por Olímpio Cruz Neto
Trip #219

Os dois brasileiros que comandaram o braço da ONU na luta contra a fome no mundo

Seis décadas separam as atuações dos dois únicos brasileiros no comando da FAO, braço da ONU criado em 1945 para combater a fome no mundo. De Josué de Castro, que presidiu o conselho da organização entre 1952 e 1956, a José Graziano, diretor-geral desde 2012, levar comida até as barrigas nas quais ela sempre faltou se mantém como um imenso desafio. A dúvida é: temos mais chance de resolvê-lo?

O mundo ainda tem muita fome. Uma em cada oito pessoas no planeta está desnutrida. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 870 milhões de pessoas não comem o suficiente para serem consideradas saudáveis. Desse total, 75% estão em zonas rurais, a maioria vivendo de agricultura de subsistência. O número é vergonhoso, mas já foi mais alto. Há duas décadas, havia 1 bilhão de famintos na Terra. Há 50 anos, dois em cada três cidadãos do planeta passavam fome.

O paradoxal é que não faltam alimentos para suprir esse contingente. O planeta produz a cada ano 2,5 bilhões de toneladas de cereais, com estoque de 500 milhões de toneladas. Há comida suficiente. O problema é levá-la a quem precisa e acabar com o desperdício: todo ano, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são perdidas ou jogadas no lixo.

A guerra contra a fome é um dos grandes desafios colocados pela ONU aos seus 193 países-
membros. No centro de comando da luta, é um brasileiro que dá as ordens: José Graziano da Silva, que ficou conhecido como o ministro que implantou o programa Fome Zero no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva – e que desde janeiro de 2012 é o diretor-geral da FAO, sigla para Food and Agriculture Organization, braço da ONU para as questões ligadas à alimentação e à agricultura. Não é a primeira vez que um brasileiro lidera a agenda internacional do assunto: em 1952, exatos 60 anos antes da posse de Graziano, um médico pernambucano chamado Josué de Castro chegava à presidência do conselho da mesma FAO – entidade fundada em 1945 com a função de aumentar os níveis de nutrição e qualidade de vida no mundo, além de melhorar a produtividade da agricultura e dar melhores condições às populações rurais.

Omissão política

Diplomata e deputado federal mais tarde perseguido pela ditadura militar (morreria no exílio, em 1973, deprimido por não conseguir voltar ao Brasil), Castro foi pioneiro ao sugerir políticas de segurança alimentar, incentivo à agricultura familiar e criação de restaurantes populares. Seus livros foram traduzidos em 25 idiomas. O mais famoso, Geografia da fome, lançado em 1946, representou uma quebra na “conspiração do silêncio” que existia em torno do assunto, como diz o professor Malaquias Batista Filho, da Universidade Federal de Pernambuco – aluno de Castro e hoje grande especialista em saúde e nutrição. “Ele foi o primeiro pensador de um governo mundial capaz de gerir o problema da fome e da miséria”, destaca.

“Encaro o desafio [de erradicar a fome no mundo nos próximos anos] com bastante otimismo, por mais incrível que possa parecer”

Em outra obra, Homens e caranguejos, recorreu às metáforas do mangue e do homem-
caranguejo, “que vive na lama e da lama”, em seu Recife natal, para denunciar a fome – ideia que, nos anos 90, serviu de inspiração para o movimento Manguebeat, liderado pelo músico Chico Science. Josué de Castro tinha a clara percepção de que a fome não é um problema natural, decorrente da falta de água e condições para plantar, ou um castigo divino. A, fome, para ele, era fruto de omissão política. Graziano acredita na mesma ideia.

Fome Zero

José Graziano da Silva é filho de mãe calabresa e pai paulista – e ilustre: José Gomes da Silva foi fazendeiro de sucesso, agrônomo especialista em reforma agrária, tendo ocupado cargos nos governos paulista e federal, além de ser consultor da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da própria FAO. Nascido por acaso nos Estados Unidos, em Urbana (Illinois) – por conta do mestrado que o pai fazia por lá –, Graziano foi militante da juventude católica de esquerda e se formou agrônomo em 1972 pela Esalq, a Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (USP). Fez doutorado na Unicamp e outras pós na Universidade da Califórnia e no Instituto de Estudos Latino-Americanos da University College London.

Foi José Gomes, o pai, que em 1991 acabou incumbido por Lula de elaborar um programa de segurança alimentar para o Brasil. Mais de dez anos depois, em 2003, com Lula eleito presidente, José Graziano, o filho, virou o ministro do Fome Zero, programa que completa dez anos em outubro e que, apesar de dividir opiniões – os críticos mais ácidos o chamam de “bolsa esmola” – tem êxito reconhecido pela ONU.

Na esteira desse êxito (segundo os números oficiais, 24 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema com o programa) Graziano, pai de dois filhos e avô de dois netos, tornou-se diretor da FAO para a América Latina e ganhou a força política que o fez vencer as eleições para a direção-geral da instituição, em junho de 2011, numa disputa acirrada com o ex-chanceler espanhol Miguel Angel Moratinos.

A escolha se deu em meio a um processo de reforma da entidade. Uma das primeiras mudanças foi encurtar o mandato do diretor-
geral de seis para quatro anos e limitar a apenas dois mandatos consecutivos a possibilidade de ficar no posto (o antecessor, o senegalês Jacques Diouf, ocupou o cargo por 18 anos e o deixou sob críticas de ineficiência).

Orçamento baixo

Assim que ganhou a eleição, as notícias não foram as mais animadoras para Graziano: para começar, o orçamento da organização para o biênio 2012-2013 teve reajuste tímido (de apenas 1,4%), o que se deve em grande parte à pressão dos países mais ricos (como os EUA), que, em franca crise econômica, exigem que a FAO faça suas reformas e corte gastos antes de pedir mais dinheiro. Com US$ 1 bilhão para gastar (fora as contribuições voluntárias dos países, que devem somar US$ 1,4 bilhão no período), Graziano não escondeu que esperava mais: “A solidariedade do mundo desenvolvido é crucial”, disse na época. Mas ele concorda que a reforma administrativa é fundamental – e descentralizar é a palavra de ordem. Se ao assumir ele encontrou 80% dos 3 mil funcionários trabalhando em Roma, sua meta é espalhar a entidade por mais lugares, levando ajuda e orientação técnica a quem precisa.

À frente da FAO, Graziano se desdobra como um globe-trotter. Na mesma semana, é capaz de estar em Luanda, capital de Angola, voar para Nova York, nos Estados Unidos, e em seguida dar um pulo em Roma, na Itália, onde está o quartel-general da FAO (e o apartamento onde mora com a mulher, a jornalista Paola Ligasacchi). A agenda se desdobra entre reuniões com chefes de Estado, técnicos e representantes diplomáticos. E, claro, visitas às comunidades mais remotas do planeta.

Em janeiro de 2012, pouco depois de assumir o cargo, Graziano andou por países do Chifre da África, onde a soma de décadas de conflitos políticos e a pior seca em 60 anos causaram fome e morte em 2011. Na Somália, país-símbolo desse desastre, a situação extrema melhorou em 2012, graças a uma melhor colheita e um aumento nas entregas emergenciais de alimentos. A crise, claro, não acabou – como o próprio diretor-geral admitiu publicamente ao voltar da viagem. Mas é inegável que, em lugares como a Somália, um dos países mais pobres e violentos do mundo, atormentado por milícias em guerra, a questão da fome vai muito além dos problemas estritamente relacionados à produção e à distribuição de comida.

Meta ambiciosa

Por tudo isso, soa até utópico o desejo de atender à convocação do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, de não apenas reduzir, mas erradicar a fome global até o ano de 2015. A ideia é que todo ser humano tenha direito a ingerir pelo menos 1.850 calorias diariamente. Sem a cooperação de todas as nações, é improvável que José Graziano consiga atingir a meta em seus quatro anos de mandato. Ainda assim, o diretor-geral gosta de dizer que, se houver vontade, o objetivo não é assim tão despropositado. “O Brasil, por exemplo, conseguiu transformar a região de Petrolina, em pleno semiárido, no estado de Pernambuco, num celeiro de produção de alimentos. Lá, plantam-se frutas e produz-se até vinho. Dá para fazer isso na África.”

De voz calma, Graziano diz não temer a tarefa. “Encaro o desafio com bastante otimismo, por mais incrível que possa parecer”, comenta. Um dos amigos mais próximos, o veterano jornalista Ricardo Kotscho, que trabalhou com ele no governo Lula, diz que esse é um dos traços do professor, que descreve como “um homem simples e modesto, mas que tem sonhos”.

Combater a fome mundial sem o respaldo da comunidade global é tarefa bem mais complicada do que a experiência vivida com o Fome Zero – quando Graziano tinha o apoio do presidente da república e a simpatia de diversos setores da sociedade. Mas a experiência técnica no desenvolvimento de políticas agrícolas é um dos elementos que podem fazer a diferença em sua gestão, como apontou um artigo do jornal britânico Guardian, pouco depois de sua escolha para o comando da FAO: “São agricultores – e não diplomatas – que cultivam alimentos”. Para Graziano, a solução para os problemas de segurança alimentar começa nas aldeias, nas cidades, com iniciativas locais. “Ninguém come em nível global. Você come no restaurante, na cantina, na sua casa É aí que precisamos de respostas.” Exatamente como pregou o pernambucano Josué. Mas agora, espera-se, com mais condições para acertar.

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