por Luara Calvi Anic
Tpm #96

Mulheres-maravilha vão atrás da perfeição física; super-homens, do sucesso – e da ereção

Havia semanas ele não fisgava uma sequer. Numa dessas noites de verão em São Paulo, encontra uma mulher de porte, opinião, peitinho no lugar e mamilo marcando a camiseta. “Era amiga de uma amiga. Ela me disse que a mina ia me dar trabalho.” Alcança a carteira no bolso, não exatamente para pagar o táxi, e leva aquela cintura fina até em casa. Cinco horas de sexo, tapinha na cara, assou até. “Mandei ver. E ela nem imagina que aquilo tudo era Pramil”, revela o produtor Pedro*, 32, sempre acompanhado de uma pílula na carteira.

Pramil, ou “viagra paraguaio”, é um remédio para problemas de ereção. Cada vez mais solto pelas rodinhas masculinas dos grandes centros urbanos brasileiros, a pílula é proibida no país e sua comercialização, considerada crime. “O Pramil tem a mesma composição do Viagra. Mas, como não é liberado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), não temos garantia quanto à composição e segurança no uso”, diz o urologista Sidney Glina, da Sociedade Internacional para Pesquisa em Impotência e Sexualidade. Segundo a Anvisa, o fabricante do Pramil, a paraguaia Quimfa, nunca solicitou registro no país. Mesmo assim, frequentemente o remédio aparece nas apreensões da polícia federal. Ano passado, em uma das maiores ações, foram confiscadas 28,5 toneladas de medicamentos ilegais. Entre eles, milhares de caixas do “remedinho de trepa”, apelido dado por Pedro ao seu parceiro de cama.

O brasileiro virou tão adepto de remédios desse tipo que fez o país subir no ranking. Terceiro maior consumidor de Viagra no mundo, perdemos apenas para Estados Unidos e Inglaterra. A indústria não disponibiliza números do consumo por jovens, até porque a droga não é direcionada a esse público. Mas urologistas e psicólogos ouvidos pela Tpm confirmam o que já estava na boca do povo: homens jovens estão apelando para remédios de impotência sexual sem realmente precisar deles. Portanto, sabe quem pode ter transado com você ontem? O Pramil.

O homem de hoje está mais ansioso do que nunca. Diante de cada vez mais opções – profissionais, sexuais e sociais –, vive em constantes sobe e desce em que os altos são marcados por euforias e os baixos, por crises de identidade. Aquela certeza de que era só ser forte, provedor e bom de cama para ganhar o título de macho foi por água abaixo. Especialmente porque o papel – e sobretudo a cabeça – da mulher também mudou.

A partir das décadas de 60 e 70, e com a chegada da pílula anticoncepcional, a mulher se liberta do papel de reprodutora. Antes prisioneira da função de parideira, hoje ela engravida se quiser e não está mais disponível para parir quantos filhos o homem desejar. Mais que isso, assume sem pudor que gosta de sexo. “Durante 5 mil anos a sociedade patriarcal associou masculinidade a sexualidade. E corresponder a esse ideal masculino tornou-se uma grande preocupação para o homem. Para eles, a falta de ereção significa a morte, algo que afeta a autoestima profundamente”, diz Regina Navarro Lins, psicanalista e autora de A Cama na Varanda (Best Seller). Ou seja: apesar de toda mudança comportamental, tem muito homem preso a essa ideia – e desconfortável diante da mulher de hoje.

Por ser ginecologista e terapeuta sexual, a paulista Fernanda*, 34, tem sempre a sensação de intimidar os homens com que sai. Por isso, não vê problema em sugerir que usem o “remedinho” até que a relação se fortaleça e as coisas fiquem mais confortáveis. Foi assim com o atual namorado, sete anos mais novo do que ela.“No começo ele ficava meio ansioso, não estava com uma ereção legal. Com o remédio, encostava em mim e eu já sentia que estava duro. Aos poucos fomos diminuindo a frequência”, diz. Segundo Fernanda, isso não os impede de usar quando vão viajar ou em algum momento especial. “Tenho plena certeza de que ele tem tesão por mim. O comprimido não tem a ver com isso, e sim com a possibilidade de as ereções acontecerem mais rápido. E de podermos transar mais vezes. Não seria bom se a gente achasse que precisa dele para ter relações”, garante.

 


Feio sim. Brocha nunca
Quem apresentou o Pramil a Pedro, o que carrega a pílula na carteira, foi um vendedor carioca de Pramil [leia box]. Foi um presente. Até porque o remédio custa menos de R$ 2 cada. Enquanto uma cartela com quatro comprimidos de Viagra sai, em média, por R$ 140, uma cartela com 20 comprimidos de Pramil custa uns R$ 30 pelas mãos de contrabandistas. A oferta desse tipo de medicamento é de oito a 36 horas de maior facilidade de ereção. O publicitário Felipe* experimentou com a namorada, mas cansou de ver o pênis eternamente disponível. “Você perde o controle sobre o seu corpo. Não me deu mais tesão, meu pau parecia um órgão duro separado do restante, com vida própria. Você goza e ele fica lá, incansável”, conta.

Na carona desse desconforto generalizado, vem com tudo a publicidade. Somos constantemente bombardeados por anúncios de pessoas felizes, poderosas e belas. Sem falar das transas e gozadas fenomenais de Hollywood. O resultado disso não poderia ser diferente da sensação sutil, e coletiva, de insatisfação permanente. Sentimos sempre que tudo poderia ser melhor, que um sexo preguiçoso é a coisa mais sem graça do mundo e que um gozo a mais era só o que faltava para a plenitude. “É a era das compulsões. O sucesso do Viagra e do Pramil é só mais um reflexo dessa cultura da insuficiência. Homens comuns desejando performances sexuais de filme pornô, querendo transar por cinco horas seguidas”, analisa Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio. “Esse discurso masculino, de precisar sempre ter uma performance atlética na cama, aparece nas mulheres na ‘necessidade’ de serem belas e magras.”

“Para eles, ainda hoje a falta de ereção significa a morte. Algo que afeta a autoestima profundamente” (Regina Navarro Lins, psicanalista)

A psicanalista inglesa Susan Orbach, uma das maiores estudiosas de questões femininas da atualidade, acredita que a imagem da mulher mais independente no sexo intimida tanto homens como as próprias mulheres. “Não é algo real. A mulher deseja se sentir livre sexualmente, mas não ser vista como uma predadora sexual. O Viagra deixa o pênis tão duro que pode até ser desconfortável para ela. E para os homens não traz realmente mais confiança porque é um remédio, em vez de algo baseado no desejo.” Susan é famosa por ter tirado a princesa Diana da bulimia e por ser consultora da “campanha pela real beleza”, da Dove.

Sexo pelo sexo

A confusão de valores é tanta que a antiga ideia de que o homem é o grande responsável pelo êxito da relação sexual bate de frente com essa leva de mulheres sexualmente liberadas, representadas há décadas por Madonna; depois em maior escala pela geração Sex and the City; e, agora, por Lady Gaga e pelas cachorras do funk. “Essa mulher está se defrontando com a onipotência masculina. E isso pesa tanto sobre os homens que muitos, de tão inseguros, vão mesmo apelar para o Viagra e semelhantes”, defende Maria Cláudia Lordello, psicóloga e sexóloga do projeto Afrodite, da Unifesp.

Uma das casas noturnas mais bombadas de São Paulo, o Villa Country, conhecido pela “pegação geral” e por ser recheado de mulher bonita, é a prova de que esperar o homem tomar alguma iniciativa é coisa de bailinho de garagem. “Um cara boa-pinta, bem vestido, é abordado por umas dez mulheres na noite. Elas chamam para dançar, não veem problema algum em chegar nele. A mulherada se joga!”, garante Marco Tobal Junior, um dos sócios da casa.

Enquanto os homens continuam procurando excelência na cama, as mulheres seguem exigindo. Todo mundo atrás da perfeição. E Pedro, o que carrega sempre um comprimido de Pramil na carteira, vai tentando acertar. Enquanto o remedinho estiver fazendo efeito, ele talvez não perceba que a melhor maneira de compreender a mulher atual – e a si mesmo – seja simplesmente errando.

*Os personagens da matéria tiveram os nomes trocados

Latin lover

Tpm libera um papo de internet entre nossa repórter e um adepto do Pramil

Pedro: Tô com um remedinho de trepa.

Tpm: Hã?! Remedinho?

Pedro: Sim. Chama Pramil. É i n c r í v e l!

Tpm: O que é isso, gente?

Pedro: Tipo um Viagra.

Tpm: Explica! É natural?

Pedro: Não. Azul.Tpm: Mas você precisa disso?

Pedro: Não preciso, mas você dá três seguidas fácil. Ganhei de um motorista do Rio. Um dia saí na balada e peguei a amiga de uma amiga. Ela me disse que a mina ia me dar trabalho. Pensei: vou tomar o Pramil!

Tpm: E aí? Tomou?

Pedro: Tomei. Sem ela saber. Gozei e continuei trepando. Não é que você só fica de pau duro. Te dá uma PUTA libido. Acordei com o efeito ainda e dei três seguidas.

Tpm: Uau.

Pedro: Mandei ver com a menina. Ela nem imagina que aquilo tudo era Pramil!

Tpm: E ela gostou? Deve ter achado que você não saía com ninguém havia tempos...

Pedro: Hahaha! Nada! Tinha comido a amiga dela que me recomendou. Latin lover!

 

Sexo em caixinha

Um fornecedor carioca de Pramil explica para a Tpm por que o "azulzinho" é tão essencial para alguns homens


Tpm: Quem são seus clientes? Atendo os amigos que me procuram. Tenho uma fonte que traz pra mim do Paraguai. Ultimamente tem uma galera mais jovem me procurando, gente de 25 anos.

Por que você acha que os jovens usam? Eles tomam com frequência? Tomam! Saem nas baladas e tomam. É a insegurança, o stress diário. O homem tem aquela coisa da primeira vez. Tudo acontece na primeira vez. Você pode até brochar na segunda, mas na primeira é impossível. É aquela coisa de querer ser o máximo, de rolar a noite inteira.

A parceira normalmente sabe que o homem usou? Nesse ponto é uma coisa meio fechada. Alguns homens que usam não comentam com as mulheres. Porque tem aquela coisa da puta performance, mas até então a mulher não está sabendo. Toma, mas no sapatinho, meia hora antes, sai para balada e rola. Se o cara conta que tomou a mulher já fala: “Você não está com tesão em mim”.

Antes isso acontecia? Antes meus clientes eram só amigos na faixa dos 50. Hoje os homens mais novos fantasiam essa coisa da mulher cachorra, a mulher do funk que quer transar a noite inteira, isso virou um monstro na cabeça deles. Tem sempre aquela neura com a ereção. Quando a gente chega aos 50 anos, minha idade, a libido é mais fraca, a forma física também. Não que não aconteça, mas se você quer uma performance jovial, infelizmente, tem que pedir ajuda aos azuizinhos.

 

Liberdade vigiada

Por Denise Gallo*


“Sexo 40 graus.” “O melhor sexo da sua vida.” “O clímax de 43 segundos.” “Os portões do paraíso.” “Orgasmo já!” “Explosão de prazer.” “Hot!” “Sexy!” “Tórrido!” “Garota, chegou a sua vez.” Nas chamadas de capa da “revista feminina mais vendida no mundo”, a nova velha ordem: Goze hoje! Goze sempre! Para sempre. Do ponto de vista masculino, só mesmo uma ereção permanente para dar conta dessa máquina de prazer, dessa mulher assustadoramente livre, poderosa, dona do seu corpo e do seu desejo.

Assustador, entretanto, é notar que a mulher que pulsa de prazer nas páginas da revista não parece livre nem poderosa, não parece dona do seu corpo nem do seu desejo. Sua imagem é a de uma obediente seguidora de regras que copia o look de uma, batalha pela barriga de outra, lambe de cima para baixo, agora de baixo para cima, segura no ângulo x, apalpa com a pressão y. Aprendeu? Recorte e leve na bolsa, para consultar. Que par perfeito: a mulher turbinada pelas técnicas do desejo e o homem turbinado pela pílula da virilidade. Dois tristes personagens de um mundo obeso de sensações, explodindo de excitação produzida por corpos perfeitamente artificiais. Um mundo de espelhos.

Jovens saudáveis tomam remédio para impotência sem ser impotentes. Como assim, sem ser impotentes? Somos todos impotentes. É impossível não ser impotente diante desse ideal de prazer. Nunca conseguiremos sentir essa profusão de sensações ininterruptas. Para sempre haverá um abismo entre a mediocridade de nossas vidas comuns e a usina de energia que bomba no trio elétrico da mídia. “Vivo tão intensamente que não dá tempo para ter medo, insegurança”, disse, mês passado, a estrela de muitas capas. Ela disse e a revista, é claro, destacou a frase, que funciona como uma espécie de síntese de seu projeto pedagógico. Mas que graça tem viver assim? Que graça tem uma ereção que nunca acaba?

“Que par perfeito: a mulher turbinada pelas técnicas do desejo e o homem turbinado pela pílula da virilidade. Um mundo de espelhos”

Uma vez ouvi de um amigo que a fragilidade era o que mais o interessava nas pessoas. Um ponto de verdadeira conexão. E que, por isso mesmo, ele não fazia a menor questão de esconder as suas ou, mesmo, de resolvê-las. Na época, devo ter sugerido que ele aumentasse a frequência das suas sessões de análise. Hoje, pediria imediatamente o número do seu analista. Quando o efeito do remédio passar, os espelhos ficarem empoeirados e, eventualmente, o par perfeito se olhar de perto, é provável que também concorde com meu amigo.

* Denise Gallo, 39, é pesquisadora e dedica-se ao estudo do gênero feminino e das representações da mulher na mídia e na publicidade. Seu e-mail: dgallo@uol.com.br

 

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