por Bruna Sanches

Como o vitiligo me fez quem sou hoje: uma mulher diferente, e melhor, do que eu imaginava anos atrás

É sábado de manhã e estou a duas semanas de completar 30 anos. No apartamento alto do edifício Copan, no centro de São Paulo, o sol entra por janelas enormes e ilumina todo o quarto de paredes brancas enquanto encaro as lentes do fotógrafo. Não tenho medo nem roupa. Que mulher é essa?, me pego pensando.

A resposta depende. Na minha cabeça de menina, a mulher de 30 anos é casada, tem dois filhos e nenhuma mancha na pele. Já na mente de jovem, essa trintona é chefe, venceu na vida -- com marido e os dois filhos incluídos -- e reverteu qualquer problema. Mas hoje, a pessoa que vira o calendário é outra, não conhece esses futuros do passado. Está separada e feliz. Tem um cargo de chefia, sim, mas nenhum filho à vista. E aprendeu a viver com vitiligo.

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Encaro as lentes de Pablo, o fotógrafo do Copan, de um jeito bem diferente que aos 18 anos, quando vi no espelho a primeira mancha. Na época, a visão me assustou, o diagnóstico me causou pânico e dali seguiu-se uma sequência de eventos que me jogaram fundo no poço da autopiedade: levei um pé na bunda, pedi demissão, virei habituée do colo de minha mãe. A cada nova lesão, soluçava um pouco mais alto.

Foi no meio dessa depressão que me lançaram três boias salva-vidas. Um flerte chamou minhas manchas de desenhos; uma amiga de camuflagem; e minha mãe, num dos muitos colos, comparou minha pele à primeira cena de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, quando a personagem brinca de adivinhar desenhos nas nuvens. “Tenho um Pluto aqui na mão direita, mãe!”, foi o que disse, num salto. E então começamos uma brincadeira que me marcou para sempre, de desenhar corações e fantasminhas sobre os meus contornos brancos.

“É uma característica comum da doença: momentos de estresse e tristeza normalmente são seguidos de algumas novas manchas.”
Bruna Sanches

Essa história nunca saiu da minha cabeça. Acho que as metáforas são uma bela ajuda quando a gente tenta entender a vida. Assim como o céu, os dias podiam ser carregados de nuvens. Enfrentei umas quantas chuvas entre os 20 e os 30 anos, e acho que não dava para virar adulta de outro jeito. Já chorei no banheiro do trabalho, passei noite esperando telefonemas, perdi pessoas que amava, me machuquei com tratamentos agressivos. A cada tempestade pessoal, minha pele me lembrava que ela também sabia formar nuvens. É uma característica comum da doença: momentos de estresse e tristeza normalmente são seguidos de algumas novas manchas.

“Hoje vejo o vitiligo como algo muito positivo que aconteceu comigo, acho que ele faz parte do meu amadurecimento, de quem eu sou.”
Bruna Sanches

Tudo que aconteceu me mostrou que essas coisas fazem parte. Mas também que é possível ir além da auto piedade e ter compaixão e amor pelo corpo que temos. Os dias chuvosos já não fazem mais eu me afogar em lágrimas e hoje vejo o vitiligo como algo muito positivo que aconteceu comigo, acho que ele faz parte do meu amadurecimento, de quem eu sou.

Assim como meu nariz, minhas pernas, meus olhos, são únicos, a minha pele também é. Aprendi a me divertir e ter orgulho dela. Adoro escrever e falar sobre e sinto que as nuvens da minha pele são parte da mulher solar de 30 anos que sou.

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Créditos

Foto principal: Pablo Saborido

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