por Douglas Vieira

Em um estágio crescente desde a Olimpíada de 2016, quando conquistou a empatia do público, o futebol feminino começa a ganhar projetos independentes dedicados a sua expansão

Desde a Olimpíada Rio 2016, o futebol feminino ganhou outra dimensão na rotina da audiência. Se antes era impossível assistir, agora os campeonatos têm sido transmitidos regularmente e os estádios – ainda que sofram com horários complicados do ponto de vista do público, com jogos no meio da semana, normalmente no meio da tarde – já não estão sempre vazios. Ao contrário: em 2017, alcançaram resultados expressivos, como as mais de 25 mil pessoas que foram torcer pelo Iranduba contra o Santos na semifinal do Brasileiro, na Arena Amazonas, em Manaus.

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A sensação é que começa a surgir um interesse que não vem apenas da Seleção feminina estar ou não na TV durante a Olimpíada do Rio. Fazer isso não arrefecer é trabalho que começa na circulação da informação, ideia que guia o ~dibradoras, que reúne quatro amigas – Angélica Souza, Nayara Perone, Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso – para falar, em várias mídias, sobre futebol feminino (mas também há espaço para outras modalidades). 

O site conta com textos e também um podcast semanal, entre outros conteúdos produzidos pontualmente – como quando Renata entrevistou em vídeo a atual treinadora da Seleção, Emily Lima, na sede da CBF, no Rio de Janeiro. Todo o conteúdo que produzem é compartilhado também no Facebook delas.

Renata começou a se relacionar com o futebol cedo e em um cenário que não era simplesmente natural fazer isso. “Principalmente quando fui crescendo, na adolescência, comecei a ver que quando você fala de futebol, as pessoas reagem daquele jeito ‘ah, você não pode saber disso’. Isso me incentivava a querer saber mais”, conta Renata, que completa: “Tudo que falam para mim que não vou conseguir fazer, que não posso, é o código para eu querer fazer”.

Hoje, ela fala de futebol com naturalidade, seja pra debater tática seja para comentar qualquer outra jogadora, ou jogador. Mas isso não significa que as barreiras que enxerga começaram a sumir. “Quando tem um jogador que eu não sei, raramente pergunto para um cara. Vou no Google, descubro. A mulher aprende isso: qualquer demonstração de fraqueza é motivo pro cara falar ‘o que é impedimento?’, coisa assim”, afirma. 

A dibradora lembra que, embora não houvesse uma resistência por parte da família, o futebol nem sempre foi percebido como algo que lhe pertencia. “Uma vez meu pai foi a um jogo e chamou meu irmão e não me chamou. Como assim ele não me chama? Você vai tomar sorvete com seus filhos você chama todos, não apenas um porque acha que o outro não vai gostar. Eu tinha uns 12 anos. E meu pai não era de ir em jogo, por isso fiquei mais chateada”, lembra Renata.

Para Nina, que divide os microfones do podcast com Roberta semanalmente, o caminho foi outro. “Na minha casa sempre foi muito natural. Meu pai era jogador de várzea, meus tios, então futebol era assunto de todo mundo, era muito inclusivo. Muito do que sei eu aprendi com eles. Minha mãe gostava muito também”, conta, completando que, assim como seu irmão, era comum ela ir aos jogos da várzea do pai. “A gente não tinha muito programa de final de semana. Ficava em casa e comia vendo futebol”, conta Nina. “Lembro do campeonato italiano passando na Band nos anos 90 e meu pai me explicava tudo. Brincava de jogar bola comigo...” Resistência ela sentia só quando tentava entrar nas discussões de garotos  – coisa que era “rapidamente sanada porque eu mostrava que sabia”, conta.

O ~dibradoras cresce rapidamente nas redes e a visibilidade levou Renata a ser convidada a participar representando o grupo em um programa no Sportv. Além de serem frequentemente chamadas para muitos eventos e procuradas por garotas universitárias, como em um caso recente, quando ficaram sabendo que já tinham virado tema de trabalho de conclusão de curso.

Rola a bola 

Falar de futebol é parte desse processo de empoderamento das mulheres em um dos territórios mais masculinizados que ainda temos, exatamente o esporte que é usado para assinar a identidade masculina no Brasil. Mas jogar bola também é algo que tem crescido de modo contundente. É resultado de um processo, que explica o surgimento e o estágio atual do Pelado Real Futebol Clube.

Criado em 2011, o projeto começou com um grupo de meninas que não gostava de academia mas queria se exercitar. “A Bibi, que sempre jogou futebol, sugeriu: ‘e se a gente jogasse bola, eu posso ensinar vocês’. Nenhuma menina sabia jogar, mas uma delas tinha uma quadra no prédio. Foram, fizeram o primeiro treino. As meninas amaram”, conta Júlia Vergueiro, que começou como uma das peladeiras do grupo e hoje é sócia e responsável por seguir no comando dessa expansão. “As meninas foram chamando amigas – e outra amiga, outra amiga, até que não dava mais para fazer na quadrinha do prédio e alugaram uma quadra de futebol society. A Bibi percebeu que não dava mais para ser hobby e começou a cobrar um pouco mais do que a divisão do preço da quadra.” 

Esse crescimento, que segue até hoje, fez o que era uma forma de se exercitar se converter em negócio que visa lucro, e também a expansão do esporte. Bibi, a criadora, hoje é apenas peladeira. Mas Júlia, que largou uma carreira promissora em um banco para se dedicar ao Pelado, segue ampliando o modelo, tendo já recebido até consultas para franquias em outras cidades.

O grupo reúne hoje quase 300 mulheres, de várias idades, que se juntam durante a semana após o trabalho para jogar, ou em horários diferentes no caso das garotas mais jovens. O formato é simples: a mensalidade garante uma quadra, uma treinadora, e outras mulheres com quem jogar, agora organizadas por nível técnico, o que muda de acordo com a evolução dos treinamentos. 

Mas não é só jogar que importa. “Hoje o foco é muito mais achar um espaço para a gente se identificar do que uma coisa para quem quer perder calorias e não gosta de academia. 80% das meninas que buscam o Pelado Real é porque já tinham algum interesse por futebol, seja porque jogava quando criança, ou na faculdade, ou porque acham que é um movimento de resistência importante”, explica. “Aqui elas se encontram, se identificam, e ficam amigas. Cada turma vira um grupo de amigas.”

Júlia, cuja família era muito assídua nos estádios, onde ela ia muitas vezes apenas com a mãe, também percebe as peladeiras mais presentes (e de maneira mais independente) nos jogos. “É bem mais comum agora. E principalmente menina sozinha ou com amiga. Antes, você via com o namorado, com o pai...” 

Neste cenário, o Pelado Real começa a não estar sozinho. A própria Júlia tem tido contato com outras iniciativas similares. “Eu conheço um projeto de Florianópolis, o Socceridas. Elas entraram em contato com a gente pra contar que amavam o Pelado e que estavam montando algo parecido. Chegamos a falar de levar como uma franquia, mas a gente ainda estava muito amador para fazer isso. Faz dois anos”, lembra. “Hoje eu tenho uma concorrência na zona leste, que são meninas que começaram como uma franquia do Pelado que não deu certo, mas continuaram como uma empresa própria. Em Brasília tem o Capital Feminina, que é muito grande.”

Júlia divide seu pensamento em duas partes complementares: a importância de expandir o futebol feminino e também a importância de se consolidar como modelo de negócio. “Eu entrei no Pelado pela causa, mas eu me forço a olhar de modo profissional. Um dos grandes problemas do esporte feminino como um todo é não ter o olhar administrativo. As coisas morrem. O projeto dura dois anos e acaba. Se não tem mais o apoio da Lei de Incentivo, morre. Então eu tento olhar ao máximo como eu faço para isso se sustentar”, explica, como outra razão para não se importar com a concorrência. “Independentemente da causa, a concorrência é muito boa. É difícil vender um produto que ninguém vende.”

Hoje o Pelado Real conta com 10 turmas, com quadras reservadas na Barra Funda e em Santo Amaro. Só não há turmas ainda às sextas e aos domingos. “Eu acabei de contratar uma coordenadora de expansão para gente ir para mais lugares. A ideia é tanto o adulto quanto o infantil estarem em outros bairros”, conta, o que, pela procura, se mostra cada vez mais possível. “O infantil a gente vai ter que dividir as categorias. O Pelado só tem sub-12, mas já tem um monte de menina de 5 a 8 anos, um monte de 9 a 12. Não dá mais para misturar”. E segue o jogo. 

Créditos

Imagem principal: Attitude Esportiva/Divulgação

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