por Jessica Tauane

Sexo lésbico: como se proteger de DSTs num mundo de camisinha em que o pênis é o personagem central?

Meu nome é Jessica, tenho 25 anos e sou lésbica. Nem sei quantas vezes por dia me apresento assim. Acontece que essa coisa de ser lésbica se tornou meu "ofício". Criei um canal LGBT no YouTube, o Canal das Bee, para discutir coisas que nem sabia o nome ainda.

Gravando para o canal descobri coisas como o feminismo, a transfobia, que eu era muito odiada por ser gorda... tantas coisas! Uma vez tive a oportunidade de conversar com um médico, homem gay cis, sobre saúde sexual para lésbicas, o Dr. Marcelo RochaHoje o assunto aqui fala justamente sobre isso. De pessoas que têm vagina e transam com outras pessoas que têm vagina. Sejam elas mulheres lésbicas e bissexuais cisgêneras (pessoas que não são trans), sejam homens trans. O termo que vou usar (sexo lésbico) diz respeito à minha identidade, de mulher cis lésbica. 

Como se proteger de doenças sexualmente transmissíveis num mundo de camisinha? Como se proteger de DSTs num mundo em que o pênis é o personagem central? Como se proteger contra DSTs quando a gente nem tem coragem de falar sobre isso?

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“Temos nossas vaginas, mas também mãos, bocas e línguas. Para estimular os pontos erógenos não precisa de muito. Só vontade e tesão.”
Jessica Tauane

Colar velcro é arte, se proteger faz parte.

Sexo lésbico é bom demais. A "falta" de um pênis não faz realmente falta, no final das contas. É possível ter prazer, e muito, sem um falo. O corpo da mulher é lindo, com todas suas nuances e terminações nervosas e bilhões de possibilidades. Temos vaginas, mas também temos mãos, bocas e línguas. Para estimular os pontos erógenos não precisa de muito. Só vontade, tesão e consentimento.

“ É possível ter prazer, e muito, sem um falo.”
Jessica Tauane

Mas boca naquilo e aquilo na boca, aquilo naquilo e aquilo naquilo outro também podem transmitir doença. O Dr. Marcelo me explicou que se há contato entre mucosas ou entre sangue, há riscos. Boca tem mucosa, vagina também. Boca tem saliva, vagina tem secreções (ufa!). Brinquedinhos penetrativos também têm risco de transmissão. E nem me deixe citar o sangue da menstruação, ô tristeza. Também tem risco.

Mas Jessica, o que faço? Paro de transar menstruada? Paro de usar brinquedo? E sexo oral? Paro de colar velcro? 

Não! Você pode continuar fazendo tudo isso. Aliás, você DEVE continuar! Lembre-se sempre que, no mundo onde a gente vive, o amor e o afeto entre mulheres é revolucionário. Você tem todo o direito de colar seu velcro em paz. 

Mas o que falta entre a gente é justamente isso aqui que estamos fazendo: nos comunicarmos melhor. Nos conectarmos. É a gente falar sobre nossas próprias experiências e assim caminharmos, melhores, juntas.

Como colar velcro em segurança

Quando conversei com o Dr. Marcelo, gravando o vídeo abaixo para o Canal das Bee, entendi que a desinformação mata lésbicas.

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O sistema de saúde não está preparado para nós. Os médicos, idem. Se nem eles sabem como nos aconselhar, fica difícil. Então, vamos nós mesmas nos ajudar.

Sabiam que a incidência de câncer de colo de útero em mulheres lésbicas que tem vagina é muito maior que em mulheres heterossexuais com vagina? O dobro! Temos o dobro de câncer de colo de útero sabem por quê? Porque não falamos sobre isso.

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Vou ilustrar com minha própria história. Quando entendi que era sapatão, não consegui me aceitar. Era a sociedade, minha igreja e minha família ou eu. E, então, me obriguei, por anos, a me relacionar com homens (cis). Heterossexualidade compulsória, o nome disso. Lesbofobia mais ainda.

Mas sou lésbica, entendem? E 80% de nós, lésbicas, já tivemos relações sexuais com homens cis, também. Por "n" motivos. Aí, a gente cai nessa de que "ah, transar entre mulheres é seguro, não passa nada", sem lembrar que: talvez nós já tenhamos alguma coisa. Talvez nossas parceiras já tenham também alguma coisa.

E tudo bem, sabe? Ter alguma DST não é vergonha.

A gente vive nesse mundão de meu Deus aí querendo ser feliz, sexo é vida e essas coisas acontecem. O que não dá é ser besta e cair no erro de não se proteger. E aqui que está a grande chave da parada. Além das dicas sexuais que vou passar já já (o que é bom fica pro final), a nossa principal demanda tem que ser, mais uma vez e como sempre: precisamos nos conhecer.

Já somos mulheres que não olham por tempo suficiente pras nossas vaginas. Fui saber a quantidade de "buraco" que tinha lá depois de adulta. Eu nunca tinha olhado pra minha própria, nunca tinha entendido que podia encostar lá, sentir prazer lá, achar aquilo lá bonito.  

A vagina é linda! Linda e cheirosa, como eu.

“Quando a gente se conhece, se cuida, se examina... a gente se ama. Se mantêm aqui, vivas e lindas!”
Jessica Tauane

A gente precisa saber se tem algum probleminha encubado. Se examinar, ir ao ginecologista e exigir um atendimento não-preconceituoso. Pode olhar nos olhos do médico e dizer que cola o velcro, sim. Se a gente se examina, resolve bastante coisa. E pode cuidar, caso algum vírus já esteja lá. A gente pode conversar sobre isso com nossas parceiras para cuidar dela, também. Direitos e deveres.

Quando a gente se conhece, se cuida, se examina... a gente se ama. Se mantêm aqui, vivas e lindas, prontas para fazer o que sabemos fazer de melhor (no meu caso, é ser sapatão mesmo).

Dicas sexuais do caralho da boceta!

1) Lavem sempre as mãos (a gente aprendeu isso com Castelo Rá-Tim-Bum, vai?!) antes de colar o velcro. Tudo bem higienizado. Lave a parte das unhas, que é importante.

2) Por falar nelas, corte as unhas bem curtinhas se possível. Assim menos bactérias ficam acumuladas na região. 

3) Existem algumas técnicas (estilo gambiarra, hello lesbofobia, my dear friend) para uma espécie de barragem genital, que não deixa encostar mucosas, seja na hora de fazer as tesourinhas (a gente precisa de um nome melhor para esta posição, pelo amor de Deus!), seja na hora do oral.

São várias opções: as estadunidenses usam o "dental dam", uma barragem usada por dentistas, que pode ser comprada em lojas especializadas. As brasileiras usam plástico filme ou camisinhas recortadas, mesmo.

4) Lave sempre os brinquedos depois do uso. E, no uso, é bem importante usar camisinha. Assim você pode usar nas duas, com camisinhas diferentes, que tá safo!

5) Cuidados redobrados com: transar menstruada, usar roupas íntimas ou toalhas de banho de parceiras casuais. A ideia é só fazer essas coisas com a parceira fixa, que você já tenha conversado sobre esse assunto.

6) No sexo anal, atenção redobrada também. Se for usar os dedos, use com alguma dedeira. Algumas minas usam luvas cirúrgicas. Mesmo com parceira fixa, nunca penetre a vagina após penetrar o ânus. Lembre-se que a gente tem duas mãos, dá pra ser uma para cada coisa. Se organizar direitinho todo mundo transa!

Sapatão que dorme, a onda leva!

Quando gravei aquele vídeo com o Dr. Marcelo, eu estava namorando. Fiquei solteira por alguns meses e hoje em dia já estou namorando de novo, muito feliz e apaixonada. Mas... Transei com algumas mulheres nesse período. Não usei nenhuma proteção. Não fiz nenhum exame.

Hoje escrevi uma declaração de amor para minha namorada, Julia. E agora estou pensando: que amor é esse que não cuida?

Estou agora mesmo ligando para minha ginecologista. Dane-se que tá tudo corrido. Dane-se que estou com três jobs atrasados e dois canais no YouTube para produzir. Dane-se que amanhã tenho que ajudar na mudança da minha melhor amiga e hoje ainda combinei de... transar.

Oi, meu nome é Jessica, tenho 25 anos e sou lésbica. Morro de orgulho de ser lésbica. E quero continuar viva para contar tudo isso para vocês. Tô ligando agora para minha ginecologista, de verdade.

E você, sapatão?

* As imagens que ilustram essa matéria são da artista canadense Nikki Pecasso. Vai lá: instagram.com/bonercandy69

Créditos

Foto principal: Nikki Pecasso

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