por Jean Wyllys

Jean Wyllis dialoga sobre o espetáculo Gisberta e a necessidade da representatividade política para a comunidade LGBT

Em seu programa de entrevistas no Canal Brasil (onde também tenho um programa – Cinema em outras cores – cuja terceira temporada estreia em breve), a Laerte me perguntou se nós, LGBTs, precisamos de “protagonismo, de quem é do lugar de fala, votar em LBTs” ou precisamos de “gente amiga”. Eu lhe respondi que precisamos de ambas as coisas: de mais representantes oriundos da comunidade LGBT que sejam comprometidos com a luta por nossa dignidade humana e direitos (pois, de nada nos servem pessoas da comunidade LGBT que se colocam publicamente contra nossas reivindicações históricas e/ou se elegem para desqualificar nossa agenda política e fortalecer as hostes de nossos adversários), mas também de gente amiga; e ressaltei que, enquanto não conseguimos ampliar o número de representantes saídos de nossa comunidade, não podemos nos dar ao luxo de desqualificar ou de atacar a gente amiga (os heterossexuais que estão do lado de LGBTs; os gays que estão ao lado das lésbicas feministas e/ou das travestis e transexuais; as lésbicas feministas que estão ao lado das mulheres transexuais; os homens transexuais que estão ao lado dos gays; e os bissexuais que estão ao nosso lado; isso sem falar dos homens solidários às mulheres feministas; das feministas brancas ou quase-brancas que se põem ao lado das mulheres pretas ou quase-pretas; ou das pessoas de classe média que se importam com os problemas de quem mora nas quebradas ou periferias). É de fundamental importância ampliar o protagonismo dos subalternos e lhes deixar falar por si mesmos, mas não é nada inteligente (ao contrário: é uma estupidez que representa um tiro no pé) atacar ou desqualificar publicamente a gente amiga, principalmente quando somos ignorantes do que ele pode fazer por nós.

O ator Luís Lobianco – que se tornou conhecido do grande público por conta de sua atuação no Porta dos Fundos – é gente amiga. Ele e sua equipe de amigos decidiram fazer uma peça sobre Gisberta, a artista transexual brasileira que, após uma vida de glamour e felicidade, entrou em decadência em função do abuso de drogas ilícitas que a levou a se tornar uma pária sem-teto e infectada pelo HIV, acabou torturada e assassinada com requintes de crueldade por adolescentes de uma casa que abrigava, em condições subumanas e sob violências e abusos sexuais, órfãos, adolescentes em situação de rua e adolescentes infratores, na Cidade do Porto, em Portugal. O episódio chocou a Europa e serviu de inspiração ao compositor português Pedro Abrunhosa na emocionante Balada de Gisberta, gravada por Maria Bethânia no registro do show Amor, Festa e Devoção..

Gisberta - a peça concebida por Renato Carrera, Rafael Souza Ribeiro e principalmente por Luís Lobianco, que ocupa o palco ao lado de três músicos – é um libelo contra a transfobia, ao contar, por meio de vários personagens (da irmã dona de casa ao frequentador do bar gay onde Gisberta se apresentava na Cidade do Porto, passando pelo médico que a examinou ainda criança e pela travesti sexagenária que testemunhou sua decadência; personagens aos quais ele dá vida apenas por meio de nuances na interpretação que só os atores mais talentosos - os grandes atores! - são capazes de expressar, indo do humor ao drama e vice-versa com maestria e sutileza). Luís Lobianco, na verdade, encarna a Gisberta que existe na memória e no discurso de cada personagem que conviveu com a artista transexual brasileira, inclusive a que emerge da emocionante interpretação de Bathânia para a música de Abrunhosa; o ator, então, encarna interpretações de Gisberta, ou seja, o imaginário de cada testemunho sobre ela - um exercício que só um ator com muita inteligência, conhecimento da causa em questão e talento é capaz. Logo, não faz qualquer sentido – para não dizer que é burrice mesmo – atacá-lo por ele ser um “ator cisgênero interpretando uma transexual”.

Luís Lobianco é, portanto, mais que “gente amiga”, como disse minha amiga transexual Laerte, ao fazer um teatro que vai além dos propósitos de emocionar e entreter: um teatro político no melhor sentido dessa palavra; ele é alguém que sabe do que está falando, não por ser pessoa trans (ele é cisgênero), mas por fazer parte da comunidade sexo-diversa e, por isso, também ter sentido, em sua própria história, as dores da homofobia, que, antes mesmo da transfobia e de esta palavra ter se afirmado no vocabulário dos ativistas LGBTs, era e continua sendo a maior vigilante das fronteiras de gênero em vigor na sociedade da dominação masculina. Portanto, eu recomendo Gisberta a todos os que desejam conhecer melhor a história dessa artistas transexual e emocionar-se com uma peça em que texto, direção, cenografia e interpretação não apenas são de excelência como estão à serviço de um objetivo nobre: fazer justiça à memória das milhares de gisbertas cujos gritos não foram ouvidos nas trevas, conheceram o fundo muito cedo e que estão definitivamente longe do amor.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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