por Ariane Abdallah
Tpm #114

Decifrando o comportamento feminino com o lançamento de Corpo, Envelhecimento e Felicidade

Enfim, livre! São inúmeras as questões que movem a vida e o trabalho da antropóloga paulista Mirian Goldenberg, 54 anos. As mesmas, inclusive, que fazem você e suas amigas conversarem horas a fio: casamento, desejo, traição, inveja, celulite, filhos... Há mais de duas décadas, ela decifra o comportamento feminino, como faz agora com o lançamento de Corpo, envelhecimento e felicidade. A seguir, a vida (de Mirian e a sua) como ela é.

Mrian Goldenberg quer nada menos do que “a liberdade de Simone de Beauvoir e a felicidade de Leila Diniz”. Aos 54 anos, pode ser definida como uma antropóloga da vida privada, que pesquisa a intimidade de seus vizinhos: a classe média carioca. Há mais de duas décadas, investiga temas igualmente corriqueiros e tabus, como infidelidade e envelhecimento. A autora do best-seller A outra e de mais 14 livros, entre eles Por que os homens e as mulheres traem?, lança, este mês, Corpo, Envelhecimento e Felicidade (ed. Civilização Brasileira) – e tem mais dois prometidos para 2012.

Entre tantos anos de estudos, o que mais intriga Mirian é a insatisfação com a qual a mulher brasileira convive: “O que falta para sentirmos o poder subjetivo que já temos em casa, no trabalho, em relação ao corpo? As mulheres continuam focando no que falta, esperando os homens corresponderem às suas demandas e preocupadas com a opinião dos outros”, sintetiza.

Antes de se especializar no comportamento humano, Mirian pensou em estudar medicina em Santos, litoral sul paulista, cidade onde nasceu. De lá, saiu para morar em São Paulo, dos 16 aos 21 anos, antes de mudar para o Rio de Janeiro. Nessa época, década de 80, seu tempo era ocupado com a militância política, em atos que iam de passeatas em prol do Chile livre (o país viveu sob ditadura por 17 anos) a mobilizações pró-constituinte (a nova constituição brasileira foi aprovada em 1988), ao lado de líderes como Luís Carlos Prestes, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Gabeira. Mirian viu amigos serem presos e leu Marx, Engels, Trotsky. Sua primeira viagem ao exterior foi para Cuba, aos 26 anos. Seu primeiro livro, Nicarágua Nicaraguita, sobre a revolução do país onde esteve por três vezes, foi lançado em 1987.

Quietude

Logo depois, pesquisando mulheres revolucionárias, se deparou com Leila Diniz, que lhe rendeu o livro Toda Mulher é Meio Leila Diniz (1995). Hoje, divide o tempo entre o trabalho em casa – onde escreve seus artigos semanais da Folha de S.Paulo –, as aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, consultorias, palestras e conferências pelo Brasil e pela Europa. Foi em uma dessas, na Alemanha, em 2007, que abandonou o hábito de fazer escova no cabeleireiro antes de se apresentar em público. “Lá, não tem salão como aqui. As mulheres não fazem nada e estão bonitas. É uma preocupação a menos”, explica. Mirian também não vai à manicure; ela mesma corta e lixa as unhas, bem como resolve sozinha a faxina no apartamento onde mora no Leblon – a três quadras da casa do marido, e a outras três da praia. A antropóloga prefere a quietude de viver só.

Diariamente, caminha uma hora e meia até o Arpoador. O hábito começou aos 13 anos, na época em que dar uma volta na praia era ideia mais convidativa do que ficar em casa. Criada entre três irmãos homens numa família judia em que álcool e violência eram presenças constantes, o jeito foi se isolar. Na biblioteca do pai (com quem, já mais velha, ficou sem falar por 16 anos), descobriu o prazer de ler – e escrever. Desde a adolescência, relata os acontecimentos mais importantes da vida em cadernos (são centenas deles empilhados num armário). “Só sinto que vivo se escrevo sobre aquilo”, diz.

Mirian conta que, coincidência ou não, Leila Diniz também escrevia diários, e se refere a ela e a Simone de Beauvoir como velhas conhecidas. Porém, nunca se sentiu tão próxima de ambas quanto agora, que se vê mais livre, poderosa e feliz. A seguir, a antropóloga faz um mergulho na própria história, explica por que ser mulher é tão complicado – e prova que dá para ser bem mais simples.

Tpm. Você já estudou infidelidade, corpo, envelhecimento e agora felicidade. O que mais chama a sua atenção sobre o que pensa e sente a mulher brasileira?

Mirian Goldenberg: O que mais me intriga é a questão do poder. Quero entender o que falta para nós, brasileiras, sentirmos o poder que temos. Porque a mulher já tem o poder objetivo: no trabalho, em casa, tem independência financeira. Mas sente uma miséria subjetiva, um vitimismo. Quando fui para a Alemanha fazer uma conferência sobre o corpo, tive um choque cultural que foi o grande clique da minha vida. As alemãs têm casas, carros, viajam, casam ou não, têm filhos ou não, e chegam aos 60 anos felizes. São poderosas subjetivamente também. Falam o que pensam: “Isso está me atrapalhando” ou “não vai me ajudar a lavar a louça?”. São diretas, enquanto nós somos meiguinhas, doces. Gosto desse jeito firme de ser mulher. E dá para continuar sendo feminina, delicada, suave, como é a brasileira. Voltei dessa viagem com a ideia de estudar o envelhecimento.

O que de mais interessante descobriu nessa pesquisa?
Quando comecei a conversar com mulheres de 40, 50 anos, elas só falavam da decadência do corpo e da falta de homem – ou das faltas dos homens. Nunca foram tão poderosas, mas o discurso é “meu corpo está caindo” ou “meu marido não me dá mais atenção”. Esse contraste me intriga. E quem mais sofre e tem medo  do envelhecimento, quem mais reclama do corpo e dos homens são as meninas de 20, 30, 40 anos. Ficam com fixação na ruguinha, no cabelo branco, na celulite... Enquanto as mulheres de 60, 70 anos aprendem a ver o todo, e não o detalhe. Estão mais felizes, valorizam mais a liberdade do que o corpo; mais a saúde do que a aparência; mais as amizades do que os homens. Na última Bienal do Livro, participei da mesa “Elas não envelhecem mais – as novas velhas”, e falei: “Dane-se a ruguinha, dane-se a celulite e dane-se a pele do pescoço que retrata o envelhecimento”. Precisa esperar chegar aos 60 para descobrir isso?

Essa é uma cobrança da mulher com ela mesma ou da sociedade?
A sociedade está introjetada na mulher. A antropologia ajuda a compreender que o que você pensa ser um fracasso individual na verdade é um problema coletivo, cultural. Quando você está sofrendo porque engordou, porque o marido te trocou... tem um monte de mulher sofrendo pela mesma coisa. Saber disso dá uma noção de que não é um desvio individual. Mas o sofrimento é, sim, individual, então elas sofrem realmente porque estão envelhecendo, porque não conseguiram seguir o padrão, porque o casamento não deu certo, porque os filhos não são como queriam. Às vezes a gente acha que está fazendo uma escolha, mas é a cultura dentro de nós escolhendo. Quando dá um clique, você começa a fazer escolhas dentro do que a cultura oferece. E hoje, na cultura brasileira, as mulheres já têm mais poder de escolha.

Têm mesmo? Porque muitas mulheres se queixam de serem escravas do acúmulo de funções que veio com a tal “liberdade feminina”. Reclamam das exigências, de ter que dar conta de família, trabalho, estética
Na verdade, do jeito que está hoje, elas têm poucas escolhas. O modelo ideal de mulher é a que faz tudo: trabalha, se cuida, tem marido e filhos. O maior problema é que as coisas ainda são polarizadas no Brasil. Tem que ter filho e marido, mas tem que se dedicar ao trabalho. Não pode ser virgem, mas não pode ter muitos parceiros. Qual é a medida? As mulheres têm medo de errar e pagar um preço alto. “Se eu investir no trabalho, o que vai acontecer com minha vida pessoal?”, “se cuidar dos meus filhos, o que vai acontecer com minha carreira?” ou “não quero ter filho, mas e se quiser aos 45?”.

E qual é a medida?
Quero que cada mulher seja livre para fazer escolhas. Se quiser casar, trabalhar, cuidar do marido, do filho, do corpo, é uma decisão. Mas, se não quiser fazer tudo, que possa optar com a mesma legitimidade. Se não quiser ter filhos, como eu não quis, que ninguém fique falando: “Coitadinha, vai ter uma velhice solitária”.

Por que não quis?
Nunca tive vontade. Talvez porque não tive uma infância feliz. Talvez 
porque seja preenchida pelo meu trabalho. Dos 35 aos 38 anos, que é a fase mais crítica para a mulher nesse assunto, fiquei em dúvida. E tive muita cobrança das amigas. Mas não me arrependo dessa decisão.

Como foi sua infância?
Muito infeliz. Minha mãe polonesa e meu pai, romeno, tiveram os sofrimentos e as histórias deles. O que mais marcou minha infância é que me sentia muito diferente de todo mundo. Morava em Santos, e o fato de ser judia não combinava com as escolas que frequentava, com os amiguinhos do prédio. Era uma sensação de exclusão. As meninas falavam que iam para a igreja, que eram batizadas, e eu pensava: “O que falo?”. Às vezes dizia que queria casar na igreja Nossa Senhora Aparecida, que nem existia [risos]. Até meus 40 anos, não gostava nem do meu nome. Lembro de ter uma sensação de não pertencer. Além de tudo, era muito magrinha, miudinha, meu apelido era Olívia Palito. Queria ser invisível, que não notassem que eu existia.

Como era o ambiente na sua casa?
Era muito violento para mim, que era uma menina delicadinha, pequenininha, tímida. Meu pai e meus três irmãos, todos homens, tinha aquelas brigas de surras, tapas... Meu pai bebia. Apanhei bastante. Mas o medo maior não era de apanhar, era de ser destruída. Era essa a sensação. Lembro de 
todos nós dentro do carro indo viajar, e eu não me mexia, não falava, não existia. Não queria correr o risco de que acontecesse algo comigo. Até hoje não gosto muito de viajar. Mas ao mesmo tempo em que meu pai era violento, também lia muito, era inteligente. E como eu era tímida, descobri a leitura muito cedo, na biblioteca dele. Li Hermann Hesse, a biografia do Charles Chaplin, Jean-Paul Sartre, Freud, Teblinka, sobre o holocausto. Para as crianças, só tinha os livros do Monteiro Lobato.

E a relação com sua mãe?
Ela era a pessoa que eu mais amava na vida. Não era carinhosa, afetiva, mas sempre tive uma relação próxima. Eu a defendia do meu pai, e em uma das brigas parei de falar com ele. Durou 16 anos. Minha mãe morreu aos 62, de câncer. Quando ficou doente, larguei tudo para cuidar dela. E foi um drama porque tive que conviver com meu pai. Mas, depois da morte dela, eu e ele ficamos muito amigos pelos seis anos seguintes. Até que também ficou com câncer, e passei cem dias grudada nele, até morrer, aos 68 anos. Apesar da infância difícil, não gosto de me fazer de vítima. Não combina com o que defendo para minha vida. Muita gente tem histórias de violência... Eu cresci e fiz a opção por ter uma vida gostosa, prazerosa, de realizações. Não sou 100% feliz, tenho uma tristeza permanente. Mas até agradeço essa tristeza, porque consegui, apesar disso – ou por causa disso –, ter a vida que escolhi.

“Apesar da infância difícil, não gosto de me fazer de vítima. Muita gente tem histórias de violência..."

Como é essa tristeza?
É uma tristeza crônica, mas que não atrapalha minha vida, porque não sou deprimida. Fiz 21 anos de análise, e uma hora você consegue administrar sozinha os problemas. Hoje, a filosofia me ajuda: Schopenhauer, Spinoza, Nietzsche, Marco Aurélio... Nunca tomei antidepressivo nem remédios que mudam o humor. Minhas amigas tomam e falam para eu tomar, mas não quero. Não bebo, nunca usei drogas. Acredito que essa tristeza me alimenta para ser quem sou, para ter a sensibilidade que me permite escrever o que escrevo.  Sei que vai passar. E, ao mesmo tempo, sei que nunca vai passar. Aprendi a viver com isso. É como minha insônia. Como sou muito ligada, tenho dificuldade de desligar. É uma característica. Prefiro viver de verdade, mesmo que seja duro, do que tapar ou mentir. Hoje tenho uma vida que me deixa satisfeita. E construí tudo sozinha, nunca dependi economicamente de homem.

Acredita que a independência da mulher realmente assusta os homens?
Acho isso o maior clichê! Os homens adoram uma mulher independente, realizada. Querem uma mulher admirável, com ideias interessantes, que desafie. Eles falam nas pesquisas que a mulher inesquecível é a que fez com que crescessem, mudassem. Por isso, tenho desconfiança quando os homens ficam falando que as mulheres deveriam ser mais leves... O que é ser leve? Lógico que quero rir mais, que quero ser mais feliz, me divertir, que quero uma relação mais gostosa, sem brigas. Se isso é ser leve, ótimo. Mas se ser leve é aquela pessoa sempre sorridente, que não desafia, que não quer uma relação instigante, aí nunca vou ser leve.

Essa leveza tem a ver com uma pesquisa sobre a risada que você fez no ano passado?
Sim. Pesquisei risada e felicidade e vi que as mulheres riem menos, que querem rir mais. Que não riem muito de si mesmas, que riem mais dos homens, mas não gostam de suas piadas “infantis”, “imaturas”. As mulheres querem se levar menos a sério. Ao mesmo tempo, têm uma dificuldade enorme com a autoimagem, com a opinião dos outros, com a seriedade que querem passar. Por isso, acho incrível uma mulher que consegue viver bem sem ter que se provar o tempo todo.

“As mulheres querem se levar menos a sério. Ao mesmo tempo, têm dificuldade com a autoimagem, com a opinião dos outros. Acho incrível uma mulher que consegue viver bem sem ter que se provar o tempo todo”

Se provar?
É. Provar que é independente, que tem valor, que faz coisas bacanas. Porque eu, desde cedo, tive essa necessidade de provar que tenho valor. Para mim e para os outros. O pior não é a insatisfação em relação aos homens, mas sim a mim mesma.

O que a deixa insatisfeita?
Não estou necessariamente preocupada com a ruguinha, com a celulite, mas quando profissionalmente não sou 1.000% fico insatisfeita. Por exemplo, quando dou uma palestra e 90% ri, mas 10% não. Às vezes penso como deve ser gostoso não ter que o tempo todo ter ideias inteligentes. Gosto muito de fazer tudo o que faço, mas é como se nunca relaxasse. Tem um movimento que não me permite usufruir o que já conquistei. Como se tivesse sempre que conquistar mais e mais e nunca fosse ficar satisfeita. E isso não tem a ver com dinheiro, com propriedade, nem com o corpo, nem amor, mas tem a ver com essa necessidade profissional de mostrar que tenho valor, criatividade. Quando olho uma mulher relaxada, que não está com grandes ambições, que parece satisfeita, falo: “Puxa, como deve ser gostoso isso”.

Quem são essas mulheres?
Às vezes idealizo que tem mulheres que não querem tantas coisas, que não precisam de aprovação, não querem investir tanto em algo. Estão simplesmente mais satisfeitas. Passam a imagem de estarem tranquilas. Mas pode ser só ilusão, porque, a maioria das mulheres que entrevisto, descubro que também tem insatisfações, tristezas, desejos, ambiguidades.

Vou fazer uma pergunta que você faz nas suas pesquisas: o que inveja nas outras mulheres?
Invejo mulheres que são muito seguras, confiantes, do tipo: “Eu sou o máximo, e quem gostar de mim gostou, quem não gostar problema dela”. Mulheres que falam: “Não tenho problema com a idade, namoro quem quero, não tenho medo de rejeição, faço o que tenho vontade”. Acho invejável. Agora, pode ter o corpo mais perfeito do mundo, não invejo. Ter a bunda sem celulite, o peito no lugar, não ter uma ruguinha, não invejo. Se ela tem isso para que o outro aprove, porque está insegura com o próprio corpo, não invejo.

O que inveja nos homens?
Pode ser só uma ilusão, mas acho eles mais racionais, eles se desligam mais facilmente de um amor quando termina. Parece que conseguem desligar uma chave, ligar outra e continuar 
a vida. Não sou assim. Continuo a vida, mas fico ligada a todos os meus amores de alguma forma, não só homens, mas amigos, alunos, minha mãe, meu gato que morreu. Já as mulheres que pesquiso invejam nos homens principalmente a liberdade e fazer xixi em pé [risos]. E, quando perguntei para os homens o que invejam nas mulheres, eles disseram: “Nada”.

Qual a maior queixa das mulheres em relação aos homens?
Trabalho com as camadas médias, mais intelectualizadas, que têm mais informação e contato com a psicanálise. Nessa elite, elas falam da impossibilidade de ter intimidade com o parceiro e que os homens não sabem escutar. Enquanto os homens falam que as mulheres não sabem compreender.

Você se identifica com esses depoimentos?
Muito. Com a queixa masculina e a feminina. Acho difícil compreender os homens, projetar as necessidades masculinas. E também tenho um anseio enorme de ter intimidade e uma escuta que às vezes é impossível para eles, que não entendem o que estamos falando. Não entendem uma escuta sem julgamento, sem falar logo uma solução, sem que racionalmente tentem 
resolver o problema. Os homens não conseguem transpor essa barreira, e as mulheres não conseguem compreender por que eles não conseguem. Então, cobram. Já saquei que essa falta não vai ser preenchida por homem nenhum. Vou ter que resolver comigo mesma, aceitando ou criando mecanismos para não sofrer com essas faltas. Mas as mulheres de modo geral ainda acreditam que eles são capazes de corresponder a todas as demandas.

 

Do que você sente falta?
De um pouco mais de segurança. Estou estudando a felicidade e acabei de ler que uma vida feliz seria aquela que tem equilíbrio entre segurança e liberdade. Ninguém consegue esse equilíbrio perfeito. Então, em determinados momentos, você opta mais por liberdade, e em outros, mais por segurança. A liberdade sempre pesou mais na minha balança. Então, sinto falta de um pouco mais de segurança.

Que tipo de segurança?
[Pausa] A coisa do aconchego, da proteção, do abraço...

Tem a ver com o fato de não morar com seu marido?
[Mirian é casada há cinco anos com um administrador de empresas] Sim. Quando mora junto, tem o convívio, fica mais segura. Quando tem um problema, o outro está do lado para ajudar a resolver. Sinto falta de ter alguém para me ajudar. Não sinto falta de um homem pra trocar a lâmpada queimada, porque isso meu porteiro faz. A minha falta é de um aconchego, de uma proteção mais cotidiana.

Por que fez essa opção?
A coisa de que mais gosto é a quietude. Por isso cheguei à conclusão de que pode ser melhor cada um no seu apartamento. Mas não tenho certeza porque também existem os problemas, as faltas decorrentes dessa situação.

Por que não tem empregada doméstica nem secretária para ajudar nas tarefas do dia a dia?
Porque não me ajudariam. O que mais me ajuda é o silêncio, a tranquilidade. O segredo para isso funcionar é não deixar nada para amanhã nem para daqui a 10 minutos. Está sujo, limpa, lava, varre. Tem que preparar a aula, prepara. Tem que entregar o artigo, entrega. Minha vida é muito organizada, simples. Não tem complicação.

Já namorou homens mais jovens?
Nunca. Não por preconceito, só não aconteceu. Mas acho maravilhoso. Gosto dessas relações que invertem a lógica cultural brasileira. A mulher que namora um homem mais novo não é só malvista, mas é invejada pelas mulheres que não têm coragem de fazer isso. Elas estão fazendo sua escolha: “Já sou poderosa, tenho minha independência, não preciso do homem para me proteger, para me dar o valor. Então, vou olhar para os homens que me interessam para uma relação prazerosa, com admiração, respeito”. Fiz grupos de discussão com mulheres 20 anos mais velhas que os maridos, e eles acham as mulheres o máximo. Estão felizes com a situação. Elas é que se sentem inseguras.

O que a atrai num homem hoje é diferente do que há 20 anos?
Quando era mais jovem, sentia admiração por poder, inteligência, autoconfiança, charme. Nunca foi o corpo, a beleza. Hoje a inteligência continua me atraindo, mas me atraio também por doçura, delicadeza. Ele não precisa mais ser poderoso, porque eu sou poderosa. Gosto de homem carinhoso, que saiba ficar em silêncio, que escuta. Mas o mais importante para mim, em qualquer tipo de relação, é o respeito. Vejo muita gente com a desculpa de que tem intimidade com aquela pessoa, usando a pior roupa, a pior cara, falando coisas agressivas, duras, que não falaria para mais ninguém. Muita gente se torna o seu pior num casamento. Vejo muito casal com um tipo de desrespeito que chamo de violência simbólica: aquelas provocações, irritações, picuinhas, humilhaçõezinhas ferinas. Vai aumentando e eles nem percebem.

Segundo suas pesquisas, por que homens e mulheres traem?
Não tem um único motivo. Entre os homens, tem aqueles que se dizem poligâmicos, que amam a esposa, mas precisam de aventura e conquista. Mas tem homens que traem porque estão em crise pessoal. Outros porque estão em crise no relacionamento. Amam a esposa, mas o casamento, o sexo não estão funcionando. Não querem deixar a esposa, mas está faltando alguma coisa que é importante para eles. E as mulheres traem por causa das faltas. Falta de amor, de atenção, de escuta, de intimidade...

Por que resolveu estudar a infidelidade há mais de 20 anos?
Tinha que fazer um trabalho no fim do meu doutorado sobre comportamento desviante. Pensei: “O que é mais desviante na nossa sociedade do que a outra, a amante? A puta tem o lugar dela, a esposa tem o lugar dela, mas a outra é a outra”. Era um tema tão comum, mas ninguém tinha estudado. Era um tabu. Um pouco antes do dia da entrega, minha mãe morreu. Fiquei um mês em uma casa de praia com uma amiga e, no momento mais difícil da minha vida, escrevi A outra. O [antropólogo e professor de Mirian na época] Gilberto Velho resolveu publicar. Virou livro e foi para a lista dos mais vendidos. Na época, eu nem estava casada, e quando dava entrevistas para divulgar o livro perguntavam: “Você é a outra?”.

“O mais importante para mim, em qualquer tipo de relação é o respeito. Muita gente se torna o seu pior num casamento. Vejo muito casal com aquelas provocações, picuinhas. Vai aumentando e eles nem percebem”

E você já foi a outra?
Não.

Já foi traída?
Acho pouco provável que não, de acordo com minhas pesquisas [60% dos homens admitem já terem traído, assim como 47% das mulheres]. Mas não sei por que sempre acreditei que eles não me traíram.

Já traiu?
Não. Não gosto de fazer confusão com a minha vida. Essa coisa de ficar atirando para todo lado, de ficar inventando coisa não me atrai. E é o que vejo na maioria das mulheres. Segundo as pesquisas, elas não gostam de se dividir.

Em 2008 você lançou o livro Coroas e já escreveu sobre a vontade de fazer um movimento ou um programa de TV com esse nome, que seria uma bandeira. Sente-se velha?
Não é uma questão de sentimento. No Brasil, a partir dos 30 e poucos anos, você é rotulada, já é etiquetada de velha. Quando fiz 40, fui num dermatologista que falou: “Vamos puxar aqui, esticar ali”. Fiquei em crise um ano. Mas decidi não fazer nenhuma interferência e foi ótimo. Nunca fiz nem peeling. E desde lá minha vida só melhorou. Na Alemanha, eu não seria velha. Mas aqui tem a etiqueta. Somos muito acostumadas com o olhar dos homens. Quando chega aos 40, eles não olham mais. Tenho 54 anos, e eles estão olhando para as meninas de 25. É óbvio que você sente uma invisibilidade que não deseja sentir, não foi isso que aprendeu. Mas prefiro assumir essa etiqueta e brincar com ela.

"No Brasil, a partir dos 30 e poucos anos, você é rotulada, já é etiquetada de velha. Quando fiz 40, fui num dermatologista que falou: “Vamos puxar aqui, esticar ali”. Fiquei em crise um ano."

O que piora e melhora com a idade?
Quero falar o que é diferente. A grande diferença é que coloco cada vez mais o foco em mim, nas minhas vontades. É a grande revolução da minha vida. Nos últimos quatro anos, aprendi a dizer não. Não gosto de festa, então era difícil quando dizia sim para todos os convites que recebia para lançamentos de livros, palestras... Me sentia culpada. Pensava: “Ninguém vai me chamar mais para nada. Se começar a dizer não, vão deixar de gostar de mim”. Mas não aconteceu isso. As pessoas entendem porque, de alguma forma, também estão tentando corresponder à demanda. Com o tempo, fiquei mais segura. Tenho mais coragem de dizer e escrever o que penso sem medo da opinião dos outros, da censura. Quanto ao corpo, tenho o mesmo peso desde os 20 e poucos anos e aprendi a olhar mais o conjunto da obra do que o detalhe. Me reconheço no espelho. E quero ser cada vez mais eu mesma.

O que é ser você mesma?
É usar as roupas de que gosto e não as que os outros estão esperando que eu use. É gostar do meu nariz, mesmo que ele não seja minúsculo e perfeitinho. Tenho carinho por quem me tornei. Mas meu ideal é dialético: é a junção de duas mulheres que fazem parte da minha história, que me inspiram muito. Queria ter uma junção da liberdade da Simone de Beauvoir com a felicidade da Leila Diniz. Mas já sei que só posso ser inteira a Mirian Goldenberg.

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