por Nathalia Zaccaro
Trip #268

Paula Dib não se afoba e usa sua capacidade de adaptação para encontrar soluções em prol de comunidades artesanais brasileiras

Paula Dib sempre viu possibilidades nas quais diziam existir limites. Com menos de 2 anos, enquanto seus pais discutiam com o cirurgião ortopédico José Luiz Pistelli sobre a necessidade de uma prótese para fazer as vezes do braço esquerdo que Paula nasceu sem, ela aceitou um bombom das mãos do médico, abriu o doce com a boca, comeu e seguiu sem parecer estar limitada a qualquer condição. Pistelli diagnosticou: ela não precisa de cirurgia. Não precisava mesmo.

Paula é designer e ajuda comunidades dedicadas a trabalhos manuais a potencializarem sua produção. “Sempre na minha vida encontrei meios alternativos para fazer as coisas e acabei desenvolvendo esse olhar”, explica. Em uma de suas imersões, Paula direcionou sua atenção para um grupo de produtores de calçados no interior do Ceará, na região do Cariri. Descobriu que o couro usado ali carregava quase 500 anos de história da região. Resgatou as vestimentas, os tipos de corte e de costura que foram feitos daquele material durante todo esse tempo. “Eles estavam deixando de lado essa riqueza e investindo em sandálias simples, vendidas a menos de R$ 10”, conta. Durante dois anos, entre 2011 e 2013, Paula desenvolveu ali um polo de produção de calçados mais sofisticados, cheios de memórias e delicadeza.

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Os sapatos levaram a força do sertão nordestino para lugares como Portugal, Espanha e Japão, e melhoraram bastante o rendimento das famílias produtoras. “Conseguimos exportar um produto íntegro, que carrega a cultura brasileira”, conta Paula, que durante a faculdade de desenho industrial se perguntava por que raios os professores exploravam o design escandinavo e não referências regionais. 

DE VOLTA PRA CASA

Atenta a diversas realidades, Paula cruzou seu caminho com o de aborígines australianos, pescadores nordestinos, educadores de Moçambique e costureiras de uma favela mineira. “Meu trabalho sempre exigiu muitas viagens, e eu adorava – se me ligassem chamando para ficar meses na África, eu topava na hora e embarcava no dia seguinte.” Essa rotina, porém, deixou de ser prioridade em 2014, com o nascimento de Pedro, seu primeiro filho. “A maternidade mudou tudo, de novo precisei olhar para minha vida e buscar novos caminhos”, reflete Paula, que tem tido cada vez menos vontade de se afastar da casa onde vive em São Paulo, na Vila Madalena, por onde circula tranquila de bicicleta.

Agora, em parceria com o museu A Casa, ela começou a desenvolver um projeto de resgate da cultura manual dos refugiados que vivem na capital paulista. “São artesãos com saberes específicos, como o trato com a madrepérola, típico dos Sírios. Eles chegam ao Brasil e não sabem por onde recomeçar seus fazeres. Quero me envolver com esse universo.”

Aos 40 anos, Paula tem refletido sobre o prazer de desacelerar. “Quando estamos no meio do turbilhão, acreditamos que o senso de urgência digital é mais importante que os tempos e processos das coisas”, diz. Para ela, a maternidade foi esse momento de ressignificação. Estar em contato com produção manual, seja trabalhando em uma comunidade remota ou cuidando do jardim da sua casa, lembra a designer do aspecto que mais a encanta em seu trabalho: a humanidade. “Poucas atividades são mais humanas do que produzir com as mãos.”

Ela não se desespera quando alguém demora em retornar uma mensagem nem se apressa para responder as incontáveis demandas diárias. “Tem uma frase que adoro e que diz muito sobre o que tenho aprendido com a vida: não se afobe não, que nada é pra já”, diz Paula, concordando com Chico Buarque.

Créditos

Imagem principal: Penna Prearo

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