por Bruna Bittencourt

Autora de Como Envelhecer, Anne Karpf fala sobre nosso medo de ficar mais velho

"Se você quiser comprar qualquer produto para a pele, eles devem ser pró-idade", defende Anne Karpf, que desaconselha aqueles com a etiqueta antienvelhecimento. "Isso pode parecer trivial, mas a linguagem é algo poderoso e internalizamos suas mensagens." Em Como Envelhecer (publicado pela série The School of Life), a autora discute nosso medo de envelhecer.

Karpf chama a atenção para a diferença entre resistir à idade e à discriminação. Para a socióloga, colunista do Guardian, o desafio de encarar a velhice é o mesmo do que o de viver. " [...] A ideia de que o envelhecimento não é nada além de uma trajetória de declínio é atordoadamente equivocada." A autora conversou com a Tpm por e-mail. 

Por que temos tanto medo de envelhecer? Historicamente, sempre tivemos esse receio ou este é um sentimento da época atual? Não acho que houve uma idade de ouro do envelhecimento. As pessoas fizeram coisas terríveis para os idosos que não podiam contribuir economicamente, especialmente quando eles eram uma boca extra para alimentar em culturas de subsistência muito pobres. Mas houve uma mudança definitiva no final do século 18 e no início do século 19, quando as atitudes em relação aos idosos tornaram-se muito mais desdenhosas e hostis. A maioria das pessoas atribui isso à "modernização" e à industrialização. A experiência tornou-se menos valorizada e valiosa e houve menos compreensão do que chamo de "arco da vida" -- a ideia de que nossa trajetória é composta por diferentes estágios e cada um deles é valioso. Houve outra grande mudança na década de 1960, quando a cultura jovem se desenvolveu e foi fetichizada quando o The Who cantou "Espero que morra antes de envelhecer" [em My Generation].

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“As pessoas se tornaram mais diferentes, e não mais semelhantes umas das outras, à medida que envelhecem”
Anne Karp

Qual conselho daria para alguém que tem medo de envelhecer? Acabei de participar de um programa de uma rádio canadense em que a apresentadora, prestes a completar 40 anos, me pediu para lhe dar razões pelas quais ela não deveria estar apavorada! Diria cinco coisas:

1- Não compre produtos com a etiqueta "antienvelhecimento"! Isso pode parecer trivial, mas a linguagem é algo poderoso e internalizamos suas mensagens. Se você quiser comprar qualquer produto para a pele, prefira os de pró-idade;
2- Ande com pessoas tanto mais velhas quanto mais jovens. Você perceberá que a idade não é a característica mais importante. Também compreenderá que as pessoas se tornaram mais diferentes, e não mais semelhantes umas das outras, à medida que envelhecem. Você não vai perder de repente, em um aniversário, todas suas qualidades, seus interesses e suas características que fazem de você a pessoa que é para se tornar uma pessoa mais velha genérica. Não há uma única maneira de envelhecer;
3- Aprecie todas as boas coisas do envelhecimento: se importar menos com o que as outras pessoas pensam, se concentrar no que é importante porque você sabe que a vida não dura para sempre. Como disse a poeta americana May Sarton, ela adorava ter 70 anos porque podia ser mais plenamente ela mesma;
4- Combata os estereótipos e a discriminação contra as pessoas com base na idade, mas não o envelhecimento em si;
5- Se você parar de negar a idade e abraçá-la, começará a fazer campanha para uma melhor provisão para os idosos -- melhor saúde e assistência social, infra-estrutura nas cidades para permitir que os idosos permaneçam engajados. Eles querem e são capazes.

Como você chamou a atenção em Como Envelhecer, Winston Churchill se tornou primeiro-ministro do Reino Unidos aos 66 anos e o arquiteto Frank Lloyd Wright concluiu o Guggenheim, em Nova York, aos 80. Há vários ganhos na velhice, mas como podemos encarar suas perdas? Enfrentamos-as da mesma forma que encaramos as perdas de todas as fases da vida: lamentando-as. Isso significa não se recusar a negá-las, fingindo que os "baby boomers" têm vencido o envelhecimento ou subestimando os idosos. Mas reconhecendo a dor de perder alguém que amamos e alguma capacidade ou aspecto da vida que nos era preciosa, permitindo-nos sentir a privação, sabendo que esse sentimento vai passar e que vamos recuperar o nosso apetite pela vida. Ao suprimir a dor, é mais provável que vivamos nossas vidas moldadas por ela. Freud escreveu sobre o "o retorno do reprimido": se você coibir algo, isso retorna de alguma maneira para dominá-lo.

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“O desejo sexual de pessoas idosas vem deixando de ser um tabu, embora as pessoas ainda pareçam chocadas que ele não necessariamente diminui”
Anne Karp

O desejo não expira, mas não falamos muito sobre sexo entre idosos. Como você destacou recentemente, infecções sexualmente transmissíveis estão em ascensão entre a geração mais velha. Quais são os nossos maiores desafios nesta área? O desejo sexual de pessoas idosas vem felizmente deixando de ser um tabu, embora as pessoas ainda pareçam chocadas que ele não necessariamente diminui. Acho que é importante reconhecer a diferença: existem algumas pessoas mais velhas que perdem sua libido e estão bem com isso -- aliviadas mesmo. Outras mantêm seu desejo, mas acham difícil encontrar um parceiro, especialmente mulheres que veem homens mais velhos escolherem companhias mais jovens. Há também pessoas que começam a experimentar sexo quando ficam mais velhas. Precisamos constantemente desafiar os estereótipos. O sexo após a contracepção e o risco de gravidez pode ser uma libertação fabulosa, especialmente para as mulheres que param de julgar seus corpos segundo padrões inalcançáveis. Há ainda muita repulsa sobre o corpo mais velho, especialmente o feminino.  

Você deve receber muitas mensagens de seus leitores. Qual é a maior preocupação deles? Tenho muitos amigos em seus 70 e 80 anos que são enérgicos, criativos, corajosos e que apenas não se reconhecem na maneira que a cultura popular os representa. Mais do que nunca, usufruimos de vidas mais longas e saudáveis, mas pessoas cada vez mais jovens parecem estar mais ansiosas sobre o envelhecimento. É paradoxal e deprimente! O envelhecimento é um privilégio que a maioria das pessoas no mundo não tem. Se você admitir que vai morrer eventualmente (o que é uma coisa difícil e para muitos de nós leva uma vida), pode concentrar sua mente para viver plenamente. Amo a resposta de duas palavras que uma mulher de 90 anos de deu quando foi questionada por que era uma voluntária. Ela respondeu: "Crescimento pessoal"! Podemos continuar a crescer até nossa respiração final.

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Foto principal: Divulgação

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