por Nina Lemos

Não falamos protagonismo, não achamos que os homens devem ficar de fora. A gente é feminista, mas a gente não tem carteirinha registrada. E nem quer ter.

Eu não uso a palavra protagonista. Não sei nem se sou protagonista da minha própria vida (espero, sinceramente que sim... mas vai saber). Não li todos os livros que vocês leram. E não, não vou usar nenhuma referência aqui e falar que falta ler mais… sei lá quem. Eu não tenho carteirinha de feminista. Eu nunca tive. Ou vai ver rasgaram. Ou vai ver eu perdi (eu sou muito distraída) e não me animei a ir no Poupatempo das feministas fazer uma cópia. Será que me permitiriam? Eu não sei e não quero saber.

Esse é um texto para falar que, sim, é possível ser feminista sem ter carteira!

 Às vezes eu acho que as feministas da geração do Twitter e dos textos gigantes são muito chatas. Pronto. Falei. É muito dogma. É muita patrulha de mulher contra mulher. Isso me desanima. É muita regra! Se somos contra as regras dessa sociedade aí, eu acho que a gente não devia criar tanta regra também. Mas isso é só o que eu acho.

Escrevo sobre feminismo porque sou feminista e …. Bem, semana passada eu achei muito desnecessário meninas com carteira de feminista (as da da tal geração do Twitter)  metendo pau na Tpm só porque o Gregorio Duvivier segurou um cartaz em uma das capas da edição Precisamos falar de aborto da revista. Repito: só por isso. Esse papo de que homem não pode colar não, não concordo. Pode colar, claro. Mas sem arrastar. Se arrastar a favela vai cobrar etc.

Falando em cobrar. Motivo dois que explica porque eu não poderia falar de outro assunto essa semana que não fosse feminismo. Um professor intelectual de esquerda é acusado de assedio e foi denunciado por feministas corajosas. Mas aí as feministas não param de brigar sobre o caso.

Explico. Fizeram um tumblir para divulgar relatos de meninas que se sentiram assediadas pelo tal professor. Eu às vezes acho que elas estão muito certas. Muito mesmo. Nas outras fico na dúvida. Eu não tenho uma opinião definitiva sobre o caso. Assim como não tenho opinião formada sobe quase absolutamente nada (exagero literário). E não vou me estender  porque existem um milhão de textos longos sobre o acontecido na internet e esse não é mais um.

Mas andei aqui pensando em nós, as feministas sem carteira. Somos muitas. Somos um milhão,  Somos mais que um milhão e estamos em todos os lugares. A gente exerce o nosso feminismo na vida, no trabalho, nos nossos textos, na nossa música, na educação das crianças , e quando briga com macho no bar. Eu cansei de brigar com macho no bar por ser feminista e não tolerar as conversinhas machistas. E essa foi uma das razões dessa feminista sem carteira mudar para Berlim.

Eu acho o Brasil um pais extremamente machista. Costumo falar que no Brasil as mulheres são obrigadas a usar uma burca transparente.

Em Berlin eu não acho que sou feia. Nenhum homem mexe comigo na rua. Nem um beijo um cara te dá sem antes perguntar se pode. Ir sozinha a um restaurante é normal e não, eu não tenho que usar roupa especial para andar de metrô. E por sinal, eu posso usar a roupa que eu quiser, com a idade que eu quiser. Aqui eu posso até envelhecer. Em Berlin eu não uso burca e eu sou livre.

Acho que muitas das feministas sem carteira são como eu. Não queremos ter razão o tempo todo nem discutir quem tem que protagonizar o que. A gente quer ser livre. E pensando bem, eu sempre achei que feminismo é liberdade. E é por isso que ver tanta patrulhas e regras entre algumas feministas me deixam totalmente sem vontade de me envolver nas discussões.

Só peço. Não precisam polemizar comigo. Eu respeito vocês. De coração. Só me deixem aqui, caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, junto com as milhares de outras feministas sem carteira. Mas junto de vocês também. Podem acreditar.

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