por Sandro Testinha

Sandro Testinha conta sobre o encontro improvável e transformador que teve com Fernando Fernandes

Será que nós, da ONG Social Skate, que nascemos, criamos e trabalhamos para melhorar e transformar nossa comunidade em um lugar melhor para viver e conviver, ficaríamos amigos de um jovem e promissor modelo nascido em São Paulo? De uma região considerada até nobre, prestes a participar da semana de moda na Itália, envolvido em discussões de trânsito e participante de um reality show de TV?

Não somos hipócritas, mas salvo uma ou outra exceção, poucas chances existiriam de termos em nosso grupo de amigos pessoas com esse perfil. A não ser que essa pessoa, depois de um acidente de trânsito e tendo perdido os movimentos da cintura para baixo, praticamente recomeçasse sua vida, nos mostrando ser um exemplo de superação e persistência.

Vamos supor que, além disso, esse ser humano ainda criasse um instituto para atender a outras pessoas com deficiência, com o objetivo de dar oportunidades para que elas também consigam superar o trauma da perda de mobilidade e recuperar a autoestima e o prazer de viver.

Essa pessoa existe! E cruzou o nosso caminho. Fernando Fernandes, 35 anos, fez tudo o que mencionamos acima e nos deu um grande exemplo quando, depois do acidente que o deixou com sequelas ainda hoje irreversíveis, se tornou quatro vezes campeão mundial de paracanoagem e, em 2013, fundou o instituto Fernando Fernandes Life, que faz um belo trabalho.

Conheci o Fernando como a maior parte dos brasileiros, no programa de TV do qual fez parte. Confesso, não curti o comportamento explosivo dele em rede nacional. Depois do programa, li algo sobre ele ter se envolvido em um acidente de carro. Em seguida, soube que ele havia perdido os movimentos das pernas. Nessa hora, meu lado humano falou mais alto e fiquei triste, pois não desejo isso nem para as pessoas que gostamos nem para aquelas com quem não temos afinidade. Entre todas essas notícias, soube que o Fernando estava treinando paracanoagem e se dando bem no esporte, o que me fazia esboçar um leve sorriso diferente das outras vezes que ouvi ou vi o nome dele em algum lugar, bom sinal.

Em 2014, finalmente o conheci pessoalmente em uma entrega de prêmios de um canal de TV no Rio de Janeiro. Fomos apresentados por ninguém menos do que Mr. Bob Burquist. Passei a mudar o conceito, ou pré-conceito, que tinha de Fernando, baseado na época pré-acidente que o colocou na cadeira de rodas. Já em 2016, reencontrei o Fernando na homenagem do Prêmio Trip Transformadores em São Paulo, homenagem que havia recebido em 2013 e que passei a acompanhar pessoalmente ano após ano, por se tratar de uma noite em que nós, “heróis anônimos” do Brasil, vamos a uma espécie de “posto de combustível” abastecer nossas vontades de fazer desse mundo um lugar melhor de viver e conviver, seja com o próximo, seja com o próprio lugar que habitamos. Como sempre, foi uma noite excelente.

Agora estamos em 2017 e finalmente conseguimos trazer um evento de lançamento do nosso projeto, Manobra do Bem, para nossa comunidade. Com recursos próprios, vindos de lei de incentivo e de empresas parceiras, está tudo pronto para o grande lançamento da nova fase do projeto. Pra isso, pensamos em trazer algum convidado que admiramos e que fosse um exemplo para nosso trabalho. Timidamente, e sabendo que devido a agendas poderíamos receber um “infelizmente não poderei ir”, fiz contato com o Fernando, que me respondeu com uma foto de sua agenda, já com a anotação reservando a data para nós.

No grande dia, a comunidade estava toda reunida em nossas humildes instalações no bairro de Calmon Viana, em Poá, São Paulo. Fernando chegou e foi recebido carinhosamente pelos presentes no evento, teve aquela baita paciência de tirar fotos com todos e assistiu à cerimônia e às apresentações programadas para o dia festivo da ONG Social Skate.

Na hora de deixar sua mensagem, Fernando Fernandes encheu nossos olhos de lágrimas ao dizer:

“Cheguei aqui hoje achando que iria acrescentar algo com minha presença, e na real eu que estou recebendo. Saio daqui fortalecido com toda a energia dessa criançada. E um projeto funciona assim, com a colaboração e a partição de todos.”

Finalizando, mas voltando ao início do texto, se hoje alguém com o “comportamento” que o Fernando tinha antes do acidente tenta se se aproximar de nós, com certeza ouvimos primeiro o que a pessoa tem a dizer, sem qualquer pré-julgamento.

Sandro Testinha e Leila Vieira escreveram o texto a quatro mãos, assim como realizam tudo na ONG Social Skate, em Poá, São Paulo

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