por Adriana Falcão

De volta ao cinema nacional, o ator solta o verbo e alerta: 'sinto um movimento conservador muito violento vindo por aí'

Convidamos Adriana Falcão, autora de alguns dos textos de maior sucesso do teatro e da TV, para entrevistar Wagner Moura, que voltou aos cinemas brasileiros com Praia do Futuro, filme de Karim Aïnouz. O relato passa pelos últimos 15 anos e tem de tudo: carreira, casamento, filhos, sucesso, engajamento político e estreia como diretor.

E aí Wagner Moura virou lenda.

Mas eu prefiro começar a contar de antes, de quando eu comecei a acompanhar essa história.

1999. Estava em Salvador e fui assistir a uma peça de teatro chamada Abismo de rosas. Não conhecia o autor, nem o diretor, nem o texto, nem sabia nada a respeito do espetáculo, portanto cheguei desavisada. Ignorava a existência do ator Wagner Moura, assim como a de todos os outros atores baianos que iria ver naquela noite. Quando o espetáculo começou, mais uma vez me dei conta de o quanto a gente ignora o que acontece fora do eixo Rio-São Paulo, por falta de informação, de interesse, de tempo ou de oportunidade, ou seja, por ignorância mesmo. O texto era lindo, a direção era chocante, o elenco era maravilhoso. Um ator atrevido, que representava misturando naturalidade com poesia, me chamou especialmente a atenção. Eu saí dali obcecada. “Quem é esse garoto, meu Deus?” “Wagner Moura. Um excelente ator baiano”, me explicaram. Ali, todo mundo sabia. E eu completamente abismada.

Meses depois, um livro que escrevi, A máquina, ia ser adaptado e levado ao teatro por João Falcão, no Rio. Na concepção do diretor, o personagem principal seria vivido por quatro atores diferentes. O nome de Wagner apareceu na hora. O espetáculo estreou, foi um sucesso, os atores estouraram, alegria completa. 

“Sinto um movimento conservador muito violento vindo por aí, um negócio esquisito. Um monte de jovem achando legal ostentar ‘sou politicamente incorreto, sim’”

Mas agora eu vou voltar outra vez para contar lá do começo da história.

1976. Salvador, Bahia, Brasil. Nasce um menino, que é batizado de Wagner, numa família muito especial, que ia marcar o caráter do recém-nascido para o resto da sua vida. A família foi morar em Rodelas, uma cidade que foi alagada e reconstruída. O menino viveu a experiência de um dia sair de sua casa e ir morar numa outra casa igual a sua casa, numa cidade igual a sua outra cidade, que então já estava debaixo d’água. Foi marcante. Vez por outra, até hoje, ele tem desejo de contar isso, de uma forma ou de outra.

Na década de 80, seu José, pai de Wagner, foi transferido para outras cidades do Brasil, e a família morou em diversos lugares. Dá para perceber, pelas ideias de Wagner, a riqueza de ter conhecido diferentes realidades brasileiras, assim como é evidente a importância do caráter de seu José na sua formação. Ele e o pai tiveram uma relação muito forte, bonita e importante enquanto seu José viveu. E, se hoje Wagner Moura é um excelente pai de seus três meninos, que estão com 7, 3, e 1 ano de idade, provavelmente seu José tem tudo a ver com isso.

Mas deixa eu voltar para trás na história de novo.

Quando a família voltou a morar em Salvador, Wagner se interessou por teatro. Fez parte de alguns grupos, exibiu algumas peças, mas acabou se formando em jornalismo.

Acontece que aquele negócio de ser ator não queria deixar o moço em paz, e não deixou mesmo.

Chegamos de volta a 2000.

Depois do sucesso em A máquina, Wagner se mudou para o Rio de Janeiro e virou o ator mais cobiçado por diretores de teatro, cinema e TV do Brasil e, depois, do exterior. Nesses últimos 15 anos, seu currículo é tão grande que só consultando a Wikipédia. Como não daria para falar de tudo, ou esta matéria não caberia em seu espaço na revista, lá vai um resumo. 

2001. No cinema, Abril despedaçado, de Walter Salles.

2002. Atuou em As três Marias, de Aluizio Abranches, no cinema. No teatro, em Os solitários, com direção de Felipe Hirsch.

2003. Foram quatro filmes: O caminho das nuvens, de Vicente Amorim, O homem do ano, de José Henrique Fonseca, Carandiru, de Hector Babenco, e Deus é brasileiro, de Carlos Diegues. Enquanto isso, usava e abusava do lado comediante no seriado Sexo frágil, dirigido por João Falcão e Flávia Lacerda.

2004. Participou de mais um filme, Nina, de Heitor Dhalia.

2005. Um ano diversificado. Atuou em Cidade Baixa, de Sérgio Machado, que teve roteiro de Karim Aïnouz. O que diz Molero, de Aderbal Filho, no teatro. E na novela A lua me disse, na televisão.

2006. Viveu o personagem título da série JK, de Dennis Carvalho.

2007. Outro ano cinematográfico: Tropa de elite, de José Padilha, Saneamento básico, de Jorge Furtado e Ó Paí, ó, de Monique Gardenberg.

2008. No cinema, protagonizou Romance, de Guel Arraes, e ainda fez nada mais do que Hamlet, no teatro, com direção de Aderbal Filho.

2009. Tropa de elite 2, de José Padilha.

2010. VIPs, de Toniko Melo.

2011. O homem do futuro, de Cláudio Torres.

2012. A busca, de Luciano Moura.

2013. Serra Pelada, de Heitor Dhalia, e Elysium, de Neil Blomkamp.

Seu mais recente trabalho é o novo filme de Karim Aïnouz, Praia do Futuro. A trama se passa entre Berlim e o Ceará – na praia que dá título ao filme. Wagner vive Donato, um salva-vidas que está em paz com suas escolhas, até que falha, e sua vida vira pelo avesso. Donato tem muita proximidade com o irmão mais novo, que o vê como pai, mais que isso, como herói. Ele parece feliz com sua vida e seu trabalho, até o dia em que tenta salvar um homem que está se afogando, e não consegue. O homem morre afogado. O salva-vidas entra em crise. Aparece o amigo do morto, Konrad, um alemão que está por ali a passeio. Logo após os procedimentos de praxe entre um salva-vidas e o representante da vítima, Konrad e Donato começam a viver um romance. Quando Konrad volta para Berlim, Donato vai com ele, deixando o irmão mais novo, e todo o seu passado, lá na Praia do Futuro. O tempo anda, junto com a história, e um dia o seu irmão, já crescido, chega a Berlim, inconformado com o fato de ter sido abandonado. E aí está a importância desse filme, para Wagner.

Muito ainda vai se falar por aí a respeito da ousadia das cenas de sexo entre Donato/Wagner Moura e Clemens Schick, ator que interpreta Konrad, a respeito da homossexualidade, das cenas de nudez etc. Mas Wagner parece não prestar a menor atenção a isso, e fala: “Eu sempre quis trabalhar de novo com o Karim e me comovi com o roteiro que, para mim, é uma história sobre abandono. Na primeira leitura, me perguntei, e perguntei a Karim, por que Donato abandona o irmão, e toda sua vida, para ir morar em Berlim. Até descobrir que isso não tem explicação, nem para mim, nem para o Donato. Acontece disso na vida. E eu acho isso sofisticado. Donato não sabe dizer o que o levou. Na hora que ele deixou o cara morrer, o herói quebrou, apareceu o Konrad na vida dele e Donato se tornou mais humano. E então foi indo, foi, quando viu já estava lá havia muito tempo, e essa falta de explicação é algo muito complexo nesse filme”.

2014. E aí Wagner Moura virou lenda.

Hoje, absolutamente consagrado, o que mais ele poderia querer da vida? Muito.

No campo profissional, está empolgadíssimo com seu próximo projeto: dirigir um longa-metragem sobre Carlos Marighella, roteiro que está escrevendo em parceria com Felipe Braga.

O interesse pelo tema vem de algo mais profundo.

Faz parte da personalidade de Wagner estar atento às questões políticas, econômicas e sociais. Suas posições são firmes e, de certa forma, conduzem sua carreira. Só o fato de ser baiano já sugere uma postura de Wagner em relação a qualquer tipo de preconceito. Enquanto está na moda questionar uma suposta “mesmice” ou exagero do “politicamente correto”, ele se declara politicamente correto, com orgulho. E explica por quê. “A gente tem que ter alguma referência do que é bacana. Não sou bobo para chegar ao ponto de me referir a um anão como ‘uma pessoa de estatura desavantajada’, mas brigo muito pelo respeito entre seres humanos. Até porque sinto um movimento conservador muito violento vindo por aí, um negócio esquisito. Um monte de jovem achando legal ostentar ‘sou politicamente incorreto, sim’, como se ser politicamente incorreto em si fosse revolucionário, moderno ou engraçado. E aí vira falta de civilização, de respeito, de gentileza, e daí pra falta de ética, preconceito e violência é um passo.”

“Hoje, o que eu vejo é o individualismo se espalhando e o coletivo se perdendo. Tudo mudou muito”

Sua empolgação com o projeto de Marighela vai além de se tornar um diretor e contar uma boa história. Wagner explica: “Tudo que a gente faz, com o tempo descobre que fez aquilo para entender alguma coisa. O acontecimento da ditadura militar, e a posição das pessoas que lutaram contra o regime opressor e pela liberdade, lá nas décadas de 60 e 70, foi algo que a minha geração não viveu. Portanto a gente mal faz ideia do que aquelas pessoas pensavam, de como eram aqueles conflitos. Quero fugir do maniqueísmo, mas algumas coisas, como viver na clandestinidade, não ter trabalho, o exílio, a tortura, e tudo mais, foram fato mesmo. A história vale ser registrada. Aquelas pessoas, lá atrás, que estavam contra o regime, acreditavam que pela força coletiva dava pra mudar o mundo. Uma coisa um pouco ingênua também, mas tão linda. Hoje, o que eu vejo é o individualismo se espalhando, e o coletivo se perdendo. Tudo mudou muito. E eu quero que o meu filme sobre o Marighella seja uma coisa do olhar da minha geração sobre aquela”.

Que venha Marighella!

No campo pessoal, Wagner não poderia estar mais feliz. Casado com a fotógrafa Sandra Delgado há 13 anos, vive uma vida familiar amorosa e sossegada. Wagner é completamente apaixonado por seus três meninos.

Nunca vou esquecer do dia em que recebi um e-mail cujo assunto era “Nasceu Bem”. Eu fiquei toda alegre, “o filho de Sandra e Wagner nasceu bem!”. Quando abri a mensagem, descobri que “Bem” era o nome da criança. Os outros dois se chamam Salvador e José. Mais a cara de Wagner, impossível.

*Adriana Falcão é escritora e roteirista da TV Globo e já esteve nas Páginas Vermelhas da Tpm em março de 2009.

Discutindo os venenos

Está prometida para 2015 mais uma parceria de Wagner Moura e José Padilha – a dupla principal do megassucesso Tropa de elite1 e 2. E mais uma vez a história é ligada às drogas. Narco, série da Netflix (canal na internet que já lançou hits como House of Cards, com Kevin Spacey), terá Padilha como diretor e Wagner no papel do traficante Pablo Escobar, mostrando a história do Cartel de Medellín, na Colômbia. “Nossa ideia é contar como a cocaína se tornou um grande problema para os Estados Unidos e a Europa, e como tudo começou em Medellín”, diz o diretor. Wagner já falou à Tpm e à Trip sobre a questão em abril de 2010, época do lançamento de Tropa de elite 2. Em uma declaração, defendeu a legalização para que as drogas deixem de ser um problema de segurança pública e passem a ser uma questão de saúde pública. “A legalização das drogas está ligada ao conceito de bem-estar social promovido pelo governo, porque é uma forma de você quebrar o tráfico sem tanto tiro”, disse o ator, que falou também sobre o consumo de drogas ser um fato no mundo inteiro – contra o qual parece inútil brigar. “Conheço pessoas que convivem com isso normalmente, que fumam maconha há muito tempo e estão trabalhando, felizes. E tem também as que têm problema químico com a história, e aí vira uma tragédia.”

Vai lá: http://goo.gl/1k04tC (Páginas Vermelhas da Tpm com Wagner) e http://goo.gl/eKKIVB (Páginas Negras, da Trip).

Os retratos que estão nesta reportagem e na capa desta edição são de Olaf Heine, fotógrafo alemão apaixonado pela cultura brasileira e autor de Brazil, livro com imagens de pessoas e paisagens daqui, lançado em abril. A sessão de fotos aconteceu em Berlim, onde Wagner esteve em fevereiro lançando Praia do Futuro