A poeta somali inglesa cravou seu nome no mainstream com a participação em Lemonade, álbum lacrador de Beyoncé

Warsan Shire está em silêncio. Todos os posts de seuTumblr foram deletados. Se antes era uma frequentadora assídua do Twitter, neste ano se manifestou na rede apenas três vezes — a primeira, para agradecer sua inclusão no terceiro volume da coletânea Modern Poets [Poetas modernos.*Todas as traduções a partir daqui foram livres], da Penguin. Em 2016, foram quatro tweets. No último deles, uma prece: “Yosra, espero que você esteja orgulhosa de nós”. O post foi seguido pelo link de Beyoncé no Tidal. Era o lançamento de Lemonade, álbum visual em que a diva americana expôs as dores de ser mulher, de ser negra e de ter sido traída.

“Não sei quando o amor se tornou esquivo. O que sei é que ninguém que eu conheça o tem”, Beyoncé se desnuda em “Anger”, terceiro capítulo de seu álbum. Porém, as palavras não são dela, vêm do poema “The unbearable weight of staying” [O insustentável peso de ficar], de Warsan. Não é à toa que o nome da poeta é um dos primeiros nos créditos de Lemonade: Beyoncé trabalhou em cima dos poemas dela para os entreatos de seu álbum. As duas foram apresentadas por Yosra El-Essawy. Nascida no Egito, foi fotógrafa da turnê Mrs. Carter e era amiga próxima de Warsan. Faleceu em 2014, vítima de câncer.

Desde o lançamento de Lemonade, Warsan se recolheu da vida pública. Se manifestou quase nada em suas redes, recusou entrevistas. Nick Makoha, poeta que trabalhou com ela, disse que a jovem de 28 anos não está interessada em ser “a escritora do momento”. De acordo com a sua agência, a Rocking Chair Books, ela está trabalhando agora em sua primeira coletânea, Extreme Girlhood. Warsan já lançou dois chapbooks (livro curto de poemas, com não mais do que 40 páginas): Her Blue Body, em 2015, e Teaching My Mother How to Give Birth, em 2011.

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O título deste último faz referência a um provérbio somali, “Waa dhalaankii dhalmada hooyadood baray”, literalmente, “os jovens ensinam suas mães a darem à luz”. Nascida no Quênia, seus pais vieram da Somália e migraram para o Reino Unido quando ela tinha apenas 1 ano. Warsan cresceu em Londres, de onde foi a primeira jovem poeta laureada, em 2013. No mesmo ano, já havia recebido o primeiro African Poetry Prize, da Universidade Brunel, dedicado a poetas que ainda não haviam publicado uma coleção de poesia completa. Em 2016, graças a Lemonade, figurou na lista Global Thinkers, da revista Foreign Policy, a mesma que levantou o nome da brasileira Debora Diniz no exterior pelo seu trabalho com as mulheres vítimas do zika.

Mesmo que ainda lhe falte o batismo de fogo de uma coletânea completa, o que talvez cause questionamentos quanto à sua validade em certos círculos tradicionais da literatura, Warsan já é consagrada no mundo que transcende fronteiras habitado pelos millennials: a internet. A poeta publicava sua obra no Tumblr e em seu blog, de onde cada poema se alastrava como fogo pelas redes sociais.

Como tantas mulheres agora fiéis à obra de Warsan Shire, a brasileira Taís Bravo foi apresentada a ela por meio de Lemonade. Escritora, tradutora e organizadora do projeto Mulheres que Escrevem, Taís comenta sobre essa nova maneira de se fazer poesia tendo a internet como plataforma, comum entre as escritoras da geração de Warsan. “É uma crítica tanto do conteúdo quanto da forma. Essas mulheres estão propondo uma coisa nova, estão se publicando, fazendo e-books.” Taís indica este movimento como uma forma de fazer literatura que se contrapõe ao cânone, o qual nunca deu conta da diversidade. Luma de Lima, escritora e pesquisadora da Unifesp, completa: “Escritoras negras são vistas como autoras de um só tema, como uma literatura específica, uma subliteratura; enquanto homens brancos e ricos continuam sendo os ‘expoentes’”.

E há mais: em 2012, Warsan experimentou um novo formato. Em sua conta do Soundcamp, há o álbum Warsan versus Melancholy (uma luta que ela garante ter ganhado). Ao ouvi-lo, conseguimos entender o porquê de Milisuthando Bongela, jornalista sul-africana que trabalhou com Warsan, ter dito ao New York Times que a somali londrina “lê como Nina Simone soa”. A cadência da sua voz, aos poucos, faz com que o ouvinte mergulhe no que ela diz, seduzindo e convencendo. “Ela tem um ritmo muito particular”, concorda Taís. “Essas poetas que estão publicando na internet acabam conseguindo usar essas mídias para construir uma coisa nova dentro da poesia. E, pra nós, que temos mais ou menos a mesma idade, é fácil se identificar com o formato.”

No amor e na guerra
Não é à toa que os poemas do álbum tenham se espalhado pela internet, principalmente “For Women Who Are ‘Difficult’ to Love” [Para mulheres que são ‘difíceis’ de amar], em que Warsan expõe, sem meias palavras, o vedar a que as mulheres estão sujeitas em relacionamentos em que os homens se sentem ameaçados por elas. A tensão nas relações entre homens e mulheres são lugar-comum na obra de Warsan. Ela não nos deixa esquecer que o mesmo homem por quem nos apaixonamos é aquele que monopoliza o poder de nos assassinar. Não é por acaso que o último poema de Teaching My Mother How to Give Birth, “In Love and In War” [No amor e na guerra], apenas dois versos conclamam: “To my daughter I will say/ ‘when the men come, set yourself on fire’” [para a minha filha eu vou dizer/ ‘quando os homens chegarem, ateie fogo em si mesma’].

Warsan Shire é defensora da vulnerabilidade. Organiza workshops centrados na ideia de usar a poesia para curar traumas. “Eu comecei esses workshops porque queria dividir com as pessoas como eu encontrei a cura por meio da criação”, explica em entrevista para a Well and Often, concedida em 2012. “O ritual catártico que é se desapegar e usar a memória e a confissão como forma de criação. Meu momento favorito é quando nós compartilhamos o trabalho. E o reconhecimento da segurança. A confiança que foi construída em um período tão curto de tempo. A permissão para ser vulnerável.”

Africana e de origem muçulmana, outra questão que perpassa a poesia de Warsan são as raízes. A poeta nunca se sentiu em casa em Londres. Se considera somali, assim como seus pais, mas nunca esteve no país. “Para mim, os poemas são uma forma de criar uma conexão com um país para o qual eu nunca fui. Eu não sei como é o sentimento de pertencer, de estar em casa, ou qualquer coisa assim”, explicou em entrevista à BBC Africa. Mesmo tendo sido criada longe dessas tradições, elas vivem em Warsan – a poeta se metamorfoseia em todas as mulheres que vieram antes dela, em todas as mulheres que virão.

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Talvez por isso Warsan tenha conseguido criar uma obra de tamanha contundência a respeito da questão dos refugiados. Em 2009, após conhecer um grupo de exilados, ela escreveu o texto “Conversations about home (at the deportation centre)”, que mais tarde deu origem ao poema “Home”: “Ninguém deixa o lar a não ser/ que o lar seja a boca de um tubarão”. Em 2015, quando essa questão arrombou as portas europeias com tamanha força e não pôde mais ser ignorada, foi para palavras como essas que o mundo se voltou. No fim de uma apresentação da peça Hamlet, Benedict Cumberbatch declamou esses versos, os quais ele já tinha gravado em um single beneficente organizado por Caitlyn Moran. Em uma época em que o presidente dos Estados Unidos fecha as fronteiras para imigrantes do Oriente Médio, lembrar-se da dor que emerge desse poema parece mais urgente do que jamais foi.

Vai lá: Escute os poemas de Warsan Shire em Warsan versus melancholy (the seven stages of being lonely)

Créditos

Foto principal: Warsan Shire

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