Zabelê: do pop ao samba

por Camila Eiroa

Cantora filha de Novos Baianos acaba de lançar seu primeiro trabalho solo, que não lembra em nada o som de seu antigo grupo, o SNZ

Ela foi o Z do grupo pop de irmãs dos anos 2000, o SNZ. Também é filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, eternos Novos Baianos. Ela é Zabelê, e quinze anos depois dos hits americanizados com levada pop, a cantora acaba de lançar seu primeiro disco solo, resgatando sons que lembram a época de seus pais. 

Em uma entrevista exclusiva por telefone, ela disse estar vivendo esse momento, que é só seu, de maneira intensa. Com a alegria estampada na voz, a carioca, hoje com 40 anos, demonstra viver sua melhor fase. Zabelê contou que ficou muito tempo afastada da música para descobrir a si mesma "sem interferências". Foi morar fora do Brasil para estudar arte e voltou preparada para dar o primeiro passo de uma carreira independente da família.

Nesse meio tempo, se encontrou com Domenico Lancellotti (músico muito influenciado pelo samba), ouviu composições de diversos artistas da nova leva da MPB e viu que ali sua voz e raizes se encaixavam. Lancellotti, inclusive foi quem produziu seu disco. "Para mim esse trabalho é realmente um marco, um momento da minha vida muito gostoso e que simboliza um recomeço", conta Zabelê. 

A banda que a acompanha no disco homônimo é formada por Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Alberto Continentino e Kassin, que têm vasta experiência com música brasileira. As composições são de Luisa Maita, André Carvalho — filho de Dadi (Novos Baianos) — do próprio Domenico e também de Zabelê. E ainda tem um encontro com Moreno Veloso, filho de Caetano, na faixa Cara de cão.

No papo a seguir, ela fala sobre o novo projeto, a influência da família, religião e drogas.

 

Processo criativo

Você continuou fazendo música desde o término do SNZ? Continuei pensando em música. Fiz um laboratório muito natural, sem fazer planos sobre o que iria fazer futuramente. Foi bom pra oxigenar as ideias, renovar e me conhecer melhor.

Como você concebeu o disco novo? Na realidade, quando comecei a fazer essa pesquisa, convidei o Domenico Lancellotti para participar desse laboratório musical. Ouvimos muita coisa dessa nova geração da MPB e aí fomos para o estúdio. Tem músicas de uma galera muito interessante, e tem também uma composição minha com o Domenico, Céu. As bases foram gravadas juntas, sabe? Fiz a voz em fita cassete, um método antigo que está sendo bastante explorado de novo.

Ele bebe muito na fonte do samba, característico dos Novos Baianos. Esse tipo de música você sempre ouviu? Porque o SNZ era pop, mas a sua voz também casa com esse ritmo. Exatamente! A música tem que formar um casamento com a voz do cantor. Quando escutei as composições, queria sentir todas as melodias e me apaixonar por elas. Todo o trabalho musicalmente falando foi pensado no sentido do que mais combinava com a minha voz. Da maneira mais natural e orgânica possível. É a minha identidade, queria que as pessoas me conhecessem. Esses ritmos estiveram muito presentes durante essa pausa que fiz do SNZ até aqui, também pela minha formação musical de família.

Sua irmã, Sarah Sheeva, disse em uma entrevista que nos últimos shows do grupo não se identificava mais com o som que fazia ali. No SNZ você sentia essa identidade? Sempre precisei estar totalmente conectada com o que fazia. Se faço alguma coisa, eu preciso ser aquilo, entende? Não conseguiria cantar se não fizesse sentido. Durante o tempo do SNZ eu tinha uma verdade ali. Naquele momento, cada uma de nós colocava a alma no projeto e aquilo me preenchia. Isso que era legal no grupo, a postura de enxergar o lado de cada uma.

"Se faço alguma coisa, eu preciso ser aquilo, entende? Não conseguiria cantar se não fizesse sentido"

 

Família, drogas e religião

Como é sua relação com as suas irmãs? Somos muito apaixonadas uma pela outra. A gente teve uma criação de muito carinho, mamãe passou isso de uma maneira muito forte durante a nossa criação. A gente se conecta o tempo todo, nos respeitamos muito. Isso é o principal, a gente precisa respeitar as escolhas de todo mundo. Somos diferentes, mas ainda assim somos irmãs.

Você foi a única que não se tornou evangélica. Essa escolha sempre foi respeitada? Foi uma escolha muito pessoal. Eu respeito, tenho vários amigos evangélicos. Tenho amigos de todas as religiões, aliás. Mas nunca me impressionei por nenhuma delas. Tenho influência por todos os lados e nunca senti falta de escolher um único deles. Se a pessoa se realiza naquilo, ótimo. Mas não me identifico. E poxa, somos cinco irmãos… Cada um tem um mundo diferente dentro de si, fomos ensinados a ser assim desde sempre. Nos respeitamos sempre.

"Eles tinham um outro propósito com as drogas: a liberdade"

E drogas? Sua mãe me contou que sempre foi muito aberta com vocês sobre isso. A minha relação com drogas é zero vírgula zero, zero, zero. Minha e das minhas irmãs. A gente sempre teve uma coisa de viver a vida de uma maneira natural e plena. As pessoas sempre acharam isso esquisito e puritano, como se estivéssemos negando alguma coisa. Mas se todos sentassem na nossa cadeira, eles entenderiam que a gente veio de uma geração que meteu o pé na jaca, que passou pela ditadura militar… Eles tinham um outro propósito com as drogas: a liberdade. Era pra esquecer dos problemas e da pressão que eles viviam. A nossa geração não tem isso. Minha mãe nunca foi uma pessoa de esconder as coisas, pelo contrário. Ela sempre conversou abertamente com a gente e talvez por isso nos tornamos avessas. Essa nossa postura de negação chama a atenção porque somos filhos de Novos Baianos, de uma geração "hippie"… Todo mundo pensa que a gente deveria ser como a Amy Winehouse [risos].

"É difícil entenderem quem é a Zabelê, quem é a artista de agora que está começando uma carreira solo"

 

Herança e influências

Você canta uma música com o Moreno Veloso, filho do Caetano. Como foi reunir a segunda geração dessa leva tropicalista em um mesmo trabalho? Foi muito legal! O Moreno mixou o disco todo e durante as gravações ele cantarolava músicas dele e do pai dele. Eu sempre ouvia e pensava que ficaria legal juntar a minha voz com a dele. Achei que ia super combinar. Então, eu o convidei para cantar Cara de Cão comigo e foi uma alegria. Filhos de uma geração fazendo música juntos é isso: anos depois, em momentos diferentes, mas sem deixar de lado aquela bagagem musical e política que veio de herança.

Sua mãe e seu pai te influenciaram diretamente no CD? Quis que esse momento fosse realmente só meu, não queria que virasse um disco de família. Foi importante pra mim que eles não participassem agora. Vão ter outras chances de cantar com eles durante a vida inteira. Eles estão no meu DNA. Tenho total influência deles pela faculdade musical que tive dentro de casa. Eu já tenho essa mistura de papai e mamãe dentro de mim naturalmente, desde pequena. Acho que isso é transmitido no meu som sem que eu faça nenhum esforço. 

Você se incomoda com essas responsabilidades e comparações? Isso me acompanha desde sempre. Acho que filho de artista tem isso, sabe? As pessoas lembram dos pais. É como a questão das drogas que você perguntou, existem essas ideias pré-concebidas. É natural, vivo isso desde pequena. Eu preciso escolher o meu caminho sem querer apagar essa cobrança. É difícil entenderem quem é a Zabelê, quem é a artista de agora que está começando uma carreira solo. E ela é diferente da Baby, do SNZ e do Pepeu? É, porque ela é ela. As pessoas precisam aceitar o novo pra entender que cada um tem seu caminho. Nunca vou renegar as minhas raízes, mas penso dessa maneira.

E quem é a Zabelê hoje? A Zabelê é uma pessoa super criativa [risos]. É uma pessoa que está inteira e se entregando cem por cento, vivendo o agora. E justamente por isso está feliz, sendo verdadeira e mostrando sua identidade no trabalho e na vida como um todo. Eu me sinto plena e isso me faz feliz. Me faz feliz ser verdadeira comigo mesma. 

Esse disco é só o primeiro? Não tenha dúvidas! Eu comecei o ensaio da turnê e já começamos a compor mais músicas. Esse é só o começo!

Ouça as músicas por aqui.

fechar