por Ariane Abdallah
Tpm #88

Sagar é brasileiro, mas seguiu o costume da família e só conheceu sua noiva na hora do sim

Sagar nasceu e cresceu no Brasil, jogando bola e namorando na balada. Mas, aos 26 anos, decidiu seguir o costume da família, indiana, e casou com a mulher que sua mãe escolheu. Atenção: os fatos a seguir são reais e não estão no próximo capítulo de Caminho das Índias.

De pé no desembarque do aeroporto de Cumbica, em São Paulo, Sagar Kahare olha para o relógio de pulso a cada 10 segundos. Filho de um tradicional casal indiano, ele aguarda a chegada da esposa, Gyaneshree, que conheceu quatro dias antes da cerimônia de seu próprio casamento – realizado em fevereiro deste ano, na Índia. “Nunca levei namorada para dormir em casa. E hoje vou com minha mulher”, reflete o brasileiro de 26 anos, que cresceu jogando bola na rua, estudou direito e até um ano atrás saía com meninas que conhecia nas baladas.

Minutos depois, Gyaneshree aparece de sari azul. Sorridente e com lágrimas nos olhos, pula no colo do marido. É a primeira vez que deixa seu país – para passar o resto da vida na casa da sogra, como pretende.

O casal sai abraçado, mas a cena não faz parte de Caminho das Índias. É vida real, de um jeito que nós, ocidentais, temos dificuldade de compreender até quando a protagonista é Juliana Paes. Mas Sagar já se acostumou. É começar a contar sua história, para as pessoas dispararem um interrogatório: como assim casar com alguém que não conhece? Se não tiver química? Não pode separar? E se ela tiver bafo? Antes de topar a aventura, o próprio Sagar se fez muitas perguntas. “Eu pensava: afinal, sou indiano ou brasileiro?”

Tecnicamente, ele é brasileiro. Nasceu em São Pau­lo, foi criado no município de São Bernardo do Campo, onde mora com a família. “Temos devoção aos pais porque nos dão a vida. Cuidarei deles no futuro”, explica. Com 6 anos, Sagar aprendeu a tocar tabla (percussão indiana); na adolescência, jogava sinuca e saía com brasileiras loiras, morenas, mestiças. Em casa, as namoradas eram apresentadas como “amigas” e recebidas sem sor­risos pela matriarca, uma das maiores cantoras de música hindu do Ocidente, Meeta Ravindra – Sagar é produtor musical de quatro de seus 13 CDs. As imagens das vezes em que viu o filho bêbado não saem da cabeça dela. “Eu tinha vontade de bater, mas, naquele estado, não dava nem para falar”, lembra. Meeta preferia não imaginar o que seria da família se Sagar rompesse com a tradição. Porque, para eles, o filho casar, namorar ou se juntar a uma menina não hindu é romper. “A mulher é quem passa adiante a tradição”, ensina Meeta. Para difundir a música de seu país, ela mora aqui há 36 anos, desde seu casamento com o engenheiro e astrólogo Ravindra.

A trama de Gloria Perez nos aproximou da realidade de Sagar e tornou o assunto recorrente. Para os indianos, o que justifica um casamento não é se apaixonar, gostar de fazer a mesma coisa no sábado à noite, ter amigos em comum. Decisiva é a compatibilidade entre as personalidades. “Não é um comércio, como às vezes parece na novela. É um estudo”, resume Sagar, enfatizando a importância de fazer o mapa astral do casal antes de se conhecerem. Na Índia, isso é ciência, e não misticismo. “Cada família tem seu astrólogo e é comum consultá-lo antes de mudanças importantes, como um novo emprego, uma nova casa ou um casamento”, esclarece o pai, Ravindra. Ele aprendeu o ofício de astrólogo aos 9 anos, com o avô, que era guru da aldeia onde viviam, na região de Madhya Pradesh, no centro da Índia. E ficou tranquilo quando viu que a nora era “Sagar de saia”: “Eles são parecidos num grau raro de se encontrar. Não precisam se ver para saber que vai dar certo”, sentencia ele. Então, o que é perfeitamente seguro para eles aconteceu – mesmo sendo surreal para amigos brasileiros do jovem hindu. Sagar ainda casou com comunhão total de bens. Isso porque se separar está fora de cogitação (no Brasil, o padrão é comunhão parcial de bens).

De qualquer forma, ele ainda poderia mudar de ideia. “Não existe mais a pressão para casar que havia antigamente”, conta o próprio. Mas, ao desembarcar em Nova Déli, o “sim” estava decidido. No aeroporto, quando viu pessoalmente Gyaneshree pela primeira vez, ele deu um abraço no cunhado, um beijo no rosto da cunhada e saiu de mãos dadas com a noiva. Os futuros parentes não são acostumados com esse contato físico e riram de sua espontaneidade brasileira.

A dançarina indiana Gyaneshree havia sido escolhida pela sogra, que chegou à Índia em 8 de dezembro – e, segundo os astros, tinha até 18 de fevereiro para casar o filho, “se não, só em setembro”, garante Meeta. Quando ela falava às irmãs e primas que procurava uma mulher que carregasse as tradições religiosa e cultural do país, era tratada como sonhadora. “Elas riam. Diziam que isso não existia mais, que eu estava com a ideia do país de 36 anos atrás.”

Indiana à moda antiga

De fato, a Índia não é a mesma. A Delhi Commission for Women – instituição que dá suporte à mulher indiana – tem uma linha telefônica de atendimento ao público e estima que o número de chamadas de mulheres querendo o divórcio cresceu pelo menos 20% desde 2000. Sem se abalar com a estatística, Meeta espalhou fotos de Sagar e seus dados de nascimento entre os parentes e foi conhecer algumas pretendentes. Mas se desencantava quando elas serviam chá com a cabeça baixa ou ao descobrir que tinham diploma de informática, o que é cada vez mais frequente por causa da influência ocidental. O problema não era ter formação superior, e sim trocar o papel de mulher, responsável por cultivar as tradições artísticas e devocionais da família, por uma função que já é executada pelos homens. Ela queria uma moça à moda antiga, mas que tivesse firmeza para carregar seu legado. Agora, em frente ao templo hindu, no subsolo da casa de quatro andares no ABC paulista, a cantora coloca as mãos em prece enquanto explica de onde vinha a certeza de que encontraria a nova “filha”: “Eu tinha fé”.

Ela estava de passagem na casa de uma cunhada, em Khadwa, se preparando para ir à Haridwar, cidade conhecida pela rica atividade cultural e espiritual, onde pretendia encontrar uma mulher na universidade de artes, ioga, religião e ciência. Até que soube de uma dançarina, de 26 anos, que morava sozinha em Déli, mas estava na casa dos pais passando o feriado, numa cidade próxima, Banala. Quando Gyaneshree olhou nos olhos de Meeta, servindo-a de chá, a sogra sentiu que a viagem estava completa. “Pensei: ‘Achei’”, lembra. A jovem indiana pegou a foto do futuro marido nas mãos e ficou em silêncio. “Eu pensava: ‘Será que eu casarei com esse homem? Gostei dele’. Fiquei ansiosa de um jeito que não ficava com outros meninos que minha mãe mostrava a fotografia”, confessa ela, que já dispensou rapazes por não simpatizar com a profissão deles ou com o jeito que falaram com ela. Aos 26 anos – 11 dias mais nova que o marido –, ela já tinha passado da idade com que as indianas costumam se casar: 23.

Depois de dizer “não” a oito pretendentes, Sagar se encantou pelo sorriso de Gyaneshree quando abriu o e-mail de sua mãe pelo iPhone. A partir de então, começou a conversar com ela pelo Skype – em inglês, já que ele não sabe hindi, a mais falada das 15 línguas oficiais da Índia. Num desses papos, chegou a dizer “eu te amo”. “Mas, na verdade, não amo ainda. Aqui no Ocidente, as pessoas casam quando estão no auge da paixão. E a tendência é ir esfriando. A gente casa quando ainda está frio e vai esquentando. Construímos juntos”, explica ele, que casou em rituais que duraram dois dias, depois viajou pela Índia em lua de mel.

Aceita?
Num país como o Brasil, em que para cada quatro uniões civis acontece um divórcio, é no mínimo curioso ver o casamento com os olhos de Gyaneshree. Ela diz não ter questionado nem se arrependido de deixar a família, os amigos e a vida independente de professora de dança para viver com um homem que, até a noite de núpcias num quarto de hotel, não sabia se tinha chulé, manias esquisitas ou distúrbios psicológicos.

A garota ri quando falo isso, agradece a Deus por não ter sido o caso, mas enfatiza: “Se acontecesse, inicialmente eu não teria opção, mas, com o tempo, tentaria mudar os hábitos dele, porque o casamento é um desafio, uma oportunidade de crescer como ser humano”. Ou seja, não existe a ideia de que o outro é que vai te fazer feliz. “Você vai se autoconhecendo e construindo a felicidade a partir da relação”, completa Sagar.

Fica fácil entender valores tão distantes da nossa cultura quando se está diante dos sorrisos da família Ravindra. Eles comemoram a chegada de Gyaneshree, que entra na nova casa com o pé direito, em meio a um ritual pela prosperidade, feito pela sogra. No quarto para o qual Sagar se mudou, só há a cama de casal. “Vamos comprar o resto juntos”, diz ele, que pretende abrir uma escola para a esposa difundir a dança indiana. “Não quero que ela seja dona de casa, como ainda acontece na Índia.” Cinco dias depois de sua chegada, os dois vão ao shopping, e ela volta vestindo calça jeans e tênis. Como qualquer casal, eles estão empolgados com o início da relação. A diferença é que não têm pressa nem medo de que o outro mude de ideia de repente, afinal fizeram um trato: ser felizes para sempre. Juntos.

Como os meus pais
Ravindra, pai de Sagar, não procurava esposa quando conheceu Meeta. Mas já apreciava artes e cismou que casaria com aquela mulher depois de vê-la cantando músicas devocionais (mantra). Assim como a nora, ela nunca havia saído da Índia, mas aceitou mudar para o Brasil. Formado em engenharia, Ravindra tinha vivido um ano na Alemanha, mas não se adaptou ao frio. Queria conhecer outras culturas e se animou quando soube que o clima daqui era parecido com o da Índia. No início, Meeta passava os dias sozinha. “Era difícil. Longe da família, eu ainda não conhecia meu marido direito. Mas a gente é criada para lidar com essa situação”, conta ela, que até hoje cuida da casa, faz shows, grava CDs e promove rituais hindus, honrando o compromisso de difundir a cultura de seu país. Embora muita gente tenha a impressão de que a mulher indiana é submissa, Ravindra afirma não lembrar de nada que a esposa tenha querido que ele não tenha feito. “A mulher tem mais responsabilidade, porque administra o dinheiro da casa e assume a maior parte na educação dos filhos. Além disso, não faço nada sem consultá-la”, diz. Casados há 36 anos, eles garantem que nunca cogitaram se separar.

Almas gêmeas

Leia trechos do mapa astral de Sagar e Gyaneshree e entenda como os astros indicam o futuro de um casal
por Shakti Chourey*

Quando um astrólogo indiano faz a sincronização de dois horóscopos, ou seja, analisa a compatibilidade de dois indivíduos, analisa a partir de vários pontos. O primeiro é a compatibilidade da Lua nos dois horóscopos. No caso de Sagar e Gyaneshree, ele tem a Lua em Leão, e ela, em Sagitário. Esta combinação de fogo com fogo é muito harmoniosa, porque os planetas que correspondem respectivamente a cada signo – Sol e Júpiter – são positivos, otimistas e têm perspectivas amplas. Os dois são francos, generosos e de coração aberto, por isso podem enriquecer harmoniosamente um ao outro. 

Outro ponto é o Gana, em que se analisa a natureza da constelação Lunar das duas pessoas, ou seja, suas naturezas básicas, como são essencialmente. Essa categoria é muito importante ser levada em conta porque é difícil de ser modificada (melhorada). A combinação entre Sagar e Gyaneshree é excelente porque as duas naturezas são do mesmo tipo: Manushya.

A próxima categoria é Mahendra Kuta. Aqui, é preferível que a estrela do homem esteja 4, 7, 13, 16, 19, 22 ou 25 estrelas longe da da mulher. No caso desse casal, são 19 estrelas de distância, o que significa que estão em concordância. Isso promove o bem estar e a longevidade do relacionamento.

Escrito nas estrelas
Existe também a análise do Stri-Dirga Kuta, em que é preferível que a estrela do homem esteja, no mínimo, a nove estrelas de distância da da mulher. Neste caso, Sagar tem 19 estrelas de distância da de Gyaneshree e, por isso, está em harmonia.

Outro ponto é o Rashi Kuta. O ideal é que tenham os signos da Lua opostos um ao outro, como, por exemplo, um em Áries e outro em Libra. Nesta disposição oposta, um é o complemento do outro. No caso de Sagar e Gyaneshree, a distância é de nove signos, e a previsão é de felicidade e prosperidade.

Finalmente, analisa-se Graha Maitram, ou seja, a amizade ou harmonia dos planetas correspondentes aos signos onde a Lua está. Este aspecto mostra a compatibilidade das naturezas das duas pessoas. O casal em questão tem todos os cinco pontos completos nessa categoria, o que significa que a amizade dos planetas “donos” dos signos, Sol e Júpiter, é excelente.

A compatibilidade entre os horóscopos de Sagar e Gyaneshree é de 81%. Esta porcentagem é muito rara, e a previsão deste casamento é muita próspera. A avaliação desta porcentagem é feita pelos Gunas – que são como pontos em um teste. O número máximo é de 36 Gunas. No caso desses dois, a soma dos Gunas é de 29, por isso a harmonia entre eles é tão grande. Mesmo antes de se conhecerem, as famílias já haviam constatado que os dois são feitos um para o outro, por isso o encontro foi realizado. Caso contrário, nem chegariam a se conhecer.

*Shakti Chourey é irmã de Sagar e astróloga védica. Ela aprendeu o ofício com o pai, Ravindra, é casada com um indiano e vive nos Estados Unidos, mas atende por telefone e vem esporadicamente para São Paulo. Para fazer seu mapa astral védico – individual ou do casal – ou para mais informações, ligue: (11) 3304-9973 ou vedicvidya@gmail.com

NOTA DA REDAÇÃO:
Pouco tempo depois de a matéria “Prazer, sou seu Noivo” ter entrado no ar, um bombardeio de comentários intrigou a redação. Os posts afirmam que o personagem da matéria, Sagar Kahare, não revelou que tem um filho com uma ex-namorada. Fomos checar a história. Em um telefonema, Sagar disse que preferia não falar do assunto, mas reconheceu a omissão – em momento algum dos três encontros com nossa reportagem ele mencionou o fato. Conversamos, então, com a psicóloga Tata Maurutto, que confirmou ser mãe de um menino de um ano e sete meses, fruto de seu relacionamento de dois anos com Sagar. Ela disse ainda que, atualmente, briga na justiça pela guarda unilateral da criança.

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