por Milly Lacombe

Sobre a Reforma da Previdência: "Nós, mulheres, habitamos uma realidade alternativa, e nada como o cenário político atual para trazer a distorção à tona"

O mais recente lembrete veio de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, um mundo dentro do qual 89% dos habitantes é homem:

"A reforma da previdência [essa contra a qual multidões foram às ruas no dia 15 de março] busca equilibrar os dois sexos".

O que Maia sugere é que a reforma está sendo feita para o benefício da mulher brasileira. É mais um daqueles momentos leminskianos de “repara bem no que não digo”.

Para que uma pessoa exerça o poder sobre outra – seja o ditador, o burocrata, o pai ou o marido – violência não basta. “É preciso uma ideologia que justifique e legitime esse poder”, ensina Noam Chomsky, linguista e ativista político norte-americano. “E ela é sempre a mesma: a dominação se dá para o bem do dominado. Em outras palavras, o poder se apresenta como altruísta, desinteressado, generoso”.

Nesse caso, a ideologia se chama patriarcado, uma que homens como Rodrigo Maia precisam perpetuar e que a atual reforma ajudará a aprofundar.

“É tempo de mergulhar na vida política nacional antes que nos roubem todos os direitos conquistados”
Milly Lacombe

Se você, assim como eu, tem vontade de ser abatida por um meteoro ao escutar palavras como “previdência”, “deficit”, “superavit”, “passivo primário”, “taxa Selic”, talvez seja hora de chacoalhar a preguiça porque é tempo de mergulhar na vida política nacional antes que nos roubem todos os direitos conquistados.

O uso de palavras complicadas é uma artimanha do mercado econômico para que desistamos de entender o que está acontecendo, por exemplo, com a Previdência, esse lugar para onde vão alguns dos impostos que nossos contratantes pagam sobre nosso salário ao longo dos anos a fim de que, depois de muito suor, possamos envelhecer sem precisar ter angústias com as necessidades básicas de uma vida.

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Aquilo que o atual governo chama de “reforma da Previdência” é tão “reforma” quanto seria uma atualização no trânsito que propusesse o fim do automóvel e a volta das charretes. 

Para entender a íntegra da reforma e suas necessidades há bons economistas (e há até Wagner Moura em seu ilustrativo vídeo-explicativo, que você pode assistir abaixo), então não falarei sobre isso, mas sim sobre esse pretenso aspecto “igualitário” que a reforma traria, segundo aqueles que a pariram.

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Antes de mais nada alguém precisa dizer a Rodrigo Maia que a luta por igualdade não é uma que nos leve a ser iguais porque muito nos orgulhamos de ser diferentes, mas é uma luta para que as diferentes necessidades básicas dos mais variados grupos de seres humanos seja atendida de forma igualitária pelas instituições. 

A chamada reforma da previdência, do jeito que está, não fará isso. Muito pelo contrário: ela acentuará as diferenças entre os gêneros e produzirá ainda mais conflito, tanto entre os sexos quanto entre as classes. 

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Ao propor que se equipare a idade de aposentadoria em 65 anos para homens e mulheres e dizer que isso “iguala” os gêneros ele nos chama de imbecis e ofende. (A idade mínima para mulheres hoje é de 60 anos). Ofende porque tornar igual a idade da aposentadoria entre homens e mulheres desconsidera por completo a jornada dupla: ou o trabalho que a mulher executa em sua casa quando chega do trabalho formal. Segundo dados do jornal Folha de S.Paulo, levando-se em conta a jornada dupla, uma mulher trabalha, em média, quase 8 horas a mais do que um homem. Por semana. 

Trata-se, claro, de um esforço invisível esse que é chamado de “trabalho doméstico”, porque numa sociedade patriarcal como a nossa ainda é entendido que os afazeres do lar, por uma questão genética, são da mulher. Ao homem foi conferido o divino dever de prover e, a fim de ajudá-lo a executar a tarefa, cabe à mulher manter a casa em ordem. 

O conceito cultural baseado no homem assalariado e na mulher dependente ainda predomina mesmo na plataforma econômica atual, dentro da qual a mulher entrou de vez no mercado formal de trabalho. 

A mulher de Maia talvez trabalhe pouco em casa porque imagino que eles tenham dinheiro para contratar funcionários que façam tarefas como: ir ao supermercado, cozinhar, arrumar as camas, colocar e tirar a mesa, lavar e passar as roupas, dar um jeito na pia depois do jantar e cuidar das crianças.

“A Reforma da Previdência nos jogará num calabouço moral em que a desigualdade social será normatizada e a mulher ainda mais castigada”
Milly Lacombe

Ainda assim é apenas natural supor que a supervisão do trabalho doméstico seja feita por sua mulher, como é natural imaginar que se o filho deles estiver na escola e for sucumbido por uma dor de barriga a mãe será solicitada, e Maia poderá seguir seu dia de trabalho sem ser importunado. Mas essa não é a realidade da trabalhadora brasileira, que depois de enfrentar uma pesada jornada de trabalho físico fora de casa precisa ir para casa e se submeter a mais trabalho físico e a um tipo de trabalho que ainda é mais invisível do que o doméstico: o emocional. A mulher é percebida como cuidadora, então é esperado que venha dela o esforço emocional para manter a casa em harmonia.

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Como se esse cenário desigual não fosse suficiente para tornar desonesta e cruel a proposta de igualar as idades de homens e mulheres para a aposentadoria, hoje uma mulher recebe em média quase 30% menos do que um homem executando a mesma função no mercado formal de trabalho. 

Mães são ainda mais descartáveis para o mercado, que entende que por ter que lidar com filhos aquela talvez seja uma profissional que vá dedicar menos horas à função para a qual está sendo formalmente contratada. O mercado, assim, executa uma espécie de punição à maternidade.

Esse cenário patriarcal aplicado à economia moderna provoca distorções bizarras. 

Segundo a Harriet Fraad, psicóloga americana especializada em entender os impactos do sistema econômico sobre famílias, dentro de um casal no qual a mulher ganhe mais que o homem, a mulher é ainda mais exigida nos trabalhos domésticos porque só assim o homem sente que sua masculinidade está sendo recompensada pela diferença salarial.

Para Fraad, o mesmo cenário se repete na indústria pornográfica: quanto mais espaço as mulheres conquistam no mercado de trabalho, mais sexualmente humilhadas e objetificadas elas são em filmes pornográficos.

Trata-se de uma ideologia patriarcal mantida por uma elite econômica que é composta majoritariamente por homens ricos, que, assim como Maia, não estão muito interessados em mudar as coisas. 

Curiosamente, é essa elite masculina, branca e conservadora que mais fala em “manter os valores da família”. 

Não há como manter valores, muito menos como manter a família, se a mulher está esgotada pela jornada dupla, se ela não recebe nenhuma ajuda das instituições e se a pequena ajuda que ela recebia está agora sendo roubada. 

Se estivessem preocupados com a “família brasileira” os papeis da mulher na sociedade atual, e sua jornada dupla, seriam recompensados a fim de que ela pudesse ter saúde física e emocional, além de tempo, para se manter e ajudar a manter uma família, se uma família ela quiser formar.

Mas é claro que há mulheres poderosas que também perpetuam a ideologia, mesmo quando acham que estão fazendo o oposto. Sheryl Sandberg, a CEO do Facebook, por exemplo, já disse que as coisas ficam fáceis para uma mulher quando o homem ajuda em casa. Mas ela se esqueceu de dizer que, além do marido, tinha bem uns nove funcionários “ajudando” em casa.

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É, portanto, mais complicado do que parece. Para que a transformação seja estrutural é preciso que além de consciência de gênero tenhamos consciência de classe.  

A atual reforma da previdência, que tem muitas outras crueldades nela embutidas, se aprovada nos jogará num calabouço moral dentro do qual a desigualdade social será normatizada, e a mulher ainda mais castigada. 

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