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Estilista critica a sociedade de consumo e dispara: “A moda brasileira pode muito mais”

Ronaldo Fraga não é do tipo acomodado. A fala mansa do mineiro de 45 anos poderia confundir um desavisado, mas, assim que começa a explicar por que se afastou do São Paulo Fashion Week, percebe-se que o jeito calmo só serve para esconder um discurso tão afiado quanto as linhas da alfaiataria que tornam suas peças mais democráticas às formas de mulheres e homens comuns.

O exímio desenhista, que sabe dizer a composição de um tecido pelo cheiro que exala ao ser cortado, foi responsável por alguns dos desfiles mais emocionantes da Bienal, todos eles inspirados em figuras importantes – e às vezes pouco difundidas – da história brasileira, como a estilista e ativista política Zuzu Angel, Mário de Andrade e Athos Bulcão, para citar algumas. Mesmo assim, decidiu há dois meses que era hora de parar e repensar sua trajetória.

Enquanto o mundinho (anônimo) da moda tentou enquadrá-lo, via Twitter, em categorias pequenas, como a de estilista conceitual falido ou de regional engraçadinho sem patrocinador, Ronaldo se preocupa em conseguir tempo para compilar seus desenhos, que pretende editar num livro que vai contar a história de suas coleções, e ilustrar outras duas publicações infantis. Além dos livros, um convite irrecusável do museu londrino Victoria and Albert – para falar justamente do regionalismo rechaçado pelos colegas de profissão – também terá que caber na planilha semestral, assim como a Bienal de Design, a ser apresentada ainda em 2012, em sua Belo Horizonte natal.

Coração de galinha

Foi lá que Ronaldo cresceu, órfão de pai e de mãe desde os 11 anos. Ele e seus quatro irmãos (Roney, Robson, Rosilene, mais velhos, e Rodrigo, o caçula, que também é estilista) acabaram criados com a ajuda distante de familiares e vizinhos, o que acredita ter sido essencial para sua formação. “Acho esse rombo social que a gente vive hoje, em que o filho da empregada não encontra mais o filho do gerente do banco, muito nocivo para uma sociedade”, alfineta. Apesar da infância difícil, Ronaldo aprendeu cedo que a educação seria seu passe para o mundo. Se inscreveu em todos os cursos de desenho que pôde e acabou chegando à moda, primeiro no Senac e depois na UFMG, antes de ganhar um curso na Parsons School of Design, em Nova York. Mais quatro anos em Londres e Ronaldo estava pronto para voltar ao Brasil, aos 28 anos, e estrear nas passarelas do Phytoervas Fashion, com a coleção autobiográfica “Eu amo coração de galinha”. O evento se tornaria Morumbi Fashion e, por último, São Paulo Fashion Week, no qual Ronaldo estreou em 2001 – mesmo ano em que casou com o amor de sua vida, Ivana, e teve seu primeiro filho, Ludovico. Graciliano nasceria dois anos depois.

Decidido a passar mais tempo com os filhos, trocou a loucura do desfile de janeiro do SPFW pela tranquilidade da fazenda, de férias ao lado da família. Agora, além dos projetos que toca em Minas Gerais, Ronaldo administra sua confecção (que vai muito bem, obrigado), a loja de São Paulo e faz viagens frequentes a Brasília, onde ocupa a cadeira de representante do Colegiado de Moda no Ministério da Cultura, e por áreas esquecidas do país com o projeto do governo Talentos do Brasil, que visa perpetuar técnicas artesanais locais quase extintas. Esse trabalho, aliás, rendeu ao criador o Prêmio Trip Transformadores 2011. Foi durante a cerimônia de entrega, em outubro passado, que Ronaldo decidiu dar outro rumo à vida. A seguir, ele fala desse recomeço, da infância difícil, de seu conceito de luxo e por que faz questão de escancarar o sorriso que traz no rosto nos últimos tempos.

Tpm. Por que você decidiu não participar do desfile de janeiro do SPFW?

Ronaldo Fraga. Eu não decidi parar de desfilar. Parei esta estação porque decidi fazer outras coisas. De duas estações para cá comecei a exercitar outras frentes e percebi que moda não é só passarela! Outros espaços, outros vetores estão me chamando. Fiz uma exposição, fiz direção de arte, fiquei três dias pirado desenhando à mão, com giz, o cenário do clipe Te amo, da Vanessa da Mata, dirigido pelo Wagner Moura, e aí pensava no desfile com certo pesar. Acho fascinante essa coisa do desfile, mas quero passar a fazer um por ano. Quero férias com meus filhos em janeiro, quero ficar mais tempo na minha fazenda.

Você esperava essa repercussão toda em cima da sua decisão? De jeito nenhum. Coleção nenhuma repercutiu tanto quanto eu decidir parar [risos]! Fiquei nos trending topics mundiais do Twitter. Isso só aconteceu duas vezes: quando fui ao Roda viva, com a Marília Gabriela, e agora com essa história do SPFW.

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Foto: Flavio Moraes
Nilson Garrido e Cora Batista
Não estou deixando de desfilar porque as coisas não andam bem. É porque andam bem demais! Ronaldo Fraga, Estilista
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