Tpm / Moda

por Luciana Obniski
Tpm #121

Por que você acha que nunca tem nada para vestir e o seu guarda-roupa está sempre lotado?

Por que você acha que nunca tem nada para vestir e o seu guarda-roupa está sempre lotado? E o que isso quer dizer sobre a moda?

A atriz Nana Yazbek, 29 anos, tem mais de 400 peças em seu guarda-roupa. Só vestidos são mais de 60. Mesmo assim, horas antes de uma festa, é comum ela se ver parada em frente ao armário sem saber o que usar. “Fico preocupada em passar uma imagem certa, principalmente num evento importante. Queria mesmo ter uma costureira que eu mostrasse fotos de revistas e ela copiasse igual”, diz. A pedido da Tpm, ela tirou todas as peças do seu armário para serem fotografadas e, depois, pinçou as que realmente usa. Se assustou com o resultado. Quase 60% delas permaneceram intactas nos últimos seis meses. A preocupação em consumir demais, porém, existe há algum tempo. “Faz meses que não compro algo. Quero investir nas peças certas porque é um absurdo eu ter esse tanto de roupa e achar que não tenho o que usar”, explica a atriz, que comprava, em média, cinco peças por mês – se “valer a pena”, chega a pagar mais de R$ 800 em algumas.

O antropólogo Alexandre Bergamo, doutor em sociologia pela USP e especialista em moda e consumo, explica que o sentimento de “não ter roupa” vem em parte pelo fato de a moda criar uma categorização do tempo, em que o futuro é valorizado e o passado, diminuído. “Quem usa uma tendência que ainda está começando é admirado, copiado, enquanto quem usa uma tendência que já passou ganha um caráter descartável”, explica. Na visão dele, as pessoas compram – e acumulam – cada vez mais porque não querem correr o risco de se sentirem excluídas pelo que estão vestindo. “Existe um fascínio na moda porque ela permite uma dissimulação, uma negociação constante entre quem a pessoa é e quem quer parecer. A moda se torna ainda mais importante na vida dessas pessoas por causa dessa negociação simbólica.”

A publicitária Fernanda Tedde, 34 anos, que guarda mais de 650 peças no armário de casa – os sapatos que não cabem ali ficam na garagem do prédio –, diz pensar em roupas quase como uma fantasia. Leitora assídua de revistas de moda (ela cola na porta do guarda-roupa suas referências preferidas), está sempre buscando ideias para se vestir. “Às vezes, quero passar uma imagem mais séria, daí escolho as roupas certas para isso.” E admite comprar mais do que deveria. “Trabalho perto de um shopping e almoço muito lá. Acabo comprando alguma coisa que obviamente não preciso. Hoje mesmo levei um casaco de pele. Sei que não vou usar mais do que uma vez por ano, mas achei que valia a pena porque gostei muito”, assume Fernanda, que viaja bastante a trabalho e costuma trazer roupas de fora do Brasil. Em média, ela compra 20 peças em um só mês, e prefere nem fazer a conta de quanto gasta. Porém, não passa em branco. “Me arrependo de diversas coisas que compro, mas sempre segui uma regra: nunca me endividar”, afirma.

Roupa certa
Embora não tenha mais espaço no guarda-roupa, Fernanda não está livre da sensação de não ter o que vestir. “Sei que não tem sentido, mas, às vezes, quero uma blusa específica e nenhuma das que estão no meu armário pode substituir”, explica.

De acordo com Alexandre Bergamo, esse estímulo “de precisar estar sempre com a roupa certa” ajuda a construir a insatisfação permanente com as roupas que temos. “As pessoas se sentem constantemente ‘cobradas’, por exemplo, pelas revistas de moda, que ajudam a construir essa ideia de que, se a pessoa não está usando essa ou aquela roupa, ela está errada. E, se usa demais a peça da vez, é apontada como vítima da moda.”

Lelia Arruda, 31 anos, arquiteta do Estudio Campana, diz não buscar referências do que vestir. “Acredito no meu senso estético, até porque trabalho com isso”, explica. Dona do menor guarda-roupa entre as retratadas, ela estima ter 250 peças e conta que só sai de casa com uma “meta”. “Não costumo frequentar shoppings. Só entro em uma loja quando quero algo específico. E, se não acho, volto para casa sem nada mesmo.”

A relação “racional” com moda e consumo – Lelia faz duas grandes compras no ano, no verão e no inverno, e não gasta mais de R$ 1 mil em cada uma delas – não quer dizer que ela não seja influenciada pelas tendências. A arquiteta assume que já se sentiu mal por ser a única entre amigas a usar um comprimento de saia que estava “fora de moda”, em uma festa. A crise, porém, durou pouco. “Não me desfiz do vestido porque ele é um pretinho básico e sei que ainda vai voltar a ser ‘legal’. Essa é a melhor parte de não seguir tendências. Só tenho peças que gosto, que me vestem bem, e elas, uma hora ou outra, sempre voltam a estar na moda.”


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