por Laura Pires

”Homens pró-feminismo, não levem a mal, mas, aí no topo do privilégio que têm, vocês nos ajudam muito mais nos deixando falar do que seguindo o estilo deixa-que-eu-faço e falando por nós”

O mais difícil quando se fala de privilégio é não ofender pessoas bem-intencionadas. Isso porque, normalmente, nos vemos como pessoas boas, que estão aqui pra contribuir. Aí, quando alguém nos aponta como privilegiados, ficamos na defensiva, como se o privilégio que temos nos tornasse grandes vilões.

Mas os privilégios existem à parte de nossas boas intenções. É um fato social. E esse privilégio afeta a maneira como podemos nos posicionar no mundo. Quanto menos privilégio uma pessoa tiver, mais questionada será sua fala. Isso não se resume a pessoas com mais ou menos dinheiro e oportunidades. Isso se expande principalmente para características de identidade. O padrão social básico é um homem branco hétero. Quanto mais próxima dessa identidade estiver uma pessoa, mais privilégio de fala ela terá.

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Dois colegas de trabalho fizeram uma experiência interessante nos EUA. Por uma semana, Martin R. Schneider assinou seus e-mails profissionais com o nome de sua colega, Nicole Hallberg. Seu trabalho de repente ficou muito mais difícil, pois os clientes questionavam tudo que ele dizia - experiência que ele nunca tinha tido antes. Assim, ele entendeu por que a colega demorava mais para realizar as mesmas tarefas. Não era falta de experiência ou competência dela, era o simples fato de ela ser mulher. Martin relatou sua experiência no Twitter e foi bastante celebrado. Me pergunto quantas vezes essa mulher tentou falar sobre isso e ninguém lhe deu ouvidos.

“Ter uma identidade privilegiada (no caso, ser homem) confere autoridade ao que está sendo dito”
Laura Pires

A lição que se tira dessa experiência é que ter uma identidade privilegiada (no caso, ser homem) confere autoridade ao que está sendo dito. Já li textos excelentes de homens sobre feminismo e direitos das mulheres de maneira geral, da mesma forma que já li textos excelentes de mulheres falando as mesmas coisas. Normalmente, os que ganham mais popularidade e têm maior aceitação geral são aqueles escritos por homens. 

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Costumo observar, em postagens feministas escritas por mulheres, quantas curtidas vêm de homens e são sempre pouquíssimas. Quando as postagens pró-feminismo são escritas por homens, a coisa muda de figura. Muito mais homens dão ouvidos quando é outro homem quem está falando. A coisa é tão entranhada na nossa cabeça que é muito comum que mulheres também deem mais ouvidos nesses contextos.

“Ainda acredito que o papel de pessoas privilegiadas não é falar pelas outras, mas sim chamar atenção a essas injustiças e ceder o lugar”
Laura Pires

Termos nossas questões ouvidas apenas quando são homens que as colocam é só mais uma forma de machismo e isso é desanimador. Infelizmente, às vezes tenho a impressão de que esse é um mal necessário. Melhor ouvir só quando vem de um homem do que nem ouvir, não é mesmo? No entanto, ainda acredito que o papel de pessoas privilegiadas não é falar pelas outras, mas sim chamar atenção a essas injustiças e ceder o lugar.

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Falar isso às vezes soa como ingratidão, porque o cara está lá todo cheio de boas intenções tentando nos defender e a gente chega e diz que não é isso que quer. Mas é que aceitar essa ajuda sem atentar para o fato de que ela nasce de um local privilegiado de fala é perpetuar o problema. Como vamos passar a ser ouvidas se legitimamos a autoridade da fala de outros? E, homens pró-feminismo, não levem a mal, mas, aí no topo do privilégio que têm, vocês nos ajudam muito mais nos deixando falar do que seguindo o estilo deixa-que-eu-faço e falando por nós.

Esse privilégio de fala ocorre até nas pequenas coisas. Sugiro que observem no dia a dia como as pessoas insistem quando uma mulher diz não para algo e como aceitam quando é um homem quem diz. O privilégio de ser ouvido afeta todas as áreas da vida.

Créditos

Imagem principal: Beatriz Leite

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