por Redação

Desafio: remar 300 km nos rios da Amazônia para ensinar técnicas aos locais

por André Bianchi e Luiz Felipe Moura (publicada originalmente na Trip de agosto)

O acionista de uma grande empresa de comunicação, um dos maiores big riders do surf mundial, um publicitário paulistano e um campeão de travessias oceânicas em stand-up paddle se uniram ao diretor de uma ONG de educação para um desafio: remar 300 km nos rios da Amazônia para ensinar suas técnicas aos locais. Resultado: acabaram aprendendo a viver

Carlos Burle é um laureado surfista de ondas grandes. Alessandro Matero, ou Amendoim, é referência brasileira na canoagem e no stand-up paddle. Geraldo da Rocha Azevedo é sócio de uma agência de comunicação e de uma empresa de marketing esportivo, esta em parceria com o publicitário André Bianchi, um dos autores deste texto. O outro autor, Luiz Felipe Moura, é diretor da AMABrasil, ONG que trabalha para que habitantes da floresta tenham acesso à educação e criem economias a partir de seu patrimônio ambiental. Cinco amigos unidos por uma paixão: o stand-up paddle. E com um objetivo comum: remar onde ninguém havia remado. O destino escolhido foi a Amazônia, onde a AMABrasil poderia ajudar na logística, já que mantém atividades na região. “Além disso, queríamos travar contato com comunidades que moram isoladas, sem acesso a TV, internet, nada. Fomos atrás de uma experiência de vida”, complementa Burle.

A expedição, chamada de Soul Fighters, começou em Alter do Chão, apelidado de “o Caribe brasileiro”, graças às suas águas cristalinas. Num dia de maré e lua cheias, os cinco zarparam a bordo do barco Cuicuera, acompanhados de três jovens estudantes locais, encarregados de fazer a cobertura da expedição para o Faceduc (primeira rede social de educação do Brasil, que leva tablets, conteúdo digital, capacitação e empreendedorismo para dentro da floresta) e pelo intrépido fotógrafo e cinegrafista especializado em esportes, Anselmo Venansi. A primeira parada foi 12 horas depois, em Arapiuns, onde o guia Nan se juntou à tripulação. Com o sinuoso rio Maró na palma da mão, ele seria essencial na navegação e no approach com as comunidades locais.

Ao chegarem na primeira delas, uma surpresa: todos ali eram remadores. Sempre foram. É de canoa que eles fazem grande parte de seus deslocamentos. “As crianças pegavam as nossas pranchas e sem nem pensar já estavam remando pra longe. Eles já nascem sabendo, é inacreditável”, lembra Geraldo. “Descobrimos que nós, moradores de uma megalópole, e eles, habitantes de uma civilização que fica a dois dias de barco da cidade mais próxima, somos unidos pela canoagem. O esporte, realmente, junta todo mundo”, acrescenta Burle. “Poderiam sair grandes atletas de lá, se houvesse informação e equipamentos. Instrução eles nem precisam, pois já dominam o SUP, sabem a postura certa da remada.

Para Geraldo, que leva a tradicional rotina de um empresário em São Paulo, foi a primeira vez que ele conseguiu ficar cinco dias completamente desconectado. O business man, que sempre pegou onda e remou nas horas vagas, fez sucesso com a criançada, quase toda de linhagem indígena. Motivo: foi o primeiro homem careca que elas viram na vida. “Me surpreendeu ver crianças tão inteligentes, saudáveis, com os dentes perfeitos. Deve ter a ver com a dieta rica em proteínas, já que só comem peixe que eles mesmo caçam”, acredita.

Todos tinham a sensação de que o tempo corria diferente. “O tempo não é problema para eles como é para nós. Nós vivemos nas grandes cidades, rodeados de problemas que nós mesmos inventamos. Eles vivem no tempo da floresta”, analisa Burle. Depois de ver tantas famílias vivendo sem carro, internet ou até mesmo eletricidade, Amendoim refletiu: 
“Eles não têm nada. Mas têm tudo. Se divertem com o que têm ali”. Simples, as casas que o quinteto visitou tinham algo em comum: as cozinhas imaculadas de tão limpas, mesmo que, às vezes, o chão fosse de terra.

"O tempo não é problema para eles como é para nós. Eles vivem no tempo da floresta"

O maior vilão da saúde por lá não são as doenças cardíacas, o câncer ou as síndromes mentais que assombram as metrópoles (ninguém nunca tinha ouvido falar de estresse ou depressão). O medo é da serpente. Para se ter uma ideia, são quase 400 entradas na rede pública de saúde de Santarém por ano, decorrentes de picadas de cobras.

COBERTOR DE ESTRELAS

Eram 8, 9 horas de remada por dia. Ao todo, foram 300 quilômetros percorridos dentro da floresta alagada, conhecida como igapó, remando ora rente às copas das árvores (o nível da água chegou a 4 metros acima do nível do mar), ora no meio de pequenos riachos, que pareciam desenhados à mão e decorados com orquídeas, bromélias e vitórias-régias. Botos-cor-de-rosa davam o ar da graça vez ou outra. Quando a noite subia, um cobertor de estrelas se instalava no céu. Rompendo o silêncio, apenas a sinfonia natural da floresta. “Era tão agradável remar que você não sentia sede, cansaço”, rememora Burle, que acabou sofrendo uma desidratação no último dia, por conta do calor excessivo. “Não havia nem mosquito, como é de se esperar numa selva.”

Na volta para Alter do Chão, os desbravadores foram recebidos pelos prefeitos de Santarém e Belterra. A solenidade foi para comemorar a empreitada e também a inclusão de uma escola indígena no Faceduc. Agora com tablets, livros digitais e câmeras nas mãos, os alunos poderão retratar e compartilhar seu particular contexto de vida, que, apesar de distante e distinto, não é menos brasileiro que qualquer outro. “É só levando informação que conseguimos evitar, por exemplo, que essas comunidades sejam exploradas por madeireiros”, opina Geraldo.

Assim terminava a experiência, deixando em todos a pergunta: qual o destino dessas civilizações? E como podemos fazer com que a evolução do mundo tal qual a conhecemos aconteça de forma menos agressiva e mais consciente? A experiência deixou a visão de um tempo não linear. Quanto mais avançamos para o futuro, mais olhamos para o passado. “Fomos para ensinar”, diz Amendoim. “Mas acabamos aprendendo.”

Burle e a maior onda da história

Poucas semanas após regressar do tour amazônico, que por sinal o deixou derrubado com uma baita desidratação, o campeão mundial em ondas gigantes Carlos Burle voou até o litoral norte do Chile, onde supõe-se que ele tenha surfado a maior onda de sua carreira – e

“Fomos para ensinar, mas acabamos aprendendo”
Alessandro Matero

também da história. Fala-se em um monstro aquático de mais ou menos 80 pés (24,3 metros), o que suplantaria o recorde mundial atual, de 78 pés (23,7 metros), do havaiano Garett McNamara. O feito ocorreu no dia 3 de julho.Não há registros em vídeo da proeza, apenas fotos. O julgamento cabe ao XXL, o Oscar das ondas grandes, que só deverá soltar seu veredicto em abril ou maio do ano que vem. Burle, no entanto, está otimista: “Foi uma das maiores que já surfei, com certeza. Não deve em nada a Mavericks, Jaws e à própria onda do Garret”. A conferir.

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