré-história: 10 mil A.C.
As pinturas nas cavernas de Vila Nova de Foz Côa, Portugal, revelam que homens pré-históricos decoravam o pênis com tatuagens e cicatrizes, para utilizá-los em rituais.

Século XL A.C.: Osíris
No mito de Osíris, seu corpo foi desmembrado em 14 partes e o pênis não foi localizado. Sua irmã, a rainha Ísis, transformou-se num falcão, pairou sobre a virilha da múmia e fez nascer um novo membro. Ísis, então, pousou sobre o órgão e transou com a múmia, recebendo o sêmen de Osíris.

Século V A.C.: Circuncisão
Heródoto confirmou a ancestralidade da circuncisão: “Egípcios e etíopes (...), eu não saberia dizer qual dos dois povos foi o primeiro a praticá-lo, pois trata-se de um costume muito mais antigo” (Histórias, II).

Século I: Pompeia
Uma série de pinturas romanas de Priapo que sobreviveu à erupção do vulcão Vesúvio o retrata pesando em uma balança seu falo e um saco cheio de dinheiro – e parece que seu falo era mais pesado.

Século XIII: Masculino/Feminino
Lakshminarayan representa o deus Vishnu e sua consorte Lakshmi, em uma figura meio feminina e meio masculina. Esse conceito também é encontrado em Ardhanarisvara, que representa Shiva e sua consorte Parvati.

Gargaleira poluída?
Sagrado, sinal de saúde e virilidade, na maior parte de sua existência o pênis andou livre, leve e solto pelo mundo. Os gregos adoravam suas formas e mostravam-no para conquistar donzelas e efebos quando se exercitavam nus ou quando declamavam versos em sua homenagem nas arenas. Com o crescimento da influência cristã, no entanto, o pobrezinho ganhou a pecha de vara do demônio. Ou, como escreveu Santo Agostinho, de “gargaleira poluída, por onde emerge o mais obsceno dos eflúvios, o sêmen”.

O pênis renasce
O Renascimento na Europa recolocou o homem no centro das discussões filosóficas e religiosas e descortinou a anatomia humana. Foi Leonardo da Vinci (sempre ele!) que retomou o tema ao desenhar mais de 5 mil páginas com esboços sobre o pênis. Seus estudos libertaram o pênis do esquecimento e desbancaram teorias furadas sobre seu funcionamento. Algumas delas afirmavam que a ereção acontecia por inflação de ar e que o falo era ligado a uma artéria do coração que lhe dava vida. O conhecimento e as revoluções – sociais, religiosas, econômicas – iam se acumulando na Europa e, no século 18, os centros urbanos seriam um cenário bem diferente. Se a sodomia ainda seria um crime capital por um século, desapareceram as restrições para o sexo heterossexual masculino. Com isso, disparou o número de nascimentos de filhos ilegítimos e aumentou o de mulheres arruinadas. O comportamento promíscuo sempre foi tolerado entre a aristocracia, mas, a partir do final do século 18, o comportamento sexual passou a ser visto como uma questão muito particular, com o resultado paradoxal de que toda uma gama de ideias e práticas sexuais, dentro e fora do casamento, passou a ser discutida e celebrada, e se tornou mais pública do que nunca.

Século XIV: Lingga
Em Sukuh, na Indonésia, estão esculturas de um pênis, também conhecido como Lingga, que representa Dewa Shiwa e que, ao lado de Bethari Yuda, ou Yoni (a vagina), é responsável por trazer o ser humano ao mundo.

1504: Davi
Uma das esculturas mais populares da história é uma obra-prima da Renascença, criada entre 1501 e 1504 pelo italiano Michelangelo. O resultado final é um jovem homem nu de 5,17 metros em mármore.

Século XVI: Tamanho é documento
Nas cortes de França e Inglaterra dois acessórios faziam sucesso entre os rapazes: o codpiece, uma espécie de bolsa na parte interna da calça que exagerava o órgão genital, e os sapatos poulaine. Quanto mais pontudos, mais bem-dotado seria o usuário.

1869: O manipulador
Movido a vapor, o primeiro vibrador parecia um secador de cabelos e foi inventado pelo médico inglês George Taylor. Em 1902, a Hamilton Beach patenteou o primeiro vibrador elétrico, vendido no varejo. Isso fez dele o quinto eletrodoméstico a ser patenteado, antes mesmo do ferro de passar e da geladeira.

Renasce
Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, dedicou parte da sua vida e de sua obra para explicar o papel do pênis na formação do indivíduo e da sociedade. Para ele, o pênis era o órgão fundamental na formação do caráter de todas as pessoas. Depois dele, séculos de castrações e a relação do macho com o próprio membro nunca mais foi harmoniosa. A sociedade ocidental colocou no pênis uma pressão enorme para a definição de sua identidade masculina. E isso explicaria por que os homens dão tanta importância a ele, preocupam-se com seu tamanho, comparam-no com outros e entram em crise ao menor sinal de problema na região.

Democratização
Sessenta anos depois de Freud publicar seus três ensaios sobre a sexualidade, em 1901, o pênis dividiu o mundo na guerra dos sexos e virou emblema político na década de 1960, com o movimento por direitos iguais às mulheres, que contestava a tese de inveja do pênis, como um símbolo da opressão. E sua versão plastificada e motorizada (o vibrador) passou a ser disseminada e encorajada por feministas, como Betty Friedman em suas deliciosas campanhas pelo que chamava de democratização do falo.

1922: O último castrato
O registro mais antigo de escravos castrados tem quase 4 mil anos e vem da cidade de Lagash, na Suméria. Os castrati também foram utilizados para substituir as mulheres como vozes agudas nos coros no século 16. A prática só foi proibida em 1902. O último castrato, Alessandro Moreschi, morreu em 1922. Estima-se que ainda hoje existam 50 mil eunucos vivos.

1968: um pênis beatle
Recém-casado com a artista plástica Yoko Ono, John Lennon lançou seu primeiro disco solo de ruídos e sons aleatórios, chamado Unfinished Music No. 1: Two Virgins. Na capa, o casal aparecia nu. A gravadora EMI recusou-se a distribuir o disco.

Pênis-robô
No novo milênio, em meio ao debate sobre a sexualidade e a multiplicidade de gêneros, a evolução da ciência contribui decisivamente para a proclamação da independência do pênis. Segundo um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine, 52,5% das mulheres adultas norte-americanas já usaram algum tipo de vibrador, já os homens somam 44,8%. No campo das cirurgias plásticas, a ciência também oferece opções como a faloplastia (implante) e a metoidioplastia (que utiliza o clitóris), que tornaram o pênis não mais uma exclusividade, um símbolo ou uma necessidade masculina. O que será dele, então?

1980: Mapplethorpe
Sobre a fotografia Homem em terno de poliéster, Camille Paglia via paralelos com as inovações de Manet em Le Déjeuner sur l’herbe. “Não há nenhuma tentativa de suavizar ou idealizar. Esta carne é francamente sexual, disponível e não romantizada.”

1988: O Viagra
Em 1998, a humanidade venceu a impotência. Uma indústria farmacêutica, a Pfizer, lançou o Viagra. No primeiro ano, a empresa faturou mais de US$ 1 bilhão.

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