por Laura Pires

"Trair é egoísta. Aceitar fazer parte da traição dos outros não torna ninguém melhor do que esse outro, só porque 'é ele quem tem o compromisso'"

Questão real: por que a patrulha da sororidade se preocupa tanto em conscientizar mulheres casadas e mulheres-que-têm-namorado a compreender a amante, mas não quer conscientizar mulheres a pensarem nas esposas e namoradas antes de se envolverem com homens que prometeram exclusividade para suas parceiras? Isso também não é sororidade, não?

O discurso de sororidade do feminismo é lindo, mas, às vezes, parece irreal em um nível que chega a ter graça. Sim, em uma sociedade onde esposas agridem e expõem amantes e voltam pra casa sorridentes ao lado de seus maridos, como se a amante fosse “a vagabunda destruidora de lares” e o marido um santo, é importante conscientizar mulheres de que o cara é um grande babaca e é especialmente dele que ela deve ter raiva. Era ele quem tinha o compromisso, era ele quem te devia alguma satisfação. Mas, se a amante em questão sabia que ele tinha esposa ou namorada, sério mesmo que ela não tem culpa de nada?

“Não ter comprometimento não exime ninguém de ter ética. Só devemos nos preocupar em não fazer mal a quem conhecemos?”
Laura Pires

Muitas mulheres são amantes e de fato são enganadas, assim como a oficial, mas muitas sabem que o cara tem um relacionamento e colocam toda a responsabilidade nele, do tipo “ah quem tem compromisso é ele, a traição acaba na porta dele, tenho nada a ver com isso”. Olha, miga, tem sim. Tem muito. Não ter comprometimento não exime ninguém de ter ética. “Ah, mas eu nem conheço a mulher” - ok, então só devemos nos preocupar em não fazer mal a quem conhecemos? Se não for nossa amiga, tá de boas?

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É um discurso bastante hipócrita: a oficial deve ter compaixão com a amante, pois isso é sororidade, mas a amante não tem que ter sororidade com a mulher que está sendo traída? A culpa maior pode ser do cara, sim, mas você tem uma escolha entre compactuar com isso ou não. É muito louco exigir de uma mulher que foi enganada, traída, feita de otária, ainda ter que parar pra ter compaixão com a mulher que concordou em participar dessa covardia com o cara, quando esta claramente não se preocupou com isso em relação a ela. Isso não é sororidade, é infantilização. Não bate na amante, não expõe a amante, não age como se o homem fosse um anjinho fisgado por uma vadia. Mas abraçar a amante como se fosse tudo lindo só porque somos todas mulheres não faz sentido nenhum.

“Quando você escolhe se envolver com um homem comprometido, você está escolhendo também ser cúmplice do desrespeito que ele tem pela parceira”
Laura Pires

Vamos esclarecer uma coisa: ninguém é santa. Todo mundo já se interessou ou se apaixonou ou pegou ou até se relacionou com homem comprometido. A mulher que vira amante não é uma grande vilã e não é isso que quero defender aqui. O que estou colocando é que existe uma escolha. E, quando você escolhe se envolver com um homem comprometido, você está escolhendo também ser cúmplice do desrespeito que ele tem pela parceira. É uma questão simples de assumir responsabilidade pelos próprios atos. Não quero ficar passando a mão na cabeça de ninguém em prol de uma sororidade seletiva.

“Antes de se envolver com um cara comprometido em um relacionamento monogâmico, pense que poderia ser sua melhor amiga, sua mãe, você...”
Laura Pires

Sabe quando dizem pra um homem que, antes de assediar uma menina, ele deveria pensar na mãe ou na irmã? Acho que podemos dizer o mesmo para mulheres: antes de se envolver com um cara comprometido em um relacionamento monogâmico com outra mulher, pense que poderia ser sua melhor amiga, sua irmã, o relacionamento dos seus pais… Como sua mãe se sentiria? Ou melhor ainda: pense que poderia ser você. Como você se sentiria?

Traição é algo que machuca e dói muito. É, além da quebra da confiança entre o casal, sentir-se feita de boba por ter sido enganada, sentir-se insuficiente. Cada um faz o que quer, mas sejamos responsáveis. Temos que admitir, pra nós mesmas, que ser amante é concordar, é colaborar com essa dor que vai ser causada caso tudo seja descoberto. Trair é egoísta. Aceitar fazer parte da traição dos outros não torna ninguém melhor do que esse outro, só porque “é ele quem tem o compromisso”. Sim, ele devia respeito e consideração a essa mulher específica com quem se comprometeu. Mas e você? Você não deve respeito e consideração a outras mulheres, não?

Créditos

Imagem principal: Beatriz Leite

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