por Milly Lacombe

Colunista da Trip, a jornalista e escritora Milly Lacombe lança "O ano em que morri em Nova York", livro onde narra as delícias e as dores do fim de um relacionamento. Leia um trecho

Abri os olhos e vi a completa escuridão que me cercava. Estava de cócoras, em uma tenda minúscula, rodeada por outros vinte corpos que, como o meu, suavam naquele espaço aquecido por dez pedras incandescentes, colocadas bem no centro do pequeno ambiente para fazer com que o calor alcançasse temperaturas cada vez maiores. De tempos em tempos, alguém jogava um pouco de água sobre as pedras e, então, delas saía um vapor escaldante.

O calor ficava ainda mais forte e sufocante. Senti minha pele grudar na das duas pessoas ao lado, e isso me causou uma irritação brutal. Levei as mãos ao rosto para estancar o suor, mas elas estavam imundas, porque o solo era de uma areia grossa e escura e minha pele suada fazia com que tudo grudasse nela. Melada e suja, encostei a testa no chão. Comecei a chorar, mas por sorte ninguém podia me ouvir, uma vez que todos estavam entregues a uma cantoria estranha.

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Tudo o que saía de mim eram lágrimas, irritação e desespero. Desespero por sufocar naquele calor absurdo, por perceber meu corpo colado ao de desconhecidos, minha pele lambuzada de uma desagradável mistura de suor e areia, por estar sozinha como nunca tinha estado antes, por não ter mais uma casa, por não saber onde estava minha alma, por não saber o que estava por vir nem quem era aquela mulher de cócoras no meio de uma tenda às margens do Tapajós.

 As lágrimas saíam de um lugar desconhecido, fundo e dolorido. O que eu estava fazendo ali? Como pude deixar Paola me levar para aquele lugar? Fazia um mês eu morava em Nova York, tinha mulher, um casamento sólido de nove anos, livros na estante, roupas no armário, uma rotina que me oferecia a ilusão do controle. Agora estava na Amazônia, completamente sozinha, chorando de cócoras, suando como nunca antes, suja de areia e terra, meus livros amontoados dentro de malas na casa de minha irmã, em São Paulo, as roupas amassadas em outras malas, minha alma fragmentada e em lugares desconhecidos.

O que teria acontecido? Por que não estávamos mais juntas? Por que nosso relacionamento tinha passado por isso? Por que tinha topado me mandar para o meio da Amazônia com pessoas que achavam adequado dormir em redes, comer apenas grãos, amontoar-se daquele jeito pouco civilizado em uma tenda de lona, inundada de um calor absurdamente estúpido, e cantar músicas xamânicas, grudando pornograficamente umas nas outras? Uma angústia inédita me invadiu e, quando puxei o ar para tentar sobreviver uns minutos a mais, tudo o que senti foi um bafo quente e meu rosto queimar.

Mas a história não começa assim. Preciso voltar ao momento em que decidi ir embora de Nova York; preciso voltar para o dia em que deixei minha vida para trás, duas semanas antes de me encontrar sufocando em uma tenda de lona no meio da Amazônia.

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Vai Lá: O ano que morri em Nova York – um romance sobre amar a si (Editora Planeta), de Milly Lacombe. Pré-lançamento: dia 17 de junho, às 14h30, na Fnac Paulista, em São Paulo

Créditos

Imagem principal: Editora Planeta/Divulgação

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