por Nathalia Zaccaro

Djamila Ribeiro, David Hertz, Abdalaziz Moura e Ana Claudia Arantes foram os homenageados de 2017 que participaram da reflexão

Vozes de refugiados da Síria, Haiti, Angola e Congo abriram a noite do primeiro evento do Trip Transformadores de 2017, no dia 14 de agosto, no auditório do MAM, no Parque do Ibirapuera. O coral Somos Iguais cantou para uma plateia que se preparava para refletir sobre a questão que guiou todas as conversas da noite: Qual Brasil queremos ser? “Um país sem tantas diferenças, em que as pessoas ajudem umas as outras”, respondeu a congolesa Isabel Antonio, uma das vozes do coral e que vive no Brasil há dois anos.  

A filósofa Djamila Ribeiro, uma das homenageadas do prêmio deste ano, conversou com Marcos Nisti, vice-presidente do Instituo Alana, com mediação do cineasta Tadeu Jungle, sobre as estratégias de transformação defendidas pelo movimento negro. “É importante ocuparmos os espaços na mídia, tencionarmos os meios de comunicação para influenciar os conteúdos. Vocês não imaginam o que foram quatro gerações de paquitas loiras na vida de crianças negras”, ela disse.

Segundo Djamila, o despertar da consciência para as desigualdades raciais brasileiras precisa estar em todos os lugares. “É importante nos questionarmos: o quanto a gente alimenta o poder que dizemos querer combater?”, alertou. Para ela, uma das principais conquistas do ativismo negro aconteceu em 2003, com a aprovação da lei que garantiu a obrigatoriedade do estudo da história afro-brasileira nas escolas. “A mudança começa daí, quando crianças reconhecem suas identidades e param de reproduzir um discurso do qual são vítimas.” 

Ainda sobre diversidade dentro de ambientes de ensino, Nisti trouxe sua experiência pessoal como pai de uma menina com síndrome de down para reforçar a importância da convivência de pessoas com biografias distintas. “Uma criança com síndrome de down em uma sala de aula enriquece todos os alunos e, pasmem, melhora o desempenho da classe em matemática, história, geografia”, contou. O universo infantil é objeto de estudo de Nisti com o Instituto Alana desde seu início, e esse interesse já produziu filmes relevantes como Muito além do peso, O começo da vida e Criança, a alma do negócio. “Queremos furar a bolha e fazer essas reflexões chegarem a legisladores e juízes, por exemplo”, disse. 

Duas outras iniciativas transformadoras foram apresentadas por seus idealizadores na segunda mesa de conversa da noite, com mediação da apresentadora Adriana Couto. Indicado ao Trip Transformadores 2017, o chef David Hertz contou como desenvolveu o Gastromotiva, projeto que capacita jovens da periferia para trabalharem com alimentos e oferece apoio a pequenos empreendedores da área. “Comida é um elo, cria pontes e aproxima as pessoas. Estar aberto para isso mudou minha vida”, disse. “A transformação está em todos nós, a percepção sobre desperdício de comida e a consciência de consumo responsável são ações poderosas”.

Fundadora do Bliive e homenageada do prêmio Gol Nos Tempos, Lorrana Scarpione percebeu que apesar de todas as desigualdes que nos separam, o tempo nos iguala. “Ninguém tem mais de 24 horas em um dia”, disse. A partir dessa ideia, o Bliive propõe trocas não monetárias, baseadas apenas em tempo, que criam um senso de comunidade e promovem uma rica troca de experiências entre seus participantes. “Transformação é construção coletiva. Um dos objetivos do projeto é fazer com que a gente perca o medo um do outro”, contou.

Paulo Lima, publisher e editor da Trip, seguiu a reflexão em um papo com o educador indicado ao Trip Transformadores deste ano, Abdalaziz Moura, que desenvolveu um método de ensino para agricultores nordestinos que valoriza seus saberes e necessidades e traz autonomia ao morador do semiárido brasileiro. “No fim do curso, pergunto no que meus alunos acreditam. Se eles acreditam neles mesmos, se acreditam na terra. Essa pra mim é a avaliação mais importante, mais do que qualquer prova ou nota”, conta. Uma das ferramentas pedagógicas mais poderosas de Abdalaziz é a autoestima. “É fundamental que o agricultor valorize sua identidade, se veja como protagonista. Isso alavanca sua experiência de vida. É preciso plantar flores no deserto”, disse.  

Última homenageada da noite, também indicada ao prêmio, a médica especializada em geriatra e cuidados paliativos Ana Claudia Arantes trouxe uma profunda consideração sobre como a morte pode nos ajudar a transformar a vida. “A morte é nossa melhor mestre. Nos dá uma lição de compaixão, nos ensina a respeitar o lugar do outro. Não é uma questão de se colocar no lugar de alguém – pois quando fazemos isso estamos excluindo essa pessoa da cena -  mas sim de se oferecer para compreender e cuidar das feridas do outro”, disse. Ana falou sobre como a conexão entre as pessoas é a força mais transformadora que conhecemos. “E não existe conexão sem presença, não existe presença sem respeito – temos que desenvolver nossa habilidade de ouvir”, disse.

Nesta primeira noite de uma série de eventos que antecipam a premiação foram ouvidas as vozes de quatro dos onze homenageados de 2017. A lista completa inclui ainda José Roberto Nogueira, Lenine, Leo Figueiredo, Paulo Mendes da Rocha, Rafaela Silva, Nina Valentina e Ari Weinfeld.

Créditos

Imagem principal: Ale Bigliazzi

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