por Camila Eiroa

Mc Linn da Quebrada é uma terrorista de gênero. Com suas músicas, ela insiste: não quer pau, quer paz

A primeira vez que Linn da Quebrada se permitiu experimentar uma das personas que a faz ser a MC que é hoje foi aos 17 anos. Na infância como menino e Testemunha de Jeová no interior de São Paulo, Linn foi criada pela tia enquanto a mãe trabalhava. O pai sumiu. O primeiro emprego foi no salão de cabeleireiro de um cunhado, aos 14. "Passei a ter contato com outras possibilidades de existência e relações", conta. Na noite de aniversário dos 17, combinou com uma amiga travesti de se montar. "Foi uma sensação de liberdade. Sabe quando você compra uma roupa que você queria muito? Era isso, como se algo em mim tivesse ficado preso por muito tempo e de repente vazava pelos poros."

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“Ainda tem muito em mim daquele corpo que foi educado religiosamente. Tanto tem que eu sei os efeitos e digo que não quero”
Linn da Quebrada

Mesmo seguindo assiduamente o caminho da doutrina religiosa, Linn foi expulsa da igreja assim que resolveu assumir o seu novo eu. Para que pudesse fazer parte daquele grupo, deveria seguir regras que não estava mais disposta. "Me vi desamparada, todas as pessoas que eu tinha até então não podiam mais falar comigo. Tudo porque uma maçã podre pode apodrecer as outras", lembra a cantora. O momento difícil foi um impulso para que ela desse vazão aos seus próprios desejos. "Ainda tem muito em mim daquele corpo que foi educado religiosamente. Tanto tem que eu sei os efeitos e digo que não quero."

Aos 26 anos, a MC se considera uma terrorista de gênero. Depois de percorrer o caminho da experimentação e usar a arte para isso, decidiu colocar o seu corpo enquanto arma "contra esse cis-tema que pune todas as pessoas que estão fora do padrão". O corpo como resistência. "O terror já existe, nós somos violentadas todos os dias. Inclusive as pessoas que obedecem ao padrão, porque vivem sob constante ameaça de punição", explica. O papel do gênero é fundamental na existência de Linn, mas não se engane: ela não busca ser uma messias da sexualidade, não garante trazer verdades.

Assista ao vídeo abaixo:

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"O vigilante de gênero aponta pra mim e grita: 'Você não é homem'. Ele diz que é homem de verdade e por isso todas as outras pessoas devem olhar pra mim e saber que eu não tenho o direito de existir", diz. Essa é a principal fonte de inspiração para as suas músicas. "Eu moro na Fazenda da Juta, extremo leste de São Paulo. Lá, tem funk todo sábado. Eu não me reconhecia nas letras, então ocupei esse espaço para falar de mim", conta. Sua primeira música foi feita em novembro de 2015, Transviado.

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“Somos maravilhosas pra dar close, mas não pra se relacionar. Só se for uma gozada rápida à noite, antes de dormir”
Linn da Quebrada

MC Linn joga todo mundo na parede quando a questão é relações sexo-afetivas com travestis e trans. "Tem muitas outras formas de viver, de se relacionar, inclusive de trepar. Nós somos maravilhosas pra dar close mas não pra se relacionar. Só se for uma gozada rápida à noite, antes de dormir", dispara. "Hoje eu me coloco nesse lugar que eu não vou mais chupar um cara escondida no banheiro."

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Linn não faz música para ser artista: ela quer ser ouvida. O clipe de sua canção Enviadescer já tem centenas de milhares de visualizações no YouTube e o primeiro disco está em fase de criação, com 12 faixas já escritas. "Tentaram me matar diversas vezes me gritando viado ou bicha, dizendo que eu não poderia fazer aquilo comigo mesma. Eu sou uma bicha transviada e me dou o direito de ter vida!"

Créditos

Foto principal: Vivi Bacco

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