por Letícia González
Tpm #125

Cabelo branco, experiência, ruga, bigode chinês, história pra contar, flacidez. Hein?

Um dia ela acorda e o rosto caiu. A bunda também. O fôlego acabou, ninguém mais virou o pescoço na rua e os fios brancos tomaram conta. Na cabeça da mulher brasileira há espaço para esses e muitos outros medos quando o assunto é envelhecer. Eles moram escondidos atrás do “eu não penso muito no assunto” e são responsáveis por deadlines autoritários (precisa ter tudo antes dos 35), angústias e gastos altos com o dermatologista. E o mais surpreendente: as preocupações com o envelhecimento começam cedo. Muito cedo.

Em uma pesquisa realizada pelo Datafolha em dezembro de 2011 em São Paulo, quase metade dos entrevistados entre 16 e 25 anos confessou ter medo da velhice. Entre os maiores de 56 anos, no entanto, apenas um quarto admitiu sentir o mesmo.

Para entender por que o medo e as expectativas em relação à velhice começam tão cedo, Tpm ouviu mulheres de perfis diferentes: a cantora Céu, 32 anos, a atriz Isabel Wilker, 27, a jogadora de vôlei Jaqueline Carvalho, 28, e a chef Renata Vanzetto, 24. Elas aceitaram ver seus rostos alterados, com marcas que ainda não existem (as fotos desta reportagem foram ampliadas, dobradas para simular rugas e marcas de expressão e refotografadas). Falaram de perdas e ganhos, rugas, trabalho, família e do “fim” – a morte ainda é um tabu poderoso.

O Brasil é campeão mundial em cirurgia de pálpebras. No Botox, perdemos apenas para os Estados Unidos

Jovens, elas são o retrato da geração que investe em beleza preventiva, amparada pela oferta de produtos e pela orientação médica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os brasileiros vivem 25,4 anos a mais hoje do que em 1960. Mas, a julgar pelo boom de intervenções estéticas, é como se não tivessem se acostumado à nova realidade. O país é o número um do mundo na blefaroplastia, cirurgia que tira a pele envelhecida das pálpebras, e também no enxerto de gordura no rosto, usado para preencher rugas. Os dados, da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), mostram também que, no uso da toxina botulínica, ficamos atrás apenas dos Estados Unidos. Para a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), não há restrições para a aplicação do Botox a partir dos 30 anos – seu uso “preventivo” tenderia a ser mais eficaz do que aplicações iniciadas aos 40. 

Mesmo quem não procura fazer o impossível, parar a natureza, tenta atenuar os efeitos do tempo. Renata, nascida e criada na praia, não toma mais sol sem protetor. Por outro lado, se apoia no metabolismo acelerado para comer até quatro porções de chocolate por dia. Daqui a dez anos, ela sabe, o corpo pode não aguentar o mesmo ritmo. “Minha mãe não come carboidratos à noite há mais de 20 anos. Sinto que um dia também farei sacrifícios.” Jaqueline e Isabel usam creme antissinais desde que completaram 25 anos. Céu tenta preparar o espírito para a mudança de visual. “Aos 40, espero estar de bem com as minhas ruguinhas”, diz. O que, em especial num país como o Brasil, não é tarefa assim tão fácil.

“Torço pela sabedoria de enxergar o melhor foco para cada momento” Céu, cantora 

“A juventude aqui é apresentada como a verdade através da qual se consegue visibilidade, estima e aceitação social”, explica o psicanalista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sócrates Nolasco. O que agrava o quadro, segundo ele, é a falta de postura crítica do brasileiro. “Somos incapazes de relativizar as cobranças que recebemos da publicidade, e buscamos sempre a aceitação do grupo”, diz. “O brasileiro sozinho é malvisto e, por isso, passa maior parte do tempo dentro de algum grupo. A demora para se emancipar emocional e financeiramente da família colabora para que [as pessoas] não aprendam a ter opinião própria.” 

Limites da medicina

Talvez as coisas estejam começando a mudar. Em julho deste ano, o Conselho Federal de Medicina emitiu um parecer em que não reconhece terapias antienvelhecimento que se utilizam de hormônios. O argumento é que esses tratamentos – que usam testosterona, cortisona, melatonina – não têm benefícios comprovados e trazem riscos aos pacientes. No texto, além de causar um revés importante em um tratamento que vinha se popularizando no Brasil, o conselho foi além e lembrou: “O envelhecimento é uma fase do ciclo normal da vida, não devendo ser considerado doença que necessita intervenção medicamentosa”.

Ainda assim, os consultórios de dermatologia estão lotados de pessoas querendo parar a ação do tempo. E a especialidade cresce em ritmo acelerado. De 2010 para 2011, a procura pelo teste que confere o título de dermatologista cresceu 40%, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia. Um levantamento feito pela entidade mostra que a grande maioria de seus membros atende à demanda por juventude: 84% aplicam toxina botulínica em seus consultórios. O Botox é o tratamento mais popular para atenuar o envelhecimento cutâneo no Brasil, seguido de preenchimento com ácido hialurônico e laser. A SBD orienta os médicos a sugerir intervenções apenas depois de ouvir a queixa do paciente. Na prática, não é sempre isso o que acontece. 

A antropóloga Mirian Goldenberg sabe como é isso. Aos 40 anos, ela foi pela primeira vez à dermatologista querendo orientações sobre hidratação e proteção contra o sol. Lá, ouviu uma lista de defeitos que não enxergava em si mesma. “Ela me sugeriu preenchimento ao redor dos lábios, Botox na testa e correção nas pálpebras. Eu não via nada daquilo no meu rosto!”, lembra. Nos seis meses que se seguiram à consulta, Mirian entrou em crise – e depois a superou, sem ter feito nenhuma intervenção no rosto. 

“O botox diminui o ritmo do envelhecimento, só. A ideia nunca é ter 50 e parecer 20”, Bruna Felix Bravo, dermatologista

Outro aspecto em que teoria e prática diferem é o momento certo de parar. “[O Botox] apenas ajuda a diminuir o ritmo do envelhecimento. A ideia nunca é ter 50 parecendo 20”, afirma a dermatologista Bruna Felix Bravo, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional Rio de Janeiro. Mas, como a decisão obedece a uma vontade estética, exageros são comuns mesmo com orientação médica. “Não gostaria de ser uma dessas pessoas que lutam com força contra os anos”, afirma a cantora Céu. “Elas não ficam com cara de mais novas. Só ficam com cara de quem está lutando.”

Essas senhoras da revolução botulínica de que Céu fala são um elemento novo no cenário urbano brasileiro. Mas, se as injeções semestrais podem trazer satisfação pessoal a mulheres desgostosas de suas rugas, elas são vistas com ressalvas por quem estuda o assunto.

É o caso da antropóloga Andrea Lopes, doutora em gerontologia e coordenadora do grupo Envelhecimento, Aparência, Imagem e Significativo, da Universidade de São Paulo (USP). “Faltam imagens reais e, principalmente, diferentes umas das outras”, pontua. Em vez de diversidade, temos uma bipolarização. Até a década de 70, ser velho era sinônimo de decadência, doença, asilo. Aí, no final do século 20, surge uma imagem superpositivada, dos velhinhos que podem tudo. São duas inverdades cruéis com quem tem de envelhecer”, diz.

Essas pessoas que têm de envelhecer, no caso, são todas. Você, eu, todo mundo. Por mais difícil que pareça. Num encontro de amigas, a jogadora Jaqueline quase jogou um celular longe quando uma delas incluiu sua foto em um aplicativo que envelhece retratos. “Eu aparecia grisalha, cheia de rugas. Saí gritando ‘tira isso da minha frente!’.” Por mais que recuse essa imagem, Jaque não sabe ao certo como vai encarar a mudança no rosto. Se espelha em Luiza Brunet (leia a entrevista nas Páginas Vermelhas), mas reconhece que ela é exceção. 

“Temos duas imagens irreais: a da decadência e a dos velhinhos que podem tudo”, Andrea Lopes, antropóloga

De fato, o modelo da maturidade é algo que precisa ser reinventado. “Inclusive porque as pessoas que estão entrando nos 60 anos cresceram num mundo que exaltou a juventude. Elas não são um bom exemplo de como lidar com o tempo”, lembra Andrea. A exaltação a que se refere é a de ícones como os Beatles e Elvis Presley, de bordões como “Não confie em ninguém com mais de 30”, “O Brasil é o país do futuro” e da revolução dos costumes, movimentos em que os jovens encamparam o poder e transformaram pais e avós em imagens a não ser seguidas.

Novas velhas

Uma maneira de encarar a questão, para muitas mulheres jovens, é procurar uma nova relação com a passagem do tempo. “Penso muito no assunto”, diz Céu. “Será que vou entender a hora de parar de fazer música? Será que vou querer curtir meus netos? Torço pela sabedoria de enxergar o melhor foco para o momento”, afirma. Mesmo assim, os receios vêm junto. “Tenho medo de ficar surda, porque uso o fone in-ear e, quando o técnico erra, o som estoura dentro do ouvido. Também tenho medo de ter vícios de comportamento, de me tornar ainda mais esquecida do que sou.” Para Isabel Wilker, a aflição é profissional. “Tenho medo de chegar aos 50 e ver que não fui a boa atriz que quero ser.” 

O receio tem a ver com a fase atual da carreira. Há dois anos, ela decidiu seguir a profissão dos pais, os atores José Wilker e Mônica Torres. Está feliz com a decisão, mas se pergunta se não veio atrasada. “Bati o martelo com 25 anos, enquanto colegas estão na profissão desde os 18. Para alguns papéis, já sou velha”, conclui ela, que se formou em letras, iniciou um mestrado na área, foi modelo e apresentadora e fez cursos de interpretação em Londres. Aos 27, vê que o tempo de indefinições está chegando ao fim. “É como se você passasse a ter menos espaço de manobra”, afirma. E, ao mesmo tempo, sem poder olhar para trás e enxergar realizações importantes. “Fico nervosa”, solta, cerrando os dentes. 

“Para alguns papéis, já sou velha demais. Às vezes me sinto atrasada”, Isabel Wilker, atriz 

Sentir-se velha bem antes de sê-lo é algo que Jaque conhece bem. Por causa da carreira curta que o vôlei proporciona, a atleta precisa pensar, antes dos 30, na sua aposentadoria. “Estou mais perto do fim do que do início. Se sofresse uma contusão agora, teria que repensar o esporte”, pondera. 

A antropóloga Mirian Goldenberg aprofunda seus estudos no intervalo que existe entre a “era de ouro” dos 20 anos e a morte. E, se tudo der certo, ele pode ser grande. “Minha próxima pesquisa é sobre os aspectos positivos do envelhecimento. Os negativos existem, mas já foram muito abordados”, conta. Ela identificou que a fase dos 30 aos 50 é a mais sofrida para a mulher, nesse quesito. “Se ela tem 35 e quer ter filhos, sofre muito. Depois, aos 40, vê que passou a vida investindo no corpo e, de repente, se sente invisível. Já depois dos 50, vejo uma queda grande na frustração”, explica. Um dado inédito dessa pesquisa, no entanto, surpreende. “Quando pergunto para homens e mulheres de todas as idades quem envelhece melhor, todos respondem: ‘Os homens’. Mas hoje um grupo está discordando disso: são as mulheres de 60! Elas chegam lá e veem que estão ótimas, bem cuidadas, ativas, felizes, olham para o cara do lado e não o acham tão bem assim. Esse dado é revolucionário!” Estudando o tema há seis anos, a antropóloga criou uma espécie de manifesto pessoal contra a neura de envelhecer. “Se você vai viver até os 90 e começa a sofrer aos 20, pense bem...”

A proximidade do fim

Isabel cresceu ouvindo a mãe dizer que envelhecer era uma droga, mas que a alternativa (morrer) era bem pior. Mesmo assim, só começou a pensar no assunto depois que a ideia da morte deu uma trégua. “Quando tinha 4 anos, um amiguinho morreu num acidente de carro. A partir dali, por anos, achei que fosse morrer a qualquer hora. Estava convencida de que não ia dar tempo de envelhecer”, lembra. Só depois de muita psicanálise, iniciada na infância, ela passou a entender que tem mais tempo para viver. E precisa, agora, lidar com ele.

Na vida da chef Renata, ao contrário, a morte entrou de supetão. Ela não pensava muito na finitude até que, em abril deste ano, perdeu o namorado, o italiano Luigi Nemi, em um acidente de mergulho no litoral paulista. Renata e Luigi moravam juntos havia um mês. “Ainda não sei que conclusões estou tirando dessa história, que me arrasou. Penso muito mais na fragilidade da vida, na morte e, às vezes, penso que ele vai ser o forever young, o cara que ficará sempre igual.” Em julho, ela incluiu uma menção a ele no cardápio de sobremesas de seu restaurante, o Marakuthai, onde se lê: “Os doces são uma homenagem a Luigi Maria Ucelli Di Nemi, que gostava de fazer doces porque, ao ver as pessoas comendo, elas sorriam... A vida é curta, comece pela sobremesa!”. 

“As mulheres de 60 são as únicas a dizer: os homens não envelhecem melhor, não”, Mirian Goldenberg, antropóloga

Depois do drama, Renata entende mais ainda que a vida depende do ângulo de visão. “Eu poderia ter me afundado, mas tentei encarar de forma natural. Agora, fiquei mais alerta, com mais medo. Ao mesmo tempo, comecei a entender que isso faz parte da vida, que muitas pessoas morrem todos os dias.” É essa mesma posição que ela decidiu adotar em relação ao envelhecimento: “Não tenho como fugir. Basta aceitar”. 

40 e poucos 

Para nós, garotas roqueiras, essa é só a idade que a gente tem

POR NINA LEMOS*

Ser uma moça de 40 e poucos anos é um problema. Só que para os outros. Os outros são vocês, meninas de 20, 30. E vocês, rapazes de qualquer idade do nosso Brasil. Repito. O problema é de vocês, que vez ou outra nos falam: “Nossa, mas você não parece ter 40 anos”, com certo ar de choque. Deve ser um elogio, certo? Outra frase que ouvimos muito: “Nossa, como você pode ter 40 anos?”. É simples, os anos vão passando, você não morre e um dia tem 40 anos. O que não é nada ruim. Inclusive porque quem tem 40 anos ainda é meio jovem. E vocês, meninas de 20, 30, ainda não perceberam isso porque são loucas!

Outro dia me vi em uma roda de garotas de 30 e elas só falavam sobre bigode chinês. “Tenho medo de ter bigode chinês, será que eu tenho bigode chinês?” Eu e minhas amigas de 40 nunca falamos sobre isso. Sério. Nunca mesmo. A gente fala sobre... sei lá, o disco novo que nosso amigo lançou, política, roupa.

Repito. Não é um problema para a gente. É só a idade que a gente tem, ponto. Se é um problema para os homens? Ah, claro. Quando você faz 40 anos acontece um fenômeno estranho. Alguns caras da sua idade (ou mais velhos) passam a te achar velha. Escuta, baby, você tem a mesma idade que eu.

Uma vez eu e uma amiga contamos isso a um policial italiano que conhecemos em um bar gótico em Berlim (coisas surpreendentes continuam acontecendo depois que você fez 40 anos, oh, yeah!). Resposta do sujeito: “Mas isso é absurdo, como posso achar que vocês são velhas se tenho a mesma idade que vocês?”. Minha amiga gritava: “Está vendo? Ele é italiano, ele é policial, e ele entende. Já os nossos amigos do Brasil, gênios, artistas, não entendem”.

Não são todos os homens que são assim, não. Mas muitos. Muitos do Brasil. Porque o Brasil é um país muito, muito, muito machista. Em outros lugares é diferente, sim.

E o que nós, garotas roqueiras de 40 e poucos anos, fazemos quando um cara da nossa idade nos acha velha e só namora garotas de 20 (nada contra vocês, ei!)? Nós rimos. Rimos muito. Rimos. E, se vocês são nossos amigos, rimos na cara. Se não, fazemos piada pelas costas.

Melhor cantada que já recebi na vida, de um médico alemão: “Não acredito que você tem 39 anos, mas, se você tiver, vou te achar mais interessante ainda”. Aprendam com eles, compatriotas da minha geração. E saibam que as mães de vocês erraram. Quer dizer, não aprendam. Porque uma coisa que a gente já sabe aos 40 anos é que não vale a pena perder tempo educando homem (que não for nosso filho). Ou vocês se ligam. Ou não. Problema de vocês. Com a gente está tudo bem. Juro.

*Nina Lemos, 41 anos, é repórter especial da Tpm, Carioca exilada em São Paulo, autora de cinco livros e ainda acredita que vai mudar o mundo.

 
 

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