por Diana Assennato
Tpm #138

Ferramenta mobile de paquera vira fenômeno e dá uma nova dinâmica às relações amorosas

Um aplicativo americano de paquera está fazendo as brasileiras pegarem gosto pelo on-line dating. Os números do Tinder são surpreendentes para um país onde sites de namoro nunca foram febre: desde julho deste ano, 2 mil pessoas baixaram a ferramenta por dia em seus iPhones e Androids, produzindo mais de 2 milhões de combinações entre perfis. Com um crescimento de 140% ao mês, o Brasil em breve se tornará o segundo maior mercado do aplicativo fora dos EUA.

A premissa da ferramenta é simples: você escolhe se quer conhecer homens, mulheres ou ambos, a faixa etária e a distância geográfica limite a que a pessoa deve estar de você. Feito isso, o app passa a mostrar uma espécie de catálogo de pessoas que atendem seus requisitos. É uma espécie de jogo: os perfis aparecem um por vez e você vai aprovando (coração verde) ou descartando (xis vermelho). Se uma pessoa que você aprovou também curtir seu perfil, acontece o “perfect match”, a combinação perfeita. O aplicativo pergunta se você quer começar uma conversa privada (em um chat do próprio sistema) ou continuar jogando. Diferentemente de outros apps de pegação, o Tinder só põe o usuário em contato com quem ele tiver interesse. Por isso, notifica (e, logo, cansa) menos.

Entrar é mais fácil ainda. Do download ao começo do jogo, são segundos. O cadastro é feito a partir de um perfil de Facebook e não há grandes opções de customização. O sistema puxa até quatro fotos de seu perfil e dá espaço para uma tagline ou descritivo. De cara, o usuário é avisado de que o que acontece no Tinder fica por lá: NADA será compartilhado na sua timeline. Assim, em maiúsculas.

Durante o jogo, cada perfil mostra apenas o suficiente para uma leitura (bem) dinâmica: as fotos, o primeiro nome, idade, amigos em comum no Facebook e interesses compartilhados, baseados nas páginas curtidas. Em uma questão de segundos, é possível identificar conexões intelectuais, ter uma ideia do tipo físico e do círculo social da pessoa, um processo que poderia levar dias em outros sites de relacionamento. Em seus formulários de entrada, portais como OkCupid ou ParPerfeito chegam a perguntar em quantos anos você pretende ter o primeiro filho. Por ser mobile, o aplicativo oferece uma experiência diferente, mais ágil; por isso mesmo, acaba não garantindo um filtro rigoroso.

É uma espécie de jogo: os perfis aparecem um por vez e você vai aprovando

Quando a publicitária Camila, 27 anos, finalmente saiu para jantar com o pretendente que conheceu no Tinder (e depois descobriu melhor via Facebook e WhatsApp), o risco parecia baixo. “Eu já sabia que a gente tinha um universo em comum. Conversamos tanto que era como se a gente já se conhecesse. No pior dos casos, eu ia ganhar um amigo”, diz ela. Do match ao namoro, foram duas semanas. “Decidimos apagar o app juntos. Não fazia mais sentido estar disponível por lá.” Antes de se aventurar pelo Tinder, Camila solteirava pela noite de São Paulo, mas reclamava da falta de empenho da galera. “Está cada vez mais difícil as pessoas terem saco de se conhecer melhor, puxar um assunto, se descobrir de verdade”, diz. Para ela, o app filtra as intenções, e por isso é mais efetivo do que a balada para quem quer conhecer gente interessante.

Te vi no Tinder

“Eu já usava o eHarmony e notei a diferença na hora. O Tinder destravou processos que sites de relacionamento deixam mais engessados do que a vida real”, diz a pesquisadora Gabriela, solteira, 43 anos. “Era como se eu estivesse dançando um minueto lá dentro.” Ela usa o Tinder nas pausas forçadas: na sala de espera, na fila, tomando um café. Já teve duas noitadas incríveis graças ao app e não pretende parar de usar. “A gratificação instantânea é fundamental. O Tinder virou uma vitrine desse catálogo em que se transformou o mundo das relações amorosas pós-modernas.”

“Chega uma idade em que você precisa abrir seu leque de opções para conhecer novas pessoas. Que elas tenham a ver com você ou não, já é uma segunda fase”, diz a médica Mariana, 37, usuária do app. Ela descobriu o Tinder depois do fim de um namoro recente. Já havia testado dois sites gringos para conhecer pessoas por afinidade, e ganhado a assinatura de uma agência de casamentos de presente da mãe. Em um ano, o serviço promoveu quatro encontros, todos bizarros. Em três meses na Tinderlândia, Mariana já saiu com três caras, e achou todos interessantes.

“O comprometimento inicial é baixo e você se sente mais aberta a agir por impulso”, diz. A natureza mobile da ferramenta, acredita, permite experimentar coisas diferentes, em momentos diferentes e com pessoas diferentes. Sair pra jantar, tomar um café ou até encarar sexo casual, aqui ou em outros países. “O jogo sempre continua, porque seu celular está sempre com você.” Ela entrega: “O que eu já vi de marido de amiga no Tinder não é brincadeira!”.

O que o app tem para fazer as mulheres – que correspondem a 43% de seus usuários – aderirem tão sem constrangimento? Para Túlio Custódio, sociólogo e pesquisador de tecnologia, é o fato de o algoritmo usado para sugerir as combinações do Tinder ter sido criado a partir das nossas atividades no Facebook. A rede social já filtraria o que é relevante no nosso trato social-digital. Por isso não parece tão camicase assim sair para tomar um café com aquele cara do Tinder – afinal, você e ele têm nove amigos em comum e ele ainda curte Leonard Cohen. “Alguns processos sociais são sedimentados a partir da tecnologia e tornam-se a base de como as pessoas entendem e observam o mundo”, diz o sociólogo.

O Tinder virou uma vitrine desse catálogo em que se transformou o mundo das relações amorosas pós-modernas

Jogo democrático

Para Maíla Sandoval, consultora acadêmica e escritora, 32 anos, a graça do Tinder é ser democrático. “É como se fosse o CandyCrush. Cada um joga como quer e no seu ritmo. Tem quem procure uma companhia para madrugadas insones, tem quem te convide para jantar e te cumprimente com um beijo na boca”, conta. “E eu vi muitos caras entrarem no Tinder achando que era uma versão hétero do Grindr [aplicativo de paquera unânime entre gays, focado em encontros casuais e sexo sem compromisso].”

O uso que Beta e Pedro fazem do app, por exemplo, é muito particular. Eles começaram a namorar ainda adolescentes, mas desde os 12 anos ela sabe que é bissexual. Depois de dez anos casados, viram no Tinder a possibilidade de aventura compartilhada. Começaram há dois meses. Beta é quem faz o primeiro filtro e Pedro acompanha o progresso dos matches da mulher, dando pitacos sobre as escolhidas. “Quando o Tinder apita é nosso momento para falar do assunto. ‘Amor, vem ver esta!’ É como se ele ampliasse nosso diálogo de um jeito mais leve, sem drama”, diz Pedro. Beta conta que no começo não foi fácil: ela não fazia match com ninguém. Além disso, a ferramenta não permite evitar amigos em comum, exatamente o que gostariam de fazer. “Ainda não saímos com ninguém. Estamos experimentando, mas junto é mais divertido”, diz Beta, antes que um match no seu Tinder interrompa a entrevista.

Nem todo mundo acredita que a brincadeira é só diversão e romantismo. A psicóloga americana Sherry Turkle, que estuda como a tecnologia mobile está transformando nossas relações interpessoais, defende a ideia de que, cada vez mais, esperamos resultados da tecnologia, e não uns dos outros. Em seu livro Alone Together, ela afirma que queremos estar conectados, mas ao mesmo tempo distantes, no controle; e que usamos a tecnologia para “higienizar” as relações humanas, naturalmente complicadas. “Sacrificamos a conversa para ter conexões”, diz Turkle.

Mesmo com bugs recorrentes (como a repetição de perfis descartados) e eventuais discrepâncias de geolocalização, o app é objeto de constantes mudanças e melhorias. Há poucas semanas, começou a recomendar perfis a partir das preferências manifestadas pelo usuário, calculando nossos padrões de comportamento. Também há pouco, ganhou uma cópia brasileira: o Eai é exatamente igual ao Tinder, com a diferença (bem sacada) da possibilidade de repescagem. O app disponibiliza uma lista dos últimos perfis descartados. Afinal, todo mundo merece uma segunda chance.

Lulu, essa indiscreta

Aplicativo que permite que mulheres avaliem o comportamento e a performance dos rapazes é o hit da vez

Outro aplicativo que chegou recentemente à App Store da Apple, o Lulu em poucos dias já era um dos mais baixados na loja brasileira. Voltado exclusivamente para mulheres, o app permite a avaliação anônima de todos os amigos homens do seu Facebook. Através de um formulário de perguntas, o sistema gera uma nota baseada em aparência, grau de comprometimento, performance sexual, humor e ambição profissional. Na avaliação, só é preciso dizer se você já namorou, pegou, teve uma queda ou é amiga do sujeito. De um jeito sutil, só que não, os podres e as qualidades são reveladas através de hashtags predefinidas pelo sistema e escolhidas pela algoz, o que dificulta a baixaria e a sede de vingança de corações partidos. A brincadeira gerou revolta entre os mal avaliados e entusiasmo entre os bem cotados, com direito a marmanjos pedindo ajuda a amigas para melhorar sua nota. LinkedIn das relações pós-modernas? No fechamento desta edição, as redes sociais já noticiavam um app-revanche: eles também querem nos dar notas.


 

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