por Pedro Carvalho

Os campeonatos de surf feminino (quase) desapareceram no Brasil e o país assiste de fora a um circuito mundial que está bombando entre as mulheres

Disfarçada de notícia boa, era, no fundo, uma notícia triste. “A Praia de Itamambuca, Ubatuba (SP), será palco para a apresentação das principais surfistas do país entre os dias 22 a 24 de setembro. ‘Estamos muito felizes em anunciar que o evento está confirmado’, disse o surfista Wiggolly Dantas.” A competição anual, organizada pelo atleta, serviu para eleger a campeã brasileira de surf feminino nos últimos dois anos. Porque, bem, não existe um campeonato brasileiro de surf feminino. Na verdade (e eis notícia triste), atualmente não existe nenhuma outra competição de surf feminino profissional no país – por isso o torneio de Wiggolly acabou virando o “brasileirão” da categoria.

A consequência óbvia do marasmo de campeonatos é que o Brasil deixou de revelar surfistas mulheres para o circuito mundial. Desde 2013, quando a catarinense Jacqueline Silva se aposentou da elite competitiva, a única representante brasileira permanente na World Surf League (WSL) é a cearense Silvana Lima, 32. “Quando comecei a carreira, em 2002, existiam os circuitos femininos da Petrobras e do Supersurf. Eram oito eventos para mulheres todo ano no Brasil”, ela se recorda. “Isso fora os campeonatos amadores, que, naquela época, davam até carro de premiação. Era bem diferente de hoje.”

Silvana conta que, após se mudar para o Rio de Janeiro para tentar viver como surfista, ela passou dois anos sem patrocinadores. Eram os prêmios dos campeonatos que pagavam as contas e permitiam a ela seguir como atleta – a cearense de Paracuru seria duas vezes vice-campeã mundial (2008 e 2009) e se consolidaria como a melhor competidora brasileira na história da WSL. Hoje, ela confessa, às vezes se sente meio solitária no circuito. “Não ter uma companheira brasileira que me dê um suporte, que uma puxe o ritmo da outra, é ruim. Poderia existir uma nova geração que estivesse comigo. Mas faltam as competições.”

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É uma pena, mesmo – e não apenas pela solidão de Silvana. Mas porque, enquanto o Brasil assiste de fora, o campeonato mundial de surfe feminino atravessa um momento glorioso. Uma nova e talentosa geração – as australianas Tayler Wright (23 anos) e Sally Fitzgobbons (26), as americanas Lakey Peterson (22) e Curtney Conlogue (24) – elevou as baterias a um patamar técnico inédito. “As mulheres, nos anos recentes, retornaram o investimento [dos organizadores da liga mundial] ao apresentar o melhor surf jamais visto na categoria e produzir as mais empolgantes disputas por títulos da história do esporte”, afirma a direção da WLS, em nota, à Tpm. E essa evolução se traduziu em números.

Em 2012, a premiação do circuito masculino era de US$ 425 mil por etapa. Existiam 36 surfistas na disputa, portanto a WSL pagava em média US$ 11,8 mil por atleta a cada evento do tour. A situação das mulheres era diferente. A premiação era de US$ 110 mil por etapa, o que significava US$ 6,1 mil a cada uma das 18 competidoras – mais ou menos metade do prêmio dos homens. Cinco anos depois, o fosso da diferença se fechou. Em 2017, a premiação per capita será rigorosamente a mesma: 16 mil dólares por etapa, seja para homens ou mulheres. Silvana Lima, a atual 14ª colocada do ranking, faturou US$ 51,5 mil em prêmios no ano – foram cinco etapas até agora. “Além da paridade financeira, a qualidade dos eventos é um fator muito importante”, afirma a WSL. “Em 2014, nós acrescentamos Fiji, Trestles (Califórnia) e Maui (Havaí) ao calendário feminino e, neste ano, Hossegor (França), para que elas também possam pegar as melhores ondas.”

Se a distância entre homens e mulheres minguou no cenário global, a fenda entre as brasileiras e as surfistas do resto do mundo se transformou em um abismo. “O nível técnico das sul-americanas, em geral, está muito aquém daquele das tops mundiais. As atletas estrangeiras fazem manobras que anos atrás somente os homens faziam, enquanto as daqui surfam como uma década atrás, dando batidinhas e rasgadinhas na onda”, avalia um brasileiro que trabalha há anos para a WSL. “Para existir atleta, tem que existir competição”, ele diz.

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Competição, bem, não há. Para uma pequena turma de sortudas, no entanto, surgiu uma nova forma de viver do surf. Com audiência relevante fora do “público do surf”, o Canal Off, do grupo Globosat, criou um novo modelo de negócios para quem sonha em se sustentar por meio do esporte. Ele é baseado na equação: surfistas que têm espaço no canal (cujo portal na internet, sozinho, tem quase um milhão de páginas visitadas por mês) conseguem amarrar patrocínios pessoais graúdos, ainda que não se destaquem nas competições. A cada ano, a programação tem se aberto mais ao surf feminino. Em 2017, o espaço dedicado a mulheres surfistas tem atrações como Por elas, Colônia de férias e Tatiana Weston-Webb, além de 9 pés, co-estrelado pela carioca Chloé Calmon.

Chloé, 22 anos, vive as duas possibilidades ao mesmo tempo. Ela é a atual líder do campeonato mundial de longboard, categoria na qual as premiações não chegam a um terço daquelas pagas nos eventos de “pranchinha”. Carismática e articulada, ela também emplacou a série no Off, atualmente na segunda temporada. Apesar do sucesso, a jovem revela outro sintoma da falta que as competições fazem no país. “A Chloé sempre foi mais conhecida no exterior do que aqui, por causa dos campeonatos fora”, diz Miguel Calmon, pai e gerente da carreira da surfista. Talvez isso tenha mudado após o programa no Off, ele reconhece. “Mas, mesmo com esse espaço, ela ainda vive mais do surf competitivo, financeiramente falando”, afirma Miguel. “O Off ajuda mais a manter os patrocínios.”

O modelo de “viver da televisão”, para Silvana Lima, tem dois problemas. “Primeiro, é para poucas, né?”, ela alfineta. “Além disso, o que forma talento são as competições”, diz a atleta. O pai de Chloé concorda. “Pegar onda perfeita e sem pressão [como nos programas da TV], mesmo eu, com 60 anos, não faria feio”, ele brinca, enquanto defende que o país tenha mais campeonatos, fazendo coro a Silvana. “Hoje, estou tranquila, não posso reclamar. Tenho cinco patrocinadores e uma carreira consolidada”, ela diz. “Mas e o surf feminino de alto nível no país, vai acabar? Quando um patrocinador vem me perguntar se estou precisando de alguma coisa, se tenho algum pedido, respondo sempre a mesma coisa”, ela conta. “Façam eventos.”

Créditos

Imagem principal: Ed Sloane / WSL

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