por Nyle Ferrari

Não, Jéssica Tauane não mora na roça. Brejo é uma reunião de sapas, e o reinado dela começa no Canal das Bee. Criadora também do Gorda de Boa, a Youtuber faz ativismo com humor e uma risada deliciosa

Feminista, católica, gorda e sapatão. Jessica Tauane, 24 anos, não esconde suas origens e nem tem vergonha de suas escolhas. Tem um amigo padre a quem recorre frequentemente e fala com humor de uma doença de pele que a acompanha. Não foi por acaso que em pouco tempo se tornou uma das grandes vozes contra o preconceito e pela desmistificação do universo LGBT. Seu Canal das Bee tem 3 anos e mais de 210 mil inscritos. Gente interessada em graça, mas também em papo sério. Em um de seus vídeos mais acessados, "Top 10 das Gírias Lésbicas", ela explica didaticamente o significado de expressões como “chá de xoxota”, “rebuceteio” e “brejo”. Em outros, ela passa a limpo afirmações do deputado Bolsonaro e fala sobre graves situações de desigualdade racial e machismo. Tudo sob uma enxurrada de comentários sobre como ela é gorda. Hein? Isso mesmo, na falta de críticas os comentaristas anônimos tentam agredir Jessica como se estivessem na quarta série. Ela não dá a mínima, assim como seus parceiros Fernanda Soares, Luciana Arraes, Debora Baldin, Cecilia Pompeia, Herbet Castro e Mola.

A proposta descontraída do Canal cativou, principalmente o público jovem. No ano em foi criado, venceu na categoria revelação um importante concurso de talentos na internet, o Content Talent Show. Hoje, suas 18 milhões de visualizações podem ser consideradas significantes para quem produz conteúdo segmentado. Em 2015, o canal entrou na lista do Youpix como um dos mais influentes da internet brasileira. A youtuber acredita que o projeto chamou atenção por mostrar que é possível fazer humor politicamente correto e porque não pretende atingir somente um público. “Não adianta falar só para ativista. Militância é também dialogar com quem não entende a sua causa, e o humor é uma boa maneira de fazer isso”, diz.

“Eu nunca me achei feia e não via problema em ser gorda. Quiseram me fazer acreditar no contrário”
Jessica Tauane

Inspirada pelos comentários que atacavam seu peso e pelo vídeo "Corpo Perfeito", que fez com Jout Jout, Jessica criou em 2015 o Gorda de Boa. Ali, fala de sua história pessoal e da relação que ela e outras mulheres têm com seus corpos. “Tive a dimensão do quanto o corpo ainda é motivo de vergonha para muitas mulheres. Algo precisava ser feito”. Outra motivação para a criação desse segundo canal foi a dieta que Jéssica precisou encarar para melhorar o quadro de sua doença de pele pouco conhecida (hidradenite supurativa) e que a afeta há alguns anos. Já que precisava emagrecer, fez à sua maneira: descontraindo. “Tem gente que é magra de ruim. Eu sou gorda de boa”, diz, rindo daquele jeito que a gente adora.

Jessica nos recebeu para uma conversa em sua casa, na zona sul de São Paulo, onde tem velas das personagens do seriado Orange is the new black e uma coleção de, veja só, garrafas de água de vários cantos do mundo. Em uma hora, foi das gargalhadas aos olhos marejados, falou sobre as ameaças que já sofreu na internet e como foi aceitar seu próprio corpo.

Sua mãe já disse em vídeo que deu total apoio quando você se assumiu lésbica. E seu pai? Você também recebeu apoio dele? Meu pai é meu melhor amigo, uma inspiração. Mas com ele foi um pouco mais difícil. Quem contou foi ela, eu não consegui. Ao ouvir dela com todas as letras “sua filha é homossexual” ele ficou triste, pensando nos sofrimentos pelos quais eu poderia passar. Eu respeitei, esperei ele digerir e hoje recebo apoio total. Durante meu processo de aceitação, meu maior problema mesmo foi a religião.

Religião? Sim, eu sempre tive uma relação muito forte com Deus, cresci na igreja tocando violão. E quando me dei conta que era lésbica, na adolescência, entrei em depressão. Ouvir que você vai para o inferno com 14 anos pira a sua cabeça.

“Militância é também dialogar com quem não entende a sua causa, e o humor é uma boa maneira de fazer isso”
Jessica Tauane

E como você se relaciona com a religião, hoje? Ainda sou muito próxima de Deus, mas eu tenho plena noção de todo o mal que a Igreja causou, e causa, na vida de quem faz parte da comunidade LGBT. Tanto que, mesmo hoje, com 24 anos, essa mulher empoderada, eu pergunto para o padre se Deus me ama mesmo.

Aceitar-se como uma mulher gorda, apesar do preconceito, foi difícil também? Meu processo de empoderamento foi às avessas, digamos. Eu nunca me achei feia, não vi problema em ser gorda até criar o Canal das Bee e os ataques começarem. Como ser sapatão era motivo de orgulho para mim, resolveram criticar a minha gordura. Trouxeram essa insegurança até mim, queriam enfiar na minha cabeça que eu era feia porque era gorda e então vi que tinha algo muito errado.

E como foi depois disso? Pesquisando sobre gordofobia descobri o trabalho de ativistas como a Jessica Ipólito, do blog Gorda e Sapatão, e confirmei que não tinha nada de errado comigo. Isso, junto com o feminismo, me salvou.

No Gorda de Boa o cenário é repleto de mulheres magras. Por quê? Porque é para as mulheres se lembrarem que na mídia a gente só vê isso. Dieta, dieta, dieta. Há um discurso gordofóbico que se disfarça de preocupação com a saúde.

Considerando que a obesidade também é um problema, acaba sendo um assunto muito delicado. Sim, é um problema, mas existem pessoas gordas saudáveis. E a questão também é a intimidade. Se você não tem, não vai falar para a pessoa emagrecer. E mesmo que tenha, é legal escolher as palavras certas. Ou pensar bem e cuidar da própria vida. [risos] Eu acho engraçado porque eu ser gorda é realmente uma questão na vida das pessoas.

Por quê? Você recebe muitos xingamentos? Sim, xingamentos são frequentes. O número um é gorda. Acho que as pessoas deitam a cabeça no travesseiro à noite e ficam pensando em mim: “nossa, a Jéssica é gorda, né? Vou acordar amanhã e ir lá xingar ela”.

Já foi perseguida ou ameaçada? Sim. Em 2015 jogaram um vídeo antigo do canal, sobre o deputado Jair Bolsonaro, em uma dessas páginas homofóbicas. Os “bolsominions” foram atrás do meu perfil. Fizeram montagens, me xingaram e até disseram coisas do tipo: “nunca alguém iria estuprar você, sua gorda. Mas para ser torturada, serve”. O que me deixou mais triste e desesperada foi perceber que existem pessoas más fora da minha bolha de amor, pró-diversidade. Desde então não ando mais sozinha. Até parece que vou facilitar para essa gente, né?

“Há um discurso gordofóbico que se disfarça de preocupação com a saúde ”
Jessica Tauane

Apesar da sua posição firme e o orgulho de seu corpo, você decidiu emagrecer. Por quê? Sofro de uma doença rara, hereditária e pouco conhecida chamada hidradenite supurativa, que faz surgirem cistos dolorosos pelo meu corpo. E ela é agravada pelo excesso de gordura. Por isso eu decidi emagrecer, para melhorar minha qualidade de vida, que tem estado ruim nos últimos cinco anos. Tenho vivido muito mal, com muita dor, sabe? Às vezes sinto que não existe uma posição confortável para eu existir no mundo.

E com tanto incômodo não é difícil manter esse seu bom humor contagiante? Sou uma pessoa muito otimista e sempre tento ver o lado bom em tudo. Uma gorda de boa, né. De vez em quando me pergunto: por que comigo? Mas aí penso no quanto eu sou privilegiada. Tenho plano de saúde e quem cuide de mim, posso ir ao hospital de carro. Isso me motiva porque nem todo mundo tem essa sorte. Não quero reclamar de barriga cheia. Minha mãe sofre da mesma doença que eu e, na época dela, tinha que ir para o hospital de ônibus.

Vai lá: Gorda de Boa e Canal das Bee.

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