por Nathalia Zaccaro
Trip #268

A estilista Flavia Aranha leva, com suas criações, a cultura do tingimento e da tecelagem artesanais para alta-costura

O vermelho intenso do pau-brasil se espalhando pelos 120 litros de água do panelão que Flavia Aranha usa para tingir as roupas é uma cena que parecia impossível para a estilista que, desde 2009, usa catuaba, casca de cebola, urucum, café e outros pigmentos naturais para colorir as peças de sua marca. “Sempre quis usar o pau-brasil, mas, sabendo da exploração que resultou na quase extinção da árvore, não conseguia incluí-la no meu processo”, conta a estilista, dona de uma loja com seu nome na Vila Madalena, em São Paulo. Essa angústia teve fim no Espírito Santo, onde fabricantes artesanais de arcos de violinos tratavam como lixo a serragem de pau-brasil que sobrava da produção do instrumento. Há um ano não tratam mais: “Aquilo é ouro para mim”.

Depois de algumas horas fervendo nas panelas, sendo torcidas, enxaguadas e escorridas pelas mãos de Flávia e sua equipe, blusas, saias e vestidos de vermelhos intensos – e também roxos, rosados e alaranjados – dominaram a última coleção. Bem diferente das primeiras peças, coloridas à base de chás, e sobre as quais Flávia se acostumou a ouvir de clientes: “Poxa, mas só tem roupa nude?”.

“Incluir essa madeira na coleção representa pra mim a possibilidade de dividir a reflexão de que cada planta, cada cor, carrega em si memórias que podem nos fazer pensar sobre o poder que existe na natureza e a maneira predatória como nos relacionamos com ela”, diz. Essa percepção existe desde o início de suas pesquisas sobre receitas tradicionais de tingimento natural, em 2008, quando visitou comunidades em Minas Gerais, Goiás, Pernambuco e Pará. “Ao mesmo tempo em que essas tarefas são a única opção de trabalho feminino, as artesãs transformam essas atividades em expressão e conquista de independência. Mesmo percebendo como minha realidade é diferente, me identifiquei com a ideia de que o trabalho manual poderia me libertar”, conta.

LEIA TAMBÉM: Ronaldo Fraga critica a sociedade de consumo e dispara: “A moda brasileira pode muito mais”

Slow fashion

Antes de empreender, Flavia foi estilista na indústria da moda. “Passava mais tempo tentando reduzir custos do que produzindo”, lembra. Nessa época, ela fez uma viagem à Índia para conhecer os meios de produção da indústria têxtil e deu de cara com a mão de obra análoga à escravidão e com uma realidade cruel que a transformava em alguém que a menina que cresceu em Campinas, cercada pela natureza, não queria ser. Decidiu investir na marca própria, focando a produção em tecidos orgânicos, sempre com tingimento natural. Essa opção confronta o crescente sucesso de marcas de fast fashion, que vendem roupa barata e de qualidade duvidosa para um público ávido por novidades. “É urgente repensarmos nossos hábitos de consumo”, diz.

Mas Flavia sabe que não basta querer para trocar as lojas de departamento por peças 
exclusivas como as suas. “O preço é a grande lacuna do meu projeto, tento encontrar maneiras de democratizar o acesso sem inviabilizar a produção artesanal”, conta. Ela está se preparando para reformar o ateliê e instalar uma lavandeira própria que deve baratear um pouco os custos. “Faço workshops em que conto um pouco de tudo que aprendi para quem quiser fazer em casa suas peças”, diz. Mais do que seus segredos, Flavia divide a certeza de que a força das mãos é transformadora. “Sentir a textura, a temperatura e ver os dedos coloridos pela tinta é uma experiência que muda a maneira como nos relacionamos com o que vestimos e acredito que daí pode nascer uma consciência sobre nossas escolhas de consumo”, conta.

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido / Divulgação

matérias relacionadas